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Projeto "Em edição. 48 horas pra botar a mão"
milu leite · Florianópolis (SC) · 14/5/2008 22:52 · 114 votos · 33 comentários ·  
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overponto
Imagens






Maria

(M)
Não havia sol nem ar. Maria sentia isto diante da tela em branco do computador. Fazia dias que ela se colocava ali, esperando pelas palavras. Quando se escreve, se espera tão ansiosamente por elas como quando se está no ponto de ônibus aguardando a chegada da linha certa. Quando o ônibus abre as portas, pode estar cheio de novidades, de rostos que desafiam qualquer descrição simplória, tomado por cheiros incomuns. Estes são os melhores ônibus. Os piores são os que param vazios diante do ponto. São os ônibus em branco.
Maria tem mãos trêmulas, rosto anguloso, corpo esguio e moreno. Bebe muita água, anda de bicicleta e alimenta com disciplina duvidosa o cachorro. Lê Bernard Henri-Lévy, Baudrillard e revistas de fofocas. Sempre que termina uma leitura, perde-se em devaneios. Maria é cheia em demasia.
Foi por se sentir insatisfeita com essa abundância que ela procurou a astróloga.

(F) Relações cósmicas. Relações terrenas.
Terreno plano. Mesa da astróloga. Iluminação lúgubre.
É uma tenda. Parece um circo. Parece um templo budista.
O ambiente é acolhedor.
A astróloga estudou ciências sociais, psicologia e biopatia do câncer.
Conhece os signos como pretexto para estabelecer um pacto de confiança com quem a consulta. O nome é Lua. Os astros gravitam e o intento dela é diminuir a gravidade da vida dos outros. Se ocupa, mais que nada, em dar reforços positivos. Também diz coisas incógnitas.

Na mesa redonda, coberta por um pano peruano, há mapas com linhas ligando astros-pretextos. O contexto é simbólico apenas. Assim se situam as coisinhas miúdas da vida que crescem dentro do peito.

Maria tem um coração extenso. Expandido em todos os sentidos de todos os vetores. Tem um coração hipertrofiado. O mundo bate fundo nela.

Lua diz a Maria: hoje temos uma conjunção precária, mas que podemos lapidar e deixar mais amena. A vida é uma pedra bruta que espera a descoberta das cores que carrega dentro. No centro da pedra pulsa um mistério aberto: um coração mineral com seiva de planta no cerne. Os astros são pedras que giram no céu. Sobre si mesmos e em relação aos outros. A areia, quando exposta ao calor intenso, vira vidro, e a transparência surge com o sol.

(I) Maria não se via como pedra girando no céu sobre si e em relação aos outros. Maria não se via. Nem em relação a si, nem em relação aos outros. Se pudesse se concentrar numa imagem de si mesma, ela se veria como uma bolha de sabão: flutuando leve, transparente, e refletindo o seu ao redor sem entrar em contato com nada. Cheia de ocos. Podia estourar a qualquer momento se uma criança a tocasse com as mãos rechonchudas.
Maria, leve dos seus ocos, flutuava em volta das palavras de Lua. Maria era o satélite, e Lua, um sol irradiando uma energia indefinida, quente.

(F)Incêndio. Sem aviso de cuidado nem saída de emergência.
Incêndio solar no plexo.
Maria entra em estado de derretimento. Se dissolve, se deixa levar pela fala mansa de Lua. Levita sem evitar a sensação aérea. Signos de ar. Artes. Alturas. O alvo e a flecha. A data de partida. Os delírios, os sonhos, as alucinações cotidianas. O vôo leve na tenda que vira navio. Parece agora um navio, ondula. A oscilação reveste de uma dinâmica sutil o momento que se precipita como cachoeira emocional. Nada de razão no processo, uma névoa envolve a cena. Surgem cores meio escondidas nos cantos. Podem aparecer arco-íris a partir das lágrimas em queda leve. A clarabóia da tenda recebe uma linha luminosa que entra e faz lembrar que as horas passam. O mundo inteiro ficou lá fora, e se condensa o que acontece dentro da pele.

