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Profissão: do amor.

Juli Bauer
1
Juliaura · Porto Alegre, RS
28/2/2009 · 108 · 11
 

Sentei no meio-fio ao lado dela, mais uma outra.
Contou-me sem meias palavras que assim se sente mais livre.
É tão perigoso quanto enfiar agulha no dedo costurando, mas que na maioria das vezes é mais seguro que qualquer ofício. Os fregueses dão gorjeta, pagam na hora em dinheiro, poucos regateiam preço, uns se apaixonam pelo que faz, querem saber onde poderão estar juntos novamente, tal casal que marca encontro para passear vendo vitrina de lojas ou florezinhas nos parques, esquiar na neve, fazer bolão e jambolão de desenho animado.
É arriscado, eu insisto: não é mais que viver, ou atravessar uma via de tráfego intenso sem olhar, repete. Há que tomar cuidados, não vacilar, não dar mole, nem se apaixonar.
Faz só, a vida. Se fosse fazer pra outro, não dava pra sustentar, ter roupa nova, limpa, sapato tênis da hora.
Deixa o telefone com quem confia.
Marca passeios... até acompanha em festas e jantas sociais.
Não dá mole pra polícia. Sempre querem um troco pra fingir que são os que deixam o trabalho delas em paz.
Se arrancham, arranjam algum, querem ter em quem mandar, os aprendizes de proxenetas.
Se o ponto suja, troca de lugar... não quer gente qualquer mandando nela.
Sabe de colegas de profissão que fazem dentro das universidades.
Até prestam exames, matriculam, freqüentam meio curso, estendem os horários nas lancherias e bibliotecas, para marcar encontro e formar clientela.
Umas até casaram com gente rica, explica.
Outras começaram a fazer depois de casadas, pra aumentar a renda da família. e o marido acokmpanha o ofício, ela me diz, com uma simplicidade de quem os vê saírem de braço depois do trablçho dela. Dele também, porque acaba dando segurança no ponto...
Prefere a rua, porque ninguém pega no pé dela, insistiu.
Diz que não vai ficar por muito tempo que não conhece gente com muita idade ganhando bem nessa difícil vida que chamam fácil.
Falo que sou jornalista, ela diz que está na cidade grande só há três anos. Era do interior. Plantava e colhia batatas, desde que caiu da carroça, com quatro anos de idade.
Apanhava do padrasto, que a currou quando era ainda uma criança.
Diz que, quando pôde, deu paulada na cabeça dele, arranjou umas roupichas numa mochila e pôs o pé na estrada.
Caminhou seis dias por dentro dos matos até atravessar de estado, se achar segura.
Tomou um banho numa lagoa.
Trocou de roupa, botou perfume e batom e fez o primeiro ponto numa rodovia. Depois...
Bem, passou um conhecido dela de carro e ela foi-se embora.
Cocei o queixo, passei as costasw da mã nos olhos pra enxugar umas lágrimas que inssitiam em querer pular pra fora.
Olhei pra outra, uma mulata como eu sentada no meio-fio, pisquei um olho... levantei e sai a passo.
Buzinaram de um carro pra mim, fiz que não era comigo.
Não pararam.

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Juliaura da Luz Bauer
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

assunto interessante, gostei.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 25/2/2009 13:50
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Juliaura
 

Fico feliz que tenhas gostado, W.M. Tal acontece, como parte consta do texto, desde que o mundo é mundo, diz-me vovó Marinalva. Aí, no escrito, entnto, é pura ficção, das mais puras que se possa imaginar... coisa que nunca na vida deve de ter acontecido a menina alguma. Talvez antevisão, nunca, nunquinha, déjà vu.

Juliaura · Porto Alegre, RS 25/2/2009 14:57
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Saramar
 

"Do amor..."
Gostei de título e da sutil comparação .

Um destino entre outros mil, que se faz, faz, faz, desde antes até sempre.
Gostei, apesar dessa tristeza, dessa fatalidade.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 26/2/2009 01:31
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wancisco franco
 

Assunto e texto de se assuntar. Pesado um, levíssimo o outro. Parabéns!

wancisco franco · São Paulo, SP 26/2/2009 10:23
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Cláudia Campello
 

Já fiz varias entrevistas assim...com prostitutas (os)...
cada historia ! O pior (?) é que de cada 10, 6 disseram gostar da vida, pelo simples (?) motivo de "ganhar" mais.
sera?

bjssssssssss,)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 26/2/2009 18:25
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Rangel Castilho
 

Salve, Juliaura!

A vida é um burburinho de desejos
e insatisfações...cada qual no seu quadrado.

Sua imaginação foi real.

Abraço Pantaneiro.

Rangel Castilho · Anastácio, MS 28/2/2009 02:02
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Cláudia Campello
 

"...enxugar umas lágrimas que inssitiam em querer pular pra fora."

ahhhhhhhh eu sei como é!

bjsssssssssssssssssssssssssssssssssssss;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 28/2/2009 14:52
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

agora sim, votando.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 28/2/2009 15:55
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
ayruman
 

Aqui apreciando texto doloroso mas oportuno.
A Paz de sempre. jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 28/2/2009 16:08
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crispinga
 

Oi, Juli
Gosto cada vez mais dos seus textos.
A realidade, nua e crua, e o seu olhar sensível e humano.

crispinga · Nova Friburgo, RJ 28/2/2009 21:38
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Juliaura
 

Cris,
fico feliz de tê-la gostando de me ler.

Ayruman,
sempre páz, sempre pé no chão.

WM,
Agora, também.

Cláudia,
si não si cuidia, elas qui pulam sim...

Tudo junto e misturado, cada um no que escolhe, que redondo até quadrado fica, Rangel.

Wancisco,
assunto, assuntando, o bstunto empaturrou-se-me... então foi que se deu a melodia, sem parodia.

Saramar,

É rima de bolão
com a distinta
profissão.
Amar,
dor
do amor
do lar
Denota, se nota...
quem se importa?


Pessoas todas de almas gentis... sou grata. Fico feliz demais.

Juliaura · Porto Alegre, RS 28/2/2009 23:40
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