Por mim, por ti, por todos nós

Andocides Lemos
1
Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ
11/5/2007 · 99 · 18
 

Desenho: Andocides Lemos (com Paint)

É na antemanhã dos conjuntos do BNH
quando as amélias dos subúrbios
(mulheres de sub-homens e filhos subnutridos)
sacodem das rugas-sulcos o sofrimento
da noite
noite que em sua química de estrelas e sonhos
atenua a promissória atrasada a conta de luz
do açougue da água do esgoto e a taxa do lixo
lixo
que por extensão é seu corpo sua vida seu homem seus filhos
que por extensão é o grito contido na garganta é o fel é a faca
que por extensão é o operário da fábrica DeMillus na Penha Circular
(que enquanto chupa magras tetas sonha belos peitos de um filme francês)
que por extensão é o negro suado ao sol do meio-dia que rasga
o ventre da avenida como se rasgasse o ventre da fragilburguesia
de Ipanema ao Leblon.

É na antemanhã das favelas-favos-famintas
quando pelos morros rolam rotos restos de sambas e ilusões
quando cervejas e cachaças se misturam nas bocas desdentadas
bocas
que conversam sonhos fumês das vitrines da Mesbla
mescla de tapetes dourados frisos e risos de manequins calados
quando a fila dos meninos-homens e mulheres desgraçadas
se empilha à porta do INSS
do juizado
das delegacias
dos bares
dos prostíbulos
e sob a marquise do Cine Madureira
(ali na estação dos trens onde casais de namorados se masturbam
nas últimas filas da última seção de cinema).

É na antemanhã de meu apartamento
onde minha mãe dorme espiada pelo despertador
e minha irmã sonha com um belo rapaz de olhos azuis
azuis
como os primeiros trens de Japeri para Dom Pedro II
que despertam lentos pelos trilhos e que
lentos
vão cuspindo pingentes miseráveis pelas portas
plataformas da manhã de daqui a pouco
(são homens que de marmita sob o braço desfraldam camisas de chita como bandeiras de um país agrário – este é um povo rural!
homens que imaginam terra e trabalho comida e filho nutrido
que sonham salário digno colégio livre e livro pro joãozinho e
que exibem na cara uma expressão de raimundo ou severino).

É na antemanhã desse instante
nessa hora
que acontece em mim
acontece em ti
em todos nós
(como um amálgama de sonhos e pesadelos)
a esperança!
Sentimento que se faz lento e sempre do meu canto
torto e pouco
pouco e tanto
e que no entanto é mais que um tanto
é tudo
todos
operários lavradores bóias-frias estudantes
desempregados camelôs favelados...
todos
além dos deuses e demônios mortos da minha infância nordestina
comprometidos com este meu ser de quase desespero, raiva e poesia.

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informações

Autoria
Nivaldo Lemos
Ficha técnica
Poesia anos 70
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Francinne Amarante
 

..poesia anos 70 ?

o artista verdadeiro é humano. sente, sofre e sonha. e faz de conta. e faz um conto. vários desencontros para o ante-encontro consigo.
(...) todo artista é humano.

BELÍSSIMO E REAL

sem MAIS palavras

Francinne Amarante · Brasília, DF 8/5/2007 21:15
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Nivaldo Lemos
 

Francine,
poesia anos 70, por que a fiz na época... Só pra localizar as pessoas. Obrigado por sua palavras tão gentis. Abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 9/5/2007 10:32
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Nivaldo Lemos
 

Por desatenção, acabei comendo um n do seu nome, desculpe-me Francinne.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 9/5/2007 10:34
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Francinne Amarante
 

eu havia entendido, mas continua tão atual seu poema que provoquei a pergunta?
...um n é só um n... nesse caso.
grande abraço
Francine francinne fran

Francinne Amarante · Brasília, DF 9/5/2007 14:19
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Que anos 70 mais Século XXI! Suas palavras dobrando o milênio, beijando o chão das mesmas imagens, a sempre renovada desigualdade... Menino, aconteceu uma coisa comigo nesta leitura: sua poesia saiu de dentro de mim cantada, arrastada, um rap. Virou música na minha cabeça. É um atualíssimo videoclip. Imagens que continuamos colhendo por aí, ao léu da vida e das ruas. E que nos chega agora assim, dos longinqüos anos 70, com todo o peso e dignidade da sua poesia.