(M)
Algo, no entanto, embrutece esse momento. Demora um tempo até que Maria perceba o que é. Um alto-falante. "Um carro deve ter estacionado aqui na frente", ela pensa. O pensar, só este pensar, a afasta dali. A atenção de Maria se volta para o que um homem fala, em tom de pregação:

(L) Os minerais, vegetais e animais - incluindo os seres humanos - foram dizimados. Calma... Minerais dizimados (diga-se triturados) viram energia. Se a energia se transforma, os minerais não movem a vida? Como? Se a ciência não explica... A escrita edita o absurdo. Viva a liberdade de escrever. Mesmo sem coerências e métricas. Viva a trituração das palavras.

A vida e não vidas são criações de um único ser supremo? Sabe-se que a maioria das religiões comenta esse assunto! A humanidade precisa repensar o segredo da solidariedade... Esse dia chegará? Aleluia irmão! Oxalá seja!

Com a internet à vista, os homens e mulheres que não sabem repartir o capital e o conhecimento, perdem tudo. Não existem espaços para as atuações de egoístas e ambiciosos! Masturbação mental é crime! Crime contra a procriação do conhecimento.

(M)Maria suspira. "Que sujeito mais esgoelado. Que discurso mais fora de lugar." A astróloga nota sua dispersão. Tosse discretamente, enquanto prossegue com a leitura do mapa. A voz da mulher é pausada, sofre pequenas elevações em determinados pontos.

(D)Pálida, Maria ouve em parte, em parte sente e em parte ressente-se também. Sempre teve medo de videntes. "Minha tia sonhava e tinha visões e me olhava de jeito estranho, será que ela sabia?" Nunca tive visões, mas se tivesse o que faria com elas?
Fecha os olhos, ouve o ruído de um relógio, “Parece que vivo uma insônia”, pensa.
Levanta-se, deixa Lua falando sozinha e caminha em direção à avenida. Caminha como se tivesse pressa, como se o que vai fazer não pudesse esperar nem mais um minuto. Anda como se tivesse um encontro marcado. Pára em frente ao prédio antigo onde seu pai trabalhou toda a vida. Ele a levava lá. Tudo está mais velho, inclusive o elevador. Lembra-se de que sempre apertava a mão do pai quando chegava a hora de entrar.
Hoje ele está especialmente aterrorizante; tudo está mais claro, e a realidade mais nítida. Quando se aproxima do último andar, não sente medo... pode ser até paz.
Aproxima-se do parapeito, o ar fica mais frio, a cidade, os carros, tudo está distante e calmo. Fecha os olhos e entrega-se.
Nesta hora, alguma coisa a traz de volta. "Não dei comida ao cachorro".
Maria se afasta e desce as escadas.

(J)Quando abre a porta de casa, é dominada por um sentimento de culpa. Os olhos dóceis do cachorro pousam sobre ela e as patas desajeitadas batem em suas pernas em busca de um abraço reparador. A grande língua lambe-lhe os braços. Não quer apenas comida, pensa Maria, quer também carinho. É tudo que lhe resta. A culpa transforma-se em remorso. O que seria dele se tivesse levado aquele devaneio às últimas conseqüências no alto do prédio?

É dominada por uma sensação estranha de estar presente no próprio velório. O corpo estendido no caixão, os parentes sempre distantes agora próximos e choramingando. Por que não estiveram comigo todo esse tempo? Viviam ocupados, alheios à vida porque só pensavam em dinheiro? Pode culpá-los por isso? Não é ela também monomaníaca? Não sonha escrever um romance, tornar-se uma escritora famosa? Por esse sonho sacrifica amizades, festas e o convívio familiar. Por ele amarga um isolamento voluntário. Lembra-se de que foi pela espera angustiante de dias pelas palavras diante da tela clara do computador que entrou em parafuso. E foi em busca de uma revelação que procurou uma astróloga. E nem a flibusteira a satisfez. O desespero teve o tamanho da cidade quando, numa busca do passado, numa tentativa de volta às origens, procurou o velho edifício onde o pai trabalhou toda a vida. Quis sumir, quis voltar ao pó, desintegrar-se. Fora salva por Napoleão – o cachorro. Esquecera de alimentá-lo. O rigor que se impunha com certas manias a fizera voltar atrás. Foi isso mesmo? O abraço de Napoleão ao menos serviu para pôr dúvidas em sua cabeça onde há pouco havia uma desesperada certeza.

