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POR HORA DA MORTE - CONTO - PARTE II

1
jjLeandro · Araguaína, TO
23/12/2006 · 98 · 3
 

Ela chorou lágrimas secas, arrastei-a pelo braço para fora do quarto e ofereci-lhe um lenço negro de algodão que ela pegou num movimento lento de mão, como se apanhasse um objeto invisível tamanho era a escuridão.
Ela ainda quis argumentar que ele estava mal, mas ainda vivo. Procurei esclarecer que esses casos não devem ser deixados para a última hora, pois a derradeira é sempre a pior, alucinada pelo choro e o desespero que tiram a razão e o morto corre o risco do vexame de baixar à cova nu de caixão. Havia também a possibilidade de a última hora ser a qualquer momento, nesse minuto ou no dia seguinte. E emendei, convincente: “nesse caso a pressa é a própria perfeição!” Enfim ela cedeu, mas havia um empecilho a superar: o pagamento. Ela foi humílima: “sabe o senhor que morto sem dinheiro não merece caixão, e eu sou uma aposentada sem dinheiro, o que tenho aí mal chega para um terço do valor”. Não me dei por achado, faria em três pagamentos, entrada mais dois, pois já se podia no país morrer à prestação, que os tempos eram outros, estava visto.
Superando a ignorância e a ingenuidade, ela levantou timidamente a possibilidade de levar um calote. A mim seria entregue dinheiro vivo, e o que a garantiria? Em papéis não confiava, sobretudo por não saber ler, o que fazer? Simples, eu entregaria o caixão no ato do pagamento da entrada. “Mas o senhor quer o dinheiro agora”, defendeu-se ela. “Sim! Pois aguarde um momento que trago o caixão para fechar o negócio”.
Ela não queria o caixão exposto em casa para não agourar o velho, além do que o espaço na casa era exíguo para acomodá-lo. “Não seja por isso, a gente fecha o contrato e já levamos o moribundo para o cemitério quando o caixão chegar. Um serviço completo”. “Enterrá-lo vivo!?”, esconjurou a velhinha. “É apenas uma questão de abreviar sofrimento para ele e trabalho para a senhora. Ademais, tem gente por aí deliberadamente sendo enterrada viva em busca de publicidade na mídia, a senhora entende?, jornais, televisão, essas coisas. Pode ser o caso dele”.
Sem mais forças para contestar, ou para livrar-se de um incômodo vendedor, ou ainda aceitando o conselho para abreviar seu calvário que era o trato do moribundo, a velhinha aquiesceu com a esdrúxula transação.
Em pouco tempo o velhinho estava dentro do caixão num rabecão de segunda classe rumo ao cemitério, sem estranhar a escuridão, mas ainda emitindo os desenganados gemidos roufenhos.


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Autoria
jjLeandro
Ficha técnica
Jornalista e escritor, 46, residente em Araguaína -To. Autor do livro de poesias Quase Ave, com o qual ganhou o concurso literário nacional para autores inéditos Cora Coralina em 2002, em Goiânia

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Fábio Fernandes
 

Porra, vá ser cruel assim na casa do Zé-do-Caixão! :-D

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 23/12/2006 13:52
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Sara
 

Nossa....realmente cruel. Esse vendia qualquer coisa

Sara · Palmas, TO 23/12/2006 23:40
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Sebastião Firmiano
 

Parafraseando outro poeta.
Tanto negócio / tanto negociante/ tanta negociata,que até os
incautos, hoje já são espertos,
Sou seu fã.

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 24/12/2006 00:04
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