Cida Almeida · Goiânia, GO 10/5/2007 15:34
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Nivaldo Lemos
 

Cida,
suas palavras me comovem tanto pela poesia que contêm como pela constatação de que o que fiz, e ainda o faço, possa inspirar comentário tão bonito e dignificante como este seu. Estou emocionado. Nem sei o que dizer, a não ser muito obrigado. Obrigado mesmo. Um forte e sincero abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 10/5/2007 15:59
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Adroaldo Bauer
 

são homens que de marmita
sob o braço desfraldam camisas de chita
como bandeiras de um país agrário
– este é um povo rural!
homens que imaginam terra
e trabalho
comida
e filho nutrido
que sonham salário digno
colégio livre
e livro pro joãozinho e
que exibem na cara uma expressão de raimundo ou severino


Outro parênteses, além desse seu aí de cima: os nordestinos que nos encontramos em Overmundo, pelo menos eu cá nos sul desde um ano de idade, nos encontramos também em tese, prosa e verso.
Ainda que o país de hoje, seja de 83% que moramos nas cidades, os serviços, as mercadorias, a riqueza, continuam na mão das mesmas minorias (eles chamam de agribizines, agora), que mandam ou se associam aos financistas pra mandar.
Tua prosa é poesia bonita que fala sem meias da realidade nua.
É crua e saborosa.
Publique mais Nivaldo.

(peço licença pra avisar: tô tirando meu livro da gráfica hoje, vou lançar em 31 de maio, na Palavraria, Livraria-Café)

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 11/5/2007 10:47
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Nivaldo Lemos
 

Obrigado, Adroaldo. E parabéns pelo lançamento. Pelo pouco que li, "O Dia do Descanso de Deus" será um sucesso. Espero que haja lançamento aqui no Rio, para que eu também possa lhe dar os parabéns e um abraço pessoalmente.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2007 11:13
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Adroaldo Bauer
 

Nivaldo. Agradecido pelas generosas palavras. Que Tutatis te ouça e não despeje os ceus sobre nossas cabeças.
Ainda falta um pouco pra tanto, ir aí e noutros lugares que já me convidaram.
Tirei por conta mil exemplares.
Vou distribuir por aqui até a Feira do Livro, em outubro.
Se algum editor se interessar até lá, talvez possa mesmo estar aí.
E dia desses a gente se encontra.
Posso te enviar um exemplar se quiseres.
Até o lançamento vai custar R$ 20,00. Tem 104 páginas.
Depois veremos que reço vai ficr para levar às livrarias.
Se tiveres condições além do interesse já demonstrado, pelo que agradeço de coração, manda um e-mail para adroaldo@portoweb.com.br
Tô pensando em fazer e-book, também, depois que registrar na Biblioteca Nacional.
Mas ainda vai demorar um pouco.
Acabaram de me ligar lá de casa dizendo que já entregaram o livro.
Vou correr pra lá.
Té mais.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 11/5/2007 15:09
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Nivaldo Lemos
 

Adroaldo,
Vou querer um, é claro, e autografado, mas só lá pro início de junho, pois minha grana este mês já foi (o preço que você deu já inclui o frete?). Já salvei seu e-mail nos meus contatos. De qualquer forma, sugiro que você ofereça o livro também a todos os overmanos - acho que tem um espaço pra isso no Over, não? Um abraço e boa sorte, amigo.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2007 15:24
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Adroaldo Bauer
 

Pago o frete até o dia do lançamento.
depois ainda não sei como será.
Se reservares até 31.05, considero como antes, mesmo que te envie em junho.
A overmaninha Juliaura fez uma entrevista comigo e apresentamos os livro juntos. A colaboração dela está na fila de edição.
Talvez seja suficiente.
Eu não sei bem como fazer de modo diferente.
Talvez agenda possa ser um canal.
Vou pesquisar.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 11/5/2007 16:00
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Cida Almeida
 

Caro Adroaldo, não se esqueça de reservar o meu.

Cida Almeida · Goiânia, GO 11/5/2007 16:22
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Nivaldo Lemos
 

Olha aí, pessoal, vamos organizar a fila... São apenas mil exemplares, quem vai querer? Vamos nessa. É literatura de primeira por apenas 20 merréis, mais barato que uma pizza! E também é delivery , mas não engorda o corpo e alimenta a alma. Só não esqueça de guardar o meu, Adroaldo!

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2007 16:44
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Adroaldo Bauer
 

Tá guardado, Nivaldo.
Vais mandar o endereço, por supuesto!
Agradecimentos mis pelo reclame!
Oh! Cida, com certeza, com muito gosto.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 11/5/2007 17:55
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edujr
 

vejo milhões de rostos,
ouço zilhões de passos,
gostei do ritmo poético,
gostei das conexões emocionais...
parabéns!
abraço.

edujr · Mineiros do Tietê, SP 11/5/2007 19:23
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carlos magno
 

Parabéns pelo texto, Nivaldo e a imágem do Andocides também é um desenho, sensacional.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 12/5/2007 20:48
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Nivaldo Lemos
 

Obrigado, Carlos Magno. Meu irmão também agradece o elogio ao desenho. Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 14/5/2007 10:25
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Cláudia Campello
 

...e rasgas os verbos em misto de dor e orgulho de ser e saber ser.....poeta dos bons.
amando te saber aqui.

bjsssssss;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 13/5/2010 23:14
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