(F) As dúvidas de Maria descem da cabeça até o peito, passando antes pelo pescoço. Descem até o estômago. Digere as dúvidas. A certeza de que se quer viva toma forma e cria densidade.

Imagina um mundo pleno de paz canina. Napoleão se desvencilha dela e sai andando enquanto ela o observa, afastando-se com a malemolência que só os cachorros vira-latas sabem ter.

(C) Napoleão puxa o emaranhado novelo dos absurdos fios dos sentimentos e pensamentos tortos de Maria, o impenetrável mal-estar, a eterna inadequação, a dor de não se pertencer, a bolha densa, que naquela hora do dia começa a pesar feito chumbo, aquela fileira incompreensível de dúvidas que se aninham sempre no pescoço, onde mora a navalha. O estômago, aquela dor de quem quer viver, aprumar o passo, a navalha da vida doendo no estômago. O enigma do estômago empurrando-a até a cozinha. O enigma do estômago empurrando-a para a vida, uma fibrazinha de consciência, de que quer viver.

Maria quer viver. Esse sentimento aflora como tímida faísca na confusão daqueles dias todos subindo do estômago, passeando como uma mão morna pelo seu peito, acariciando o pescoço, contornando a lâmina fria, uma quase lucidez. Maria quer viver. Quer. Liga o gás, enquanto procura o fósforo. Pensa com raiva, uma raiva profunda, beirando um desejo de que o fogão fosse automático, que a vida fosse um contínuo fluir sem solavancos, sempre no automático. Risca o fósforo, acende a chama maior do fogão, que faz um estalo com o excesso de gás. Maria põe água para ferver. Precisa de cafeína, muita cafeína. Café forte, encorpado, denso, amargo. Bem amargo.

Maria agora vive e pensa com o estômago, com a navalha do estômago, esquecida do pescoço, do nó profundo da sua vida, do baque, da queda, da absoluta dissolução.
Antes que Maria chame, Napoleão já está a postos, atento a todos os seus movimentos. Lambe com alegria incontida a mão da dona, esperando o compensador afago na cabeça e o pratinho de ração, sempre o pretexto do ritual de aproximação. Napoleão, o pequeno imperador da vida e seu curso naquele mundinho de dissoluções de Maria. Napoleão integrado ao seu mundo canino, também pego pela navalha do estômago, mas que nele não dói, antes restaura o piloto automático da vida, aciona o botão de uma noite tranqüila, sem espera, sem vigília.

Maria recobra o habitual controle daquele mundo de miudezas seguindo os movimentos de Napoleão. Remexe panelas, abre a geladeira, as janelas. Entrega-se ao café quente da vida com aquele aroma de que quer viver, que ainda é possível respirar, um dia sem dor, quem sabe, sem dissolução, fora da bolha, totalmente no controle da tela em branco da sua vida, ali, plasmada na brancura de luz da tela do computador. Enfrentar o dia do baque, da queda, da dissolução, do corte, o abismo, a travessia, o beco estreito da sua vida. Antes e depois do incêndio, a linha. O baque, a queda, a dissolução, o corte, o abismo, o vácuo. A travessia...

(J) Sim, precisa migrar. Precisa fazer essa travessia. Olha Napoleão nos olhos e os vê percucientes. É como se lesse a sua alma, desvendasse todos os seus anseios, todos os seus mistérios. Embora a analise, não pode falar. Não fala, mas faz nascer no íntimo de Maria a suspeita de que fizera a escolha errada. Em vez de uma astróloga por que não um psicólogo?

