Quarta-feira de cinzas, 6 e 37 da manhã. Uma figura qualquer se resigna no calor da manhã litorânea com o seu débil corpo prostrado no meio fio e as costas apoiadas num poste de cimento cru.
O jovem folião usa um tênis Bamba velho e enlameado e ostenta, numa das mãos, uma garrafa de batida de tamarindo, que ele absorve de quando em vez em grandes e prazerosas goladas, aguardando sôfrego, porém resignado, o ônibus que o levará à realidade.
Weslley Snaytes dos Santos Rocha, de nome e sobrenome falsificados, tem aparência de pobre comum: Jovem esguio, de tez parda como acarajé, olhos redondos, lábios vivos e esperança latente. Sua alma jovem, porém cansada, perambulou desde as 4 e 13 da manhã, quando o último trio elétrico tocou o derradeiro acorde daquela sinfonia de Dante.
Todavia a festa acabou... Não há mais trio, não há mais música, abadá ou fantasia, percebe-se tão somente o mar do Farol de Santo Antonio da Barra coberto da ressaca momesca, findada no calor da manhã de cinzas, deixando na orfandade milhares de suburbanos destroçados, que se recusam a retornar à realidade fria e sem amparo.
DiluÃdo nas águas salgadas da BaÃa das Contradições, o jovem suburbano, que é a sÃntese daquele microcosmo, segue procurando o fog que fantasiava seu olhar; Ele olha para um lado, olha para outro e não vê ninguém, não vê nada, só o vazio, a exaustão e o fim. Prosternado no meio fio, Weslley Snaytes presencia a escuridão de um lugar ermo e sem horizonte, vê-se sozinho numa caverna úmida, finita e sem amparo e, nesse pequeno e eterno momento, nesse parco e monossilábico segundo, seus olhos, alheios ao silêncio que o mundo insiste em criar ao derredor, externam a sua alma, falam tudo que ele não gostaria de expressar, discorrem sobre a dura realidade, sobre a vida sem sentido e a inumanidade, dissipando a neblina colorida de sonhos que fantasiava sua vida mascarada, arrebatado pelos sabores calientes do carnaval num ponto infinitesimal da América dos Fracassados. Como diria um adágio contemporâneo: “Afora o carnaval, só resta a desgraça.â€
Alguns momentos de felicidades, depois um solidão sem esperança.
Muito bom!
Abraços
O carnaval é uma das neblinas que escondem a realidade desamparada.
abraços, caro.
Ok, Novo Poeta. A busca da "batida perfeita" nunca termina. Este site funciona como um ótimo laboratório de experimentações .
jair · Manaus, AM 15/9/2008 22:31
Jair,
belo conto.
Quando a festa acaba,
a realidade assusta.
mas também...
não se vive só de futebol,
batida e samba.
bjssss
São tres dias pra tudo se viver,esquecer as agruras da vida
Um conto de fadas passageiro
O despertar pode trazer marcas incuráveis até,dessa alegria tão efêmera
Um beijo grande e bom dia
Acho que é um despertar para a realidade. Se é bom ou ruim... Cada um tira as suas conclusões.
sakaki · Manaus, AM 16/9/2008 21:10Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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