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Ponto Final

1
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
3/11/2007 · 91 · 10
 

Conto escrito em trio: vale a pena ler a "ficha técnica" para entender como...

Valeu a pena ter escolhido um caminho diferente do usual naquele dia. Andando pela rua, Adilson sentiu um cheiro que o remeteu a um tempo distante. A remissão não era perfeita, pois não estava claro quando sentira aquele odor, nem onde, mas sabia que havia sido muitas vezes. Era o cheiro de uma época, cheiro de rotina, de algo que vivera por muito tempo, algo que lhe fora familiar e que deixara definitivamente de ser. Tentava recuperar os dados faltantes para identificar o endereço daquele passado perdido, mas não o encontrou no olfato. O cheiro da casa do meu avô!, agora lembro, sonhei com ele hoje, é verdade, sonho com cheiro e tudo, só por isso o reconheci. Tudo isso a memória entregou de uma só vez. O sonho esquecido, o sentido do cheiro, o avô, as histórias do avô. Desde que perdeu a mãe, repetidora entusiasmada da história oral da família, Adilson nunca mais ouviu falar no avô, que nem mais em sonhos o visitava. Se voltava em sua primeira noite de aposentado (ou no primeiro passeio, como queira), devia ter uma razão.

Fato é que agora estava acompanhado do avô. Não do avô oficial contado por mamãe, protagonista de todos aqueles causos que a família inteira ouvira milhares de vezes. Quem voltava de um porão da memória era seu avô pessoal, o vô Gracindo de momentos que só Adilson seria capaz de recordar, ainda que não o tivesse feito por tantos anos.

A cena mais nítida era a do avô flagrado com a empregada. O constrangimento era terrível nos olhos de vô Gracindo. Assim como tinha sido a malícia, inédita, do olhar imediatamente anterior. Adilson guardou segredo por toda a vida. Mesmo sem entender bem o que via, soube logo que era coisa para se esconder. Assim fez, mentindo até para si mesmo e preservando a pureza dos olhos azul e cinza do velho. Só revelou o caso para a falecida esposa, numa ocasião que também convém esquecer, e, em seguida, apagou tudo novamente. Até passar por aquela rua.

O cheiro - como pode? - era exatamente o mesmo. De onde esse cheiro veio?, perguntou-se Adilson, procurando ao redor. Tarde para isso. O aroma foi embora e o ônibus chegou. Adilson caminhou para pegá-lo, no que foi ultrapassado por uma moça de saia, bem mais rápida, provavelmente atrasada como todos os jovens. Nenhum dos dois pagava passagem. Ela porque estudava; ele, velho.

O idoso gostou de encontrar vazio seu assento favorito, no fundo do carro, do lado esquerdo, corredor, com apoio para o braço. A maior parte da dúzia de passageiros que ocupava o ônibus concentrava-se, obviamente, do lado direito. É a preferência da maioria das pessoas, talvez por serem predominantemente destras, talvez porque dali podem ver quem entra e quem sai, quem espera no ponto, o lugar onde vão saltar, talvez para escapar do sol daquele horário, talvez porque nunca repararam nesse hábito vulgar. A menina de escola pública ficou um tempo de pé, tentando ver alguém na rua, e depois, curiosamente, optou também pela esquerda, sentando-se no banco anterior ao de Adilson, colada à janela.
Viva a experiência.

Do lugar onde Adilson viajava, mais alto do que o restante dos bancos da fila, pois ficava sobre a roda, tinha-se o melhor ângulo da garota. Sim, ela já lhe chamara a atenção subindo a escada, mas agora estava ainda mais bonita. O rosto e a atitude sugeriam uns quatorze anos (catorze, escreveria ela), mas o corpo insinuava mais. Era farta onde devia ser e certamente gostava de usar aquela saia. Cruzadas, as coxas se amontoavam umas sobre as outras. Falando assim parece até que eram muitas, mas de fato parecia. Havia perna de sobra.
(Continua no anexo!)

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informações

Autoria
Helena Aragão, Marcos Hecksher e Mário Grangeia.
Ficha técnica
Este texto foi feito a seis mãos. Três amigos de faculdade se pilharam para escrever um conto juntos. Como os encontros eram esparsos, a brincadeira foi por email mesmo. Cada um fazia um parágrafo e o outro continuava. (Foi preparando este texto aqui do Overblog com outro amigo que lembrei desta história). Lendo hoje, depois de anos (pelo menos cinco), nem me lembro mais quais parágrafos são de minha autoria. E, se os meninos me permitirem, nem acho grandes coisas - o que é até natural, já que os três autores deram os rumos que quiseram ao texto, sem consultar o outro. No fundo, isso não tem a menor importância, porque o que importava era a aventura. Achei divertido ler agora e ver como a gente deixava umas cascas de bananas no caminho, para o outro continuar.
A verdade é que, graças a essas brincadeiras literárias de tempos em tempos, o trio continua se vendo até hoje com certa assiduidade.
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Paulo Esdras
 

Baixei. Assim que terminar, voltarei para votar. Bjos!

Paulo Esdras · Brumado, BA 1/11/2007 19:22
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j.alves
 

muito bom

j.alves · São Paulo, SP 1/11/2007 21:20
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Felipe Henrique
 

LEGAL

Felipe Henrique · Mesquita, RJ 1/11/2007 22:56
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Noelio Mello
 

Helena.
Texto excelente. Se você não contasse como foi feito seria impossivel descobrir que foi escrito por seis mãos, mas com uma só mente. Verdades da vida, Helena, nuas com se apresentam. Texto que caminha no tempo com um primor de detalhes.
Fica uma vontade de querer mais. De saber mais. De saber como continuou a vida de Adilson e dos personagens que o rodeiam nesse conto encantador.Sugiro uma continuação.
Parabenize, também, seus parceiros.
Abraços
Noélio Mello

Noelio Mello · Belém, PA 2/11/2007 08:09
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Helena Aragão
 

Obrigada, gente! Uma continuação depois de tantos anos seria mesmo engraçado, Noelio... Quem sabe!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 2/11/2007 09:02
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Benny Franklin
 

Quem conta 1 conto, é humano; mas quando são 6 que contam, torna-se multihumano. Rs.
Belo!

Benny Franklin · Belém, PA 2/11/2007 13:55
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Cintia Thome
 

Interesante texto, interligare...elos bons...Fusão boa Helena Voto

Cintia Thome · São Paulo, SP 2/11/2007 15:35
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Helena Aragão
 

Hehe, Benny. Na verdade 6 mãos. quem sabe na próxima batemos o recorde, botando mais gente (rumo ao Guinness!)
Valeu, Cintia. Pelo menos nos divertimos bastante pra fazer!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 2/11/2007 18:36
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Marcos Paulo Carlito
 

Dá pra notar, sim, 3 estilos de texto. Vou arriscar um palpite.

O 3º e o 6º tem mais desenvoltura, suave e próprio para a leitura de um conto (ao meu gosto).

Resta saber quem o escreveu. Você? Não sei... difícil dizer sem conhecer o estilo textual da pessoa. Mas, superficialmente, pelas dicas por mim colhidas em breves momentos aqui do Over, meu palpite é que tua parte do texto poderia ser o 2º e o 4º parágrafo (objetivo e direto).

Grande abraço Guaicuru!

Marcos Paulo Carlito · , PR 3/11/2007 11:40
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Helena Aragão
 

Caramba, Marcos! Então, eu não lembro quais são os meus. Talvez um ou outro, mas não tenho absoluta certeza de todos... Valeu.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 5/11/2007 13:41
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