Sorri. Napoleão é mesmo um imperador. Apesar de vira-latas, e o que importa isso, sabe influenciar as pessoas. E principalmente ela, Maria. Já havia livrado sua cara no prédio, onde o seu pai trabalhara por toda a vida, e agora sem uma palavra – a ele são impossíveis –, sem um latido ou um ganido lhe aponta um caminho. Outra vez sorri e o sorriso parece expelir a navalha da vida que lhe atormenta o estômago. Afrouxa a pressão do frio metal que lhe ameaçava há pouco a jugular. Napoleão entorta a cabeça para observá-la mais atentamente. Afaga com a ponta dos dedos a cabeça dele numa resposta carinhosa e ele fecha os olhos satisfeito. As grandes orelhas perdem a prontidão e caem relaxadas nas laterais da cabeça. É de fato um imperador, pensa. E que coincidência! Não à-toa chama-se Maria...Maria Josefina...sorri aliviada com as coincidências da vida.

(M) O café deve ser bebido. É a ordem que Maria dá a si mesma todos os dias. Ato contínuo, ela leva consigo a xícara e senta-se diante do computador. A tela em branco, a vida em branco ganha um contorno esmaecido. O contorno de Napoleão, de seus hábitos elementares.

O cão se enrodilha aos seus pés. Maria está determinada a cumprir a segunda ordem: caixa de mensagens... verifique.
Sente uma vertigem ao se deparar com um nome. Ali está ele.
Ele ele ele. Tinha ficado de enviar o último trabalho. O que terá feito? Maria mete o fone no ouvido e aumenta o som.

Ouve tudo como se flutuasse. Ele ainda vive. E faz tudo mover-se. Move sons. Que sons tenho eu? Que ruídos produzo?
A tela em branco. Maria sucumbe. O cão lhe adivinha os pensamentos.

(F) Sincronicidade entre a vontade de morrer e a fome do cão.
A vontade de morrer de Maria, a fome de Napoleão.

O chamado também cão que habita as profundezas para onde vão segundo os livros medievais os hereges suicidas não recebeu nova hóspede no hotel em brasa.

Maria caminha no quintal até o galpão de ferramentas deixado pelo ex-marido na casa que agora habita solitária, com um vira-latas nobre apenas como companhia. Pega uma pá e observa o lugar mais adequado para fazer um buraco. Escolhido o lugar, começa o trabalho. Pá na terra. Remexe a terra com o coração na boca. Cava, cava. Choveu faz pouco, a tarefa é fácil. Sente vontade de se plantar. Quando criou espaço suficiente, deita na depressão recém feita no terreno.

Com as mãos arrasta terra sobre o próprio corpo. Se cobre. A umidade fresca causa uma boa sensação. Fecha os olhos e entra em estado de coma auto-induzido. Quer ver a luz de novo apenas na primavera, quando acredita que a mutação de semente a flor e logo fruto vai ter início. É possível que surja da hibernação voluntária de Maria uma vontade, em Napoleão, de tornar-se cão selvagem, indo procurar o que comer por conta própria. Lobo autônomo e pessoa semente. Nas alturas, indiferentes à mundanidade, astros insondáveis.

(M)Os dedos dela, ainda sujos de terra, tocam finalmente o teclado. Maria escreve coisas que lhe vêm à cabeça. A descrição que vai inventando é detalhada. Cenas, sons, cheiros. Ela vai tecendo uma mistura de fatos vividos e pré-vividos. Não sabe ainda que as pedras que giram como astros no céu são como as palavras, determinam passado, presente e futuro. Maria desconhece o poder das palavras.

