Já morei com minha avó.
Já ganhei lanche a mais, escondido.
Já pulei muro.
Já ralei o joelho nele.
Já corri de cachorro.
Jogava 'golzinho' na rua.
Subi no telhado.
Quebrei algumas telhas.
Nunca aprendi a soltar pipa.
Muito menos a andar de skate.
Ganhei a primeira bicicleta com 7 anos.
A andar sem rodinhas só com 10.
Já prendi o dedo no portão.
Já vi minhoca colorida.
Sempre odiei passar merthiolate.
Roí unha.
Parei depois.
Voltei a roer e pratico até hoje.
Já fugi de casa sem voltar no mesmo dia.
Já brinquei de barbie.
Andei de rolimã no São Lourenço.
Kart.
Já briguei na escola.
Tive que inventar uma desculpa pelo olho roxo.
Não uso drogas e nem pretendo.
Não fumo e nem pretendo.
Não traio e nem pretendo.
Nunca fiquei bêbado e também não pretendo.
Minha primeira paixão foi na 4° série.
E foi platônica.
Já andei de trêm.
Já caí muito de bicicleta,
mas não só quando criança.
Já perdi pessoas importantes.
Meu avô, meu herói.
Ainda sou fã de Ayrton Senna.
Chorei quando ele morreu. Mais de uma vez.
Já pensei em suicídio,
mas nunca tive coragem.
Na verdade, só tenho curiosidade.
Já fui e sou presidente de diversas coisas.
Mas nenhuma delas dá dinheiro.
Gosto da diplomacia,
mas detesto cumpri-la.
Já tive excelentes idéias.
Mas as péssimas aparecem com mais frequência.
Aprendi a tocar bateria com 9 anos.
Com 15, aprendi violão.
Com 16, entrei na banda Dejavu.
A banda acabou por culpa minha.
Já toquei em duas bandas ao mesmo tempo.
Instrumentos diferentes.
Já escrevi algumas músicas; poesias.
Comprei uma gaita mas nem sei tocar.
Fiz vaquinha pra comprar a guitarra.
Comecei a trabalhar com 15.
Só tirei férias 1 vez.
Fiz 4 vestibulares.
Passei em 3.
Não me arrependo de nada que já fiz.
Lamento por não ter feito melhor algumas coisas;
ou por não ter conseguido evitar outras.
Não gosto de usar anel, pulseira, corrente,
brinco, relógio. Nada que me prenda!
Amo, de paixão, a liberdade.
Não vejo a Belinha há 7 anos.
Sou tio do Dudu.
Conheço apenas 5 capitais.
Já subi em muita árvore.
Até hoje eu subo.
Já fui irmão mais velho do meu primo.
Fui seu exemplo por muitas vezes.
Ele morreu.
Eu quis morrer junto.
Já pisei em prego enferrujado.
Já fui mordido por bicho.
Já escorreguei em montanha de milho.
Já peguei ônibus sem pagar.
Não gosto de balada.
Gosto de ir ao cinema.
Na maioria das vezes vou sozinho.
Já trabalhei em tanta coisa diferente!
Pessoas importantes moram longe.
Prefiro abraço do que beijo.
Gosto de me sentir importante na vida de alguém.
Gosto de chamar a responsabilidade pra mim.
Sempre!
Gosto que confiem em mim.
Mesmo quando nem eu tenho completa certeza.
Os melhores dias da minha vida
ainda não aconteceram.
Nunca acreditei em previsões.
Já chorei vendo novela, filme.
Ouvindo música. Lendo; escrevendo.
Falando ao telefone ou teclando no MSN.
Pouca gente já me viu chorando.
Poucas são pacientes a ponto de me aturar nos dias chatos.
Gosto de ser surpreendido.
Muito mais de surpreender.
Amo amar.
Gosto de ser amado.
Gosto de aprender.
Gosto de filosofia.
E do nome Sofia.
Já fiz muita coisa errada.
Nunca por querer.
Gosto do impossível.
Talvez por isso ele esteja sempre presente.
Ouço elogios em silêncio.
Para as críticas há sempre resposta.
Não sou irredutível.
Mas não será fácil me convencer do contrário.
Nunca diga que estou mentindo,
pelo bem da nossa amizade.
Eu entendo as pessoas.
Eu queria entender a mim mesmo.
Eu queria entender acasos da vida.
Eu queria continuar escrevendo.
É noite fria da primavera
e eu só não queria ficar só.
prendi o dedo na janela esses dias
cai de bicicleta muitas vezes...
gostei do seu texto, me achei em varias partes dele.
"são todas pequenas coisas", diria Renato Russo.
mas que marcam a vida da gente.
a janela é uma assassina, quase fiquei cego nela uma vez.
obrigado por comentar, talita.
as bicicletas tbm são assassinas, quase fiquei cega uma vez. alguns pontos e nada mais.
:)
já ganhei bons arranhões por causa dela.
mas o que consola é que a bicicleta leva sempre a pior.
Eu adorava minha bicicleta - herdada do meu pai, aliás. Nunca tive a Monark Tigrão que tanto desejei - mas aquela Caloi azul velhinha marcou tanto a minha vida...
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 25/10/2006 08:27
Lindo poema - depoimento - documentário?
Beleza, Marcos.
Me ví criança, em ruas de terra, banho de chuva e cachoeira.....
