enquanto no jardim dois meninos brigavam de tirar sangue por um pedaço de pão sujo, seu avô, a um canto, sorvia uma sopa rala. o velho os chamou. tomou o pão. disse que, se eles se comportassem, ele lhes contaria uma história. curiosos, calaram.
“no início de tudo”, começou o avô, “há muito, muito tempo, antes mesmo que o avô de meu avô fosse neto de um neto, não havia lua e a noite era triste e escura, o que fazia a gente toda rezar ao Sol por dias mais longos, pois a noite era insuportavelmente só. cansado e aflito, mas infinitamente sábio, o Sol foi pedir ao Grande Artífice que preparasse algo que fizesse da sua ausência uma ocasião especial, para que dele não sentissem tanta falta seus bons fiéis. o bom engenheiro pensou, pensou, pensou, e decidiu fazer um grande pão redondo, semelhante ao próprio Sol mas com bem menos brilho, para iluminar a noite sem transformá-la em dia. todos achariam tão divertido aquele pão branco no céu, que nem notariam a ausência do Sol. levou metade do que viria a ser um mês trabalhando. ao terminar sua obra, cansado, pôs-se a dormir o mesmo tempo que gastara na lida”.
“acontece que o Grande Artífice”, seguiu o avô, “tinha um filho moleque que nem vocês, e o matreiro resolveu comer o pão que seu pai fizera. gastou para essa atividade o mesmo tempo gasto na criação, comendo-o enquanto o padeiro dormia. ao acordar, o Grande Artífice pensou que sonhara com a concepção do que viria a ser a Lua e resolveu recomeçá-la, achando que era a primeira vez. novamente gastou meio mês e novamente dormiu ao fim. e o filho novamente devorou o pão na outra metade do mês. tornou-se um espetáculo tão glorioso, que muitos esqueceram de cobrar do Sol mais presença, e assim o objetivo foi cumprido”.
“vem acontecendo desde então essa transformação contínua do pão celeste”, disse o avô. “quando a Lua vai se formando e depois se consumindo, é que o deus a vai fazendo e seu filho devorando.”
ao fim da narrativa, o velho perguntou aos dois pequenos qual era a grande lição da história. não souberam dizer. “é simples”, respondeu o avô, “não deixe crianças perto de pães”. e devorou o pão.
Muito bonito!!
O encantado nos transporta e nos conforta.....
Salve Diego!!!
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