(JU)Sim, meto a mão. Pego um lenço a mais, a caixa já quase vazia. Eu com esse enorme resfriado, os cabelos ainda colados de suor, a blusa empapada, mais até que a fronha do travesseiro. Napoleão lambeu-me as faces até acordar-me de um pesadelo que ia tendo, talvez me mordendo os braços, balançando o rabo no meu nariz, dando-me patadas firmes, porque eu me percebi acordada ao pé da cama, lembrando vagamente de uma cova cavada por mim mesmo num pátio que meu apartamento não tinha, que era uma porta térrea, sim, mas que ia dar num piso de pedra escariolada antiga, ainda vermelha, e num paredão que fora cinza e agora verde musgo que a umidade já do século passado fizera crescer, onde eu ia religiosamente uma vez por dia, recolher tudo que os andares acima derrubavam ali e carregava até o apartamento do zelador com os mesmo pedidos de sempre de que, pelo amor das divindades, não viessem todas as desastradas crianças à minha porta resgatar seus pertences, a maioria brinquedos já inutilizados, suicidas ou assassinados, jogados desde os altos por todas as manhãs, tardes e noites, em aflição ou sadismo... Mas eram brinquedos e não eu que estatelavam-se ali no meu pátio, a toda hora. Eu preferira o sono, mas Napoleão quer passear.

(CE)Maria volta para casa e senta-se no sofá. Napoleão a acompanha, latindo ao seu lado. Ela se deita, pensa no dia que teve, na ansiedade que tem sentido, nas coisas que ainda não sabe que irá viver. Ela tem isso - vontades... de se comunicar, de se abrir, de interagir... Maria quer interagir e tem Napoleão, que continua a latir... ela se levanta e prepara um banho. Se lava, delicadamente, retira toda a terra do corpo... promove o encontro desses dois elementos. "três", diriam alguns. Maria tem vontade de interagir... quer estar, ser, participar... ela sabe que o é, mas precisa sentir-se sendo... pensa em si, em seu nome, no seu dia. Imagina o nome do programa que leva o dia a seu nome e não se sente anti-original por ter o próprio, que, na verdade, é o mesmo... diferentemente igual.

Ela termina o banho e se senta novamente no sofá da sala. Abre uma revista e começa a ler um texto feito a vinte mãos... vários escritores compartilharam a idéia de escrever um só texto, em sequência. Ela lê o texto, que fala de uma certa Maria, que entrou no ônibus... A revista do nome de estado fala do dia que teve Maria, do dia de Maria como na televisão. Não se sente nada por isso... o outro, não ela.

De volta ao computador, ela recebe um convite para participar da escrita de outro texto, em conjunto, numa certa comunidade da internet... ela começa a escrever - "Não havia sol nem ar."...
Enquanto escreve, é transportada para um espaço, onde estão as outras pessoas que compartilham dessa experiência com ela. Todos se entreolham, sorriem e se dão as mãos... juntos, uníssonos, recitam o texto, na velocidade do pensamento conjunto. Maria sorri.
***
(C) Astros insondáveis, o cão selvagem, o corpo flutuando, dissolução, ganidos. Tudo roda, as partículas de luz, os móveis do quarto, a sombra familiar do homem ao lado da cama, latidos dentro da cabeça imobilizada pela dor, o peso intransponível das cobertas. Lentamente, Maria vai recobrando a consciência do corpo. A dor, vestígio inegável de vida. Napoleão saltita em torno do homem que continua em pé, ao lado da cama. Maria não consegue mover a cabeça, mas jamais esqueceria aquele cheiro, aquelas pernas firmes, duras, inflexíveis. A sombra, a grande sombra. Lentamente, ainda, os astros insondáveis da noite dentro dela, Napoleão acendendo a vida do quarto com seus latidos, querendo afagos, parceria nas brincadeiras que fazem a felicidade irretocável de um cão perdido na docilidade de existir apenas e seguir o fluxo. Maria suspira fundo, tentando emergir daquela bolha abafada pelas cobertas. De novo, o mesmo baque, a queda seca no abismo, o apagão. Desde a primeira vez que aquilo aconteceu, o apagão, alguma coisa acontecia dentro da bolha, uma ruptura, um corte que a deixava mais arrasada, mais impotente, completamente imperscrutável, sem noção de tempo, nem espaço. A única lembrança era a daquele mundo de astros insondáveis, o cão selvagem, o corpo flutuando, a sensação de liberdade. Ela e o cão, irmanadas na fome de liberdade. O médico bem que tentou explicar, mas Maria fez força para não entender. Não queria entender. Só queria viver. Apesar de tudo, de todos, dela mesma, do sentimento de inadequação, do freqüente mal-estar, queria viver. Queria viver de uma forma irremediável. Que estourasse de vez essa bolha onde nada fazia sentido. Nenhuma explicação a tranqüilizava. Por isso, pra que tentar entender aqueles apagões que ficavam cada vez mais freqüentes dentro daquela sua não-rotina de vida? Vida para ela era apenas um desejo que por mais que espremesse nunca vinha o caldo. O seu desejo era uma laranja seca.
Consciente da realidade do corpo, Maria agarrava-se aos vestígios que trazia dos insondáveis astros que giravam dentro da sua noite. Os seus apagões. As luzes ofuscantes da brancura da tela do computador. E depois, nada. Ouvia o ranger da porta do galpão de ferramentas do ex-marido. A mão que abria a porta era a dela, sempre com o mesmo gesto meticuloso. Depois, a caixa de ferramentas em sua mão. O quintal, o cão com a porção selvagem nos olhos, louco para ver o desfecho da cena. A terra sempre molhada pela chuvarada da noite anterior. Ela cavava. E cavava com a certeza de alguma coisa grande. Não quer desenterrar nada, nenhum tesouro, nenhum segredo, nenhum medo. Não quer desentranhar. Quer se plantar.