Uma delicia, Farion. Viramos crianças e envelhecemos juntos com o texto. Quantos sonhos e lembranças...
Claudiocareca · Cuiabá, MT 25/10/2006 13:32
Fábio, minha primeira bicicleta foi uma monark azul, mas não era do Tigrão.
Obrigado, Rangel. Eu também não sei definir o que é. Talvez só relatos que foram ditados pelo meu inconsciente.
Realmente, Cláudio.. são tantos sonhos e lembranças, que deixei 99% deles fora dessa "lista".
acho que me arrebentei mais que a bicicleta.
talita marimon · Cuiabá, MT 25/10/2006 20:16pensando bem, uma vez a bicicleta ficou intacta.
Farion · Curitiba, PR 25/10/2006 20:20
meu deus... issso é uma verdadeira verdade...
No é-terno,
e que a verdade seja sempre dita.
Farion · Curitiba, PR 27/10/2006 01:02pois é meu amigo... sempre...
Hênio dos Santos - poeta da vida · Formiga, MG 27/10/2006 21:41
Fui obrigada a aprender a andar de bicicleta porque pedi uma para o meu pai quando tinha 8 anos. Andei e caí. Fiquei com medo, mas meu pai pegava a bicicleta, sem rodinha, levava para uma área aberta perto de casa e me fazia andar.
Aprendi rapidinho para ficar livre do meu pai... Depois "peguei" gosto e ficava tentando descer ruas íngremes, tentando novos ângulos e novas velocidades para virar as ruas, ... estava sempre caindo.
Também entrava no segundo andar da casa de uma vizinha escalando árvore de galho meio fino... Enchia a rua de areia também e pulava das árvores.
Ligava para os vizinhos para passar trote, picotava as folhas e flores das árvores em frente 'as casas deles para tentar extrair essências, também riscava o passeio em frente 'a casa deles com giz ou tijolo para pular amarelinha, pulava os muros para "roubar" frutas ou brincar...
Bola "voava" todo dia dentro da casa dos outros. De vez em quando era pipa ou peteca caindo também.
Só que comecei a ter responsabilidades rápido, sabe? Fora que sempre fui muito independente. Com 4 anos corria sozinha para a escola, que ficava a uns 4-5 quarteirões de casa. Detestava ter que esperar alguém me levar, se já tinha me arrumado.
Com 10 anos já sabia andar um pouco no centro de BH, sabia cozinhar um pouquinho. Arrumava a casa, lavava e passava roupa, fazia os meus deveres e ajudava os meus irmãos mais novos com os deveres deles. Levava o meu irmão menor para a escola também... Só que não fazia tudo junto, nem muito bem feito, logicamente ... porque era muita sobrecarga.
Ia brincando também com 10 anos, mas bem pouco. Não tinha oportunidade mais e também não gostava muito mais não. Só que acho que foi meio ruim porque meus pais tentaram trabalhar muito com responsabilidade e deixaram a Psicologia meio de lá. È a vida! Agora a gente segue, conforme pudermos...
De toda forma, sempre têm boas lembranças!
Acho que aquele ditado "Casa de ferreiro, espeto de pau" é super aplicável 'a minha mãe que é pedagoga. Só que cada pessoa com sua história, suas origens, seus erros, seus acertos, ... A gente se adapta e "corre" atrás do prejuízo.
quanta nostalgia.
eu gosto de nostalgia, mas as vezes ela nos deixa tristes.
um tempo bom que não volta.
entendo bem quando vc fala da "casa de ferreiro...", pois comigo também foi assim.
eu sou hoje o que vivi fora de casa.
bom, estamos em constante mutação.
pois bem,
agora consegui publicar no overblog comenta lá...
o q vc achou?
http://www.overmundo.com.br/overblog/sala_edicao.php?em_edicao=2294
Perfeito o testo...
Eu acho que todo já passo pelo onibus sem pagar...ou ja caiu de bicicleta, mordido pelo um bicho...
Eu lembrei da minha vida inteira, agora...
Parabens...
Adorei!
Beleza, Farion. Você tem muito talento. É so desenvolver que você vai longe. Simples, despojada e lúcida. Um depoimento-poema lírico e nostálgico.
jjLeandro · Araguaína, TO 11/11/2006 20:12
Em determinados momentos do seu poema-depoimento você fez humor. No primeiro caso abaixo, um humor direto, talvez sem a pretensão de fazê-lo. Talvez uma revelação de que fosse desastrado:
"Com 16, entrei na banda Dejavu.
A banda acabou por culpa minha."
Nesse outro caso, humor também direto, brusco, seco, uma revelação de impotência, revelando a sua desilusão pelo fracasso:
"Já fui irmão mais velho do meu primo.
Fui seu exemplo por muitas vezes.
Ele morreu."
Legal, Juhuzinhah. A nostalgia fascina. Quando paramos pra pensar nessas coisas, às vezes dói.
Obrigado pelos comentários e elogios, jjLeandro.
Eu tentei usar humor algumas vezes, mas é evidente que a intenção maior foi ser nostálgico. foi o tipo de texto que escrevi, na verdade, sem pretenção nenhuma, sabe? Simplesmente comecei a escrever, deixando o inconsciente trabalhar por conta própria.
No caso do meu primo, é mais ou menos isso, mas a coisa é bem mais complicada e renderia mais algumas horas de conversa.. heheh
Abraços!
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