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POR HORA DA MORTE - CONTO - PARTE I

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jjLeandro · Araguaína, TO
23/12/2006 · 99 · 3
 



Vender nunca foi tarefa fácil todos sabemos disso. Ainda mais em tempo de crise permanente como o que vivemos. Para atingir a hercúlea tarefa de vender, dois objetivos são básicos: preço atraente e extrema necessidade do produto.
Fui jogado no torvelinho do comércio de venda externa de forma insólita, tempos atrás. Emprego estava difícil, a irrecorrível precisão de comer e viver pressionava-me, e , numa dessas, qualquer biscate transforma-se numa sinecura. Em momentos assim nos obrigamos a ser versáteis. A missão não era das menores, avaliei, quando me apresentei ao proprietário da empresa com o recorte do anúncio de emprego que estava no jornal: vendedor de urnas para uma funerária. Quase recuei, mas não havia opção, decididamente estava encurralado. Refleti com frieza e aceitei o emprego, julgando que ser coveiro era ainda bem pior.
Aliviado, parti para minha primeira investida, remoendo a sentença do proprietário, carregada de um tom mordaz: o produto deve agradar o gosto do cliente. Resolvi visitar um bairro afastado, muito pobre, movido por uma psicologia rasteira e mórbida que teima em farejar cheiro constante de morte entre a pobreza. Acurei as vistas e procurei entre tantos barracos acanhados e tristes um que pudesse abrigar um cliente potencial. A meticulosa pesquisa pelas ruas às vezes obrigava-me a desviar de um apressado condutor de bicicleta, outras vezes a correr de um cachorro famelga e intratável, metido a molosso, mas supus achar o que buscava: um pardieiro impossível de decifrar se era construído de adobe e remendado com aparas de madeira ou vice-versa. Diante de tanta indigência acreditei ter exagerado em meu método de identificação do clássico cliente para o meu produto, mas, conjeturas à parte, só a prática confirmaria minha tese.
Minha indumentária preta, é bom dizer, estava a caráter, a ponto de incutir no cliente a desventurada certeza de precisar mais de um agente funerário do que de um médico. Bati à porta, a princípio hesitante, e, após um breve intervalo, como não houvesse resposta, mais veemente. Passos miúdos e lentos vieram em meu encontro. Alegrei-me. A porta se abriu mostrando-me uma velhinha pelancosa, cujo aspecto decrépito nem a penumbra do pequeno ambiente mal arejado conseguia esconder.
Pedi um pouco do seu tempo, fui convidado a entrar na sala miserável e não tendo onde sentar, ofereci-lhe em pé o produto à venda com máxima circunspecção. Quando senti que a velhinha ia iniciar uma resposta, um gemido roufenho, oriundo da peça contígua, um quarto de dormir, pensei, paralisou-a com a boca aberta. Imediatamente arregalei um olhar de triunfo que esquadrinhou ansioso todos os recessos do diminuto cômodo, após ter avançado sem autorização até a soleira da porta em busca do autor do desenganado som. A penumbra era ainda maior e tudo que pude distinguir foi um vulto esquálido num catre pobre. “É o meu marido, doutor”, disse ela, abaixando a voz, para em seguida completar: “os médicos disseram que é caso perdido, é aquela doença tinhosa que eles chamam de câncer que está devorando ele por dentro”. Fiz uma cara compungida, improvável que ela tenha visto naquela escuridão, mas não podia desejar ocasião melhor. Algum ressaibo de consciência tratei de afastar, judiciando intimamente que a tristeza de um é a alegria de outro. Com ar impostado de bom conselheiro enfatizei que ele precisaria de um caixão para quando chegasse a hora, que tarda para todos nós mas sempre vem; para ele, já não era o caso de tardar, infelizmente, apressei em dizer-lhe.

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informações

Autoria
jjLeandro
Ficha técnica
Jornalista e escritor, 46, residente em Araguaína -To. Autor do livro de poesias Quase Ave, com o qual ganhou o concurso literário nacional para autores inéditos Cora Coralina em 2002, em Goiânia

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Fábio Fernandes
 

Ótimo, JJ!!
Só uma sugestão de correção, sem querer ser chato mas já sendo: justo a primeira frase está sem pontuação, saca só:

Vender nunca foi tarefa fácil todos sabemos disso.
Acho que depois do fácil falta um sinal de pontuação. Também não vou ser pentelho a ponto de te dizer qual é, deve ter sido erro de digitação na pressa.

No mais, muito bom!!!!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 23/12/2006 13:50
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jjLeandro
 

Falou, Fabão, você está certo. Só que agora não tem mais jeito para a correção porque não está mais na sala de edição. Mas valeu sua dica, mano.

jjLeandro · Araguaína, TO 23/12/2006 13:57
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carlos alberto
 

Muito bom!Muito bom!

carlos alberto · Ribeirão Preto, SP 23/12/2006 15:52
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