As pernas inflexíveis, como dois postes ao lado do seu corpo emborcado no ato de cavar. As pernas rijas do homem sem rosto. As pernas infinitas que ela vê varando o céu enquanto vai se cobrindo com a terra úmida, aconchegante. Os astros insondáveis, as pernas, os uivos. As pernas inflexíveis, ali, ao lado da cama. Maria perdeu a noção de quantas vezes viveu essa cena sem desfecho, sem achar a lógica, a chave. Não quer a chave, não quer entender. Só quer viver. Não quer nem desejar viver. Quer alguma coisa que a faça viver, simplesmente, com a mesma gratuidade de Napoleão.
sobre a obra
"Em edição. 48 horas pra botar a mão" é um projeto coletivo de criação. A idéia é construir uma narrativa ficcional no tempo permitido para a edição de textos no Overmundo, explorando ainda outras possibilidades estéticas a partir de colaboradores de outras áreas (áudio, vídeo, artes plásticas, etc.).
Um jogo, um desafio. É também uma vontade de fazer arte coletiva.

A partir desse projeto, teve origem "Em edição. 48 horas pra botar a mão - e a boca", de Felipe Obrer:
http://www.overmundo.com.br/banco/projeto-em-edicao-48-horas-pra-botar-a-mao-e-a-boca
Perfil em: http://www.overmundo.com.br/perfis/felipe-obrer

Se quiser entender o que rolou na edição, comparar os textos originais (a limitação do espaço impôs a necessidade de cortes), leia os comentários abaixo.


tags: Florianópolis SC textos-ficcao conto-coletivo literatura literatura-coletiva arte-coletiva arte colaboracao jj-leandro ilhandarilha felipe-obrer debora-prado lailton-araujo milu-leite projeto-48-horas
 
canto_esquerdo informações canto_direito
Autoria   milu leite (M) - Floripa; felipe obrer (F) - Florianópolis; ilhandarilha (I) - Vitória; lailton araújo (L) - São Paulo; débora prado (D) - Belo Horizonte; jjleandro (J) - Araguaína; cida almeida (C) - Goiânia; juliaura (JU) - Porto Alegre; celim (CE) - BH
Ficha Técnica  

Ilhandarilha:www.overmundo.com.br/perfis/ilhandarilha
Debora:www.overmundo.com.br/perfis/debora-prado
jjLeandro:www.overmundo.com.br/perfis/jjleandro
Cida:www.overmundo.com.br/perfis/cida-almeida
Celim:www.overmundo.com.br/perfis/celim
Juliaura:www.overmundo.com.br/perfis/juliaura

