Recostado na sua cadeira, uma cadeira larga e quebrada, polvilhada com cinzas, meu pai passa os canais da TV, toma outro cálice de Seagrams, simples, e pergunta o que fazer comigo, um rapaz novo e verde, que nem considera a falta de sentido do mundo, desde que as coisas se me tornaram fáceis.
Fixo os olhos na sua cara, um olhar que lhe afasta a testa; estou certo de que ele não tem consciência dos seus negros olhos de água, estes que balançam em diferentes direções, e
dos seus lentos e indesejados espasmos que demoram a desaparecer.
Ouço, aceno abertamente até tocar na sua pálida camisa bege, gritando, gritando nos seus ouvidos, pendurados com
lóbulos pesados; mas ele está a contar a sua piada, e então pergunto-lhe por que parece tão infeliz, ao que me responde….
Mas eu não quero mais a porcaria da resposta, porque passou
todo o tempo, e por baixo da minha cadeira eu tiro o espelho que guardei. Eu rio-me, rio-me à gargalhada, o sangue escorre da sua cara até a minha, e cresce um
pequeno lugar no meu cérebro, algo que deverá ser extirpado, como se fosse um caroço de melancia, com os dois dedos.
Papai toma outro cálice, simples, repara na pequena mancha de âmbar nos seus calções, igual à que eu tenho nos meus, e faz-me cheirar do seu cheiro, e este vem apenas de mim.
Ele continua a passar os canais, recita um poema antigo que escreveu antes de a sua mãe falecer, levanta-se, grita, e pede um abraço, assim que eu me encolho, com os meus braços mal conseguindo dar a volta ao seu grosso e oleoso pescoço, e às suas costas largas, porque eu vejo a minha cara emoldurada na armação preta dos óculos do papai.
E descubro que ele também se ri.
Belo texto esse! Só que o autor não sou eu.
Quem é ele?
É alguém do sexo masculino, de tez bronzeada, como disse o Berlusconi, aquela Martha Suplicy que eles têm de suportar lá na Itália.
Adivinhou?
É com orgulho que lhes apresento um impensável colega beletrista, graças a uma indicação da amiga Inês Ramos. Com direito a aparecer num importante jornal do seu país.
Adaptei algo da tradução lusitana do Tiago Nenê.
Ficou exelente meu caro Circus! Um primor para se ler logo pela manhã. Copiarei a poesia e mandarei ao meu editor para publicar no suplemento de sábado do jornal que escrevo! Um forte amplexo!
raphaelreys · Montes Claros, MG 15/11/2008 07:07EM TEMPO: Copiei a poesia do Barak Obama, bem dito!
raphaelreys · Montes Claros, MG 15/11/2008 07:07
Excelente!
parabéns mais uma vez querido poeta pelo teu postado!
beijo no coração!
No estilo, muito bem escrito...
Obrigado pelo convite.
Muito bom.
Circus do Suannes · São Paulo (SP
Pop
Um texto admirável e o seu desdobramento abrangendo até o nosso novo Presidente Obama, na sua forma Shakespeariana.
Extraordinário para ler.
Parabéns.
Abração Amigo
Suannes,
Uma lufada de vento esse poema. Jurei que era seu e, surprêsa, é da nova celebridade dos USA. Carismático, este Obama. Sensível e inteligente, até clichê dizer. Emocionante foram as imagens que ví, televisionadas pelo mundo afora, todos felizes, celebrando uma Nova Era. Beautiful day, amigo! Beautiful words!
Agradeço o convite!
Realmente, nem imagino quem seja, nem o pai, nem o filho...Estou aqui a pensar, mas, não consgui explicação nenhuma....Dê mais algumas dicas...bj Langinha.
Já li coisas do Obama, de quem sou fã, mas, não me parece seja ele e o pai, hein ???? Essa estátua confunde a gente...Nem tenho notícias que o Obama faria poesias, mas, já que ele é versado em tantas coisas, quem sabe...Sou fã desse "moreninho"...Bj Langinha...
Langinha · São Paulo, SP 15/11/2008 10:27
Adauto,
Maravilha você trazer até nos o presidente poeta.