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Incêndio. Sem aviso de cuidado nem saída de emergência.
Incêndio solar no plexo.
Maria entra em estado de derretimento. Se dissolve, se deixa levar pela fala mansa da Lua. Levita sem evitar a sensação aérea. Signos de ar. Artes. Alturas. O alvo e a flecha. A data de partida. Os delírios, os sonhos, as alucinações cotidianas. O vôo leve na tenda que vira navio. Parece agora um navio, ondula. A oscilação reveste de uma dinâmica sutil o momento que se precipita como cachoeira emocional. Nada de razão no processo, uma névoa envolve a cena. Surgem cores meio escondidas nos cantos. Podem aparecer arco-íris a partir das lágrimas em queda leve. A clarabóia da tenda recebe uma linha luminosa que entra e faz lembrar que as horas passam. O mundo inteiro ficou lá fora e se condensa o que acontece dentro da pele.
Felipe Obrer · Florianópolis (SC) · 12/5/2008 21:32 
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Os minerais, vegetais e animais - incluindo os seres humanos - foram dizimados. Calma... Minerais dizimados (diga-se triturados) viram energia. Se a energia se transforma, os minerais não movem a vida? Como? Se a ciência não explica... A escrita edita o absurdo. Viva a liberdade de escrever. Mesmo sem coerências e métricas. Viva a trituração das palavras.

A vida e não vidas são criações de um único ser supremo? Sabe-se que a maioria das religiões comenta esse assunto! Talvez por falta de liberdade em questionar, ou medo em provocar. Assim, qualquer dano ao cérebro humano será mera coincidência. A humanidade precisa repensar o segredo da solidariedade... Esse dia chegará? Aleluia irmão! Oxalá seja!

No mundo globalizado, cada moeda - em real, dólar ou euro - gasto de forma irracional, será pago por um contribuinte morador do belo planeta Terra. Existem alguns que não moram... São os excluídos da sociedade! É hora de usarmos a inteligência: “a ambição e o egoísmo” já não podem conviver de forma harmoniosa. Viva os medíocres e não medíocres! São filhos de Deus! Viva os que escrevem e que não escrevem... São amantes da comunicação. Estamos no mesmo barco! Somos minerais, vegetais e animais. Aleluia irmão! Oxalá seja!

Com a internet à vista, os homens e mulheres que não sabem repartir o capital e o conhecimento, perdem tudo. Não existem espaços para as atuações de egoístas e ambiciosos! Masturbação mental é crime! Crime contra a procriação do conhecimento. É o Universo em encanto para alguns e desencanto para outros. Viva a vida... Viva ou morta! É arte... É literatura!


LAILTON ARAÚJO · São Paulo (SP) · 12/5/2008 22:33 
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Pálida, Maria ouviu em parte, em parte sentia e em parte ressentia-se também. Sempre tivera medo de videntes. Minha tia sonhava e tinha visões e me olhava de jeito estranho, será que ela sabia? Nunca tive visões, mas se tivesse o que faria com elas?
Fechou os olhos, ouviu o ruído de um relógio, “parece que vivo uma insônia” _ pensou.
Levantou-se, deixou Lua falando sozinha e caminhou em direção a avenida. Caminhou como se tivesse pressa, como se o que ia fazer não pudesse esperar nem mais um minuto. Andou como se estivesse um encontro marcado. Parou em frente ao prédio antigo onde seu pai trabalhara toda a sua vida, ele a levava lá. Tudo estava mais velho, inclusive o elevador, lembrou-se que sempre apertava a mão do pai quando chegava a hora de entrar.
Hoje ele estava especialmente aterrorizante, tudo estava mais claro e a realidade mais nítida, e quando se aproximava do último andar, não sentiu medo, talvez fosse até paz.
Aproximou-se do parapeito, o ar ficava mais frio, a cidade e os carros tudo estava distante e calmo. Fechou os olhos e entregou-se.
Naquela hora, alguma coisa a trouxe de volta. _Não dei comida ao cachorro, se afastou e desceu pelas escadas.

Debora Prado · Belo Horizonte (MG) · 12/5/2008 22:37 
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Quando abriu a porta de casa, foi dominada por um sentimento de culpa. Os olhos dóceis do cachorro pousaram sobre ela e as patas desajeitadas bateram em suas pernas em busca de um abraço reparador. A grande língua lambia-lhe os braços. Não quer apenas comida, pensou Maria, quer também carinho. Era tudo que lhe restava. A culpa transformou-se em remorso. O que seria dele se tivesse levado aquele devaneio às últimas conseqüências no alto do prédio? Foi dominada por uma sensação estranha de estar presente no próprio velório. O corpo estendido no caixão, os parentes sempre distantes agora próximos e choramingando. Por que não estiveram comigo todo esse tempo? Viviam ocupados, alheios à vida porque só pensavam em dinheiro? Podia culpá-los por isso? Não era também monomaníaca? Não sonhava escrever um romance, tornar-se uma escritora famosa? Por esse sonho sacrificava amizades, festas e o convívio familiar. Por ele amargava um isolamento voluntário. Lembrou-se que foi pela espera angustiante de dias pelas palavras diante da tela clara do computador que entrou em parafuso. E foi em busca de uma revelação que procurou uma astróloga. E nem a flibusteira a satisfizera. O desespero tinha o tamanho da cidade quando numa busca do passado, numa tentativa de volta às origens, procurou o velho edifício onde o pai trabalhou toda a vida. Queria sumir, queria voltar ao pó, desintegrar-se. Fora salva por Napoleão – o cachorro. Esquecera de alimentá-lo. O rigor que se impunha com certas manias a fizera voltar atrás. Fora isso mesmo? O abraço de Napoleão ao menos serviu para pôr dúvidas em sua cabeça onde há pouco havia uma desesperada certeza.
jjLeandro · Araguaína (TO) · 12/5/2008 23:47 
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As dúvidas de Maria descem da cabeça até o peito, passando antes pelo pescoço. Descem até o estômago. Digere as dúvidas. A certeza de que se quer viva toma forma e cria densidade.

Imagina um mundo pleno de paz canina. Napoleão se desvencilha dela e sai andando enquanto ela o observa, afastando-se com a malemolência que só os cachorros vira-latas sabem ter.
Felipe Obrer · Florianópolis (SC) · 13/5/2008 01:38 
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Ilhandarilha, Lailton, Débora, Leandro,
as sugestões foram incorporadas ao texto. fiz apenas alguns ajustes nos tempos verbais. precisava harmonizar em prol da clareza...
é uma edição a quatro mãos (o felipe tá junto), por razões logísticas. o ideal é que fosse feita com todos.
bjo

milu leite · Florianópolis (SC) · 13/5/2008 01:45 
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É engraçado. Mesmo morando na mesma cidade estamos fazendo a edição via internet, nos comunicando por bate-papo virtual. Deixo o registro aqui pra que se saiba que qualquer iniciativa futura (como já houve anteriores também - por exemplo a seqüência A.D.E.U.S., iniciada pelo Fabio Fernandes, feita a partir de outro romance coletivo, o 636), pode ser iniciada mesmo com distância geográfica e continuada por pessoas de vários outros estados. Tudo isso pra dizer que é possível engendrar obras coletivas mesmo com distância geográfica, havendo comunicação.


Felipe Obrer · Florianópolis (SC) · 13/5/2008 01:59 
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Atendendo a convite do Felipe Obrer, também boto a mão.


Napoleão puxa o emaranhado novelo dos absurdos fios dos sentimentos e pensamentos tortos de Maria, o impenetrável mal-estar, a eterna inadequação, a dor de não se pertencer, a bolha densa, que naquela hora do dia começa a pesar feito chumbo, aquela fileira incompreensível de dúvidas que se aninham sempre no pescoço, onde mora a navalha. O estômago, aquela dor de