Por certo Barak Obama vai arrasar,
isto, se não se perder entre o sonho e a realidade.
bjs
Eu ganhei quando você disse "tez bronzeada", mas não quero receber o premio. Arghhhh. Não é o seu caso, mas é engraçado como, após o estupor da vitória, o mundo está destrinchando a vida do coitado na busca de alguma nódoa: drogas, mulheres. Já ouvi até que ele teve caso com Scarlet Johanso, a atual "queridinha" de Woody Allen, e que, aliás, acaba de se casar ( com um branco, não político) .Adorei a frase, " quando eu era jovem e irresponsável, eu era jovem e irresponsável" Palmas. Lila Su
Lila Su · São Paulo, SP 15/11/2008 12:51
Circus,
belo e sensível texto do Obama, mais prosa que poesia, ou prosa com poesia. Só espero siceramente que, comom poeta, ele seja um ótimo presidente. Os EUA precisam. Obrigado pelo convite,
Abraços
É Grande mestre às vezes também penso que o tempo real não existe, Tenho uma facilidade muitogrande da volatização do eu pena que não tenha o conhecimetno que o sr têm. Parabéns
Coluna do Domingos · Aurora, CE 15/11/2008 19:04
Pouco tempo pra gente realizar tantas coisas !
um beijo !
Belo achado, Suannes.
Não que Barak Obama seja a salvação do mundo
Mas que ele tenha a sensibilidade do poeta
Para, ao menos, tentar fazer um mundo melhor.
belo achado
um abraço
Faço minhas as palavras de Edimo...
O texto vem em boa hora.
R. Rimet
E se Obama fosse africano?
Por Mia Couto
Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
.........
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer.
Jornal "SAVANA" – 14 de Novembro de 2008
Há muito que construir, certamente, nesses vazios espaços-cheios-de-intolerância.
Aglacy · Aracaju, SE 16/11/2008 23:32
Obama é o novo sonho...
Belo texto, referências
Obama Poeta?
Um dos meus mais ainda.
Um abraco Suannes
abab
Voto em você, e, palmas para o poeta Obama...Boa semana. Bjs
Solange.
Que ele leve para os EUA a sensibilidade dos poetas! Abs!
Paulo Esdras · Brumado, BA 17/11/2008 09:25
bem lembrado...o cara é fera !...torcemos todos por suas vitórias todas...
Só espero que o deixem governar...
E que se o fizer, faça com bom senso, e que não lhe suba o poder pelas ventas, e que não faça como fez aquele que emocionou e tanto festejo teve, nos idos de 2003, com 60 milhoes de votos e virou um bufãozinho ridículo, imcopetente e corrupto...
Ave, Obama ! (leia aqui)
Que maravilha! Um homem sensível...um poeta...um possível libertador! Bjos
Iva Tai · Manaus, AM 17/11/2008 11:41Excelente. Sempre pensei assim, mas quando pude ler, soou bem real. Ainda bem que existem pessoas sensíveis e capazes, desta forma partilhamos opinião.Ja não me sinto tão só.
giselle sato · Rio de Janeiro, RJ 17/11/2008 13:25
Suanes,
Grande formador de opinão gostei muito!
abraços
Suannes.
Magnifico, amigo. Renasce uma esperança...no coração da terra...nos olhos do homens.
Para copiar e guardar...nos vãos da alma.
Abraços
Noélio
Noélio
poetas também são presidentes e ou...!
BREJAL DOS GUAJAS
Brejal, ai meu Brejal,
Brejal dos Guajajaras,
Morrer em ti, ai Deus,
Morrer em ti, ai Deus,
Tomara ...
Valsa de Zé Binga
Em pace, em pace,
em rua, em rua,
Ai meu Deus, padecendo
sem culpa nenhuma!
Incelência do Olho-d’Água Seco
Brejal, Brejal, terra querida,
Brejal, ai meu Brejal,
Motivo da minha vida,
Dizer adeus a ti, ai Deus,
Não digo tal ...
Parabéns por ter-nos apresentado O Barak Obama como um poeta sensível e esperançoso.
God bless America and entire world too.
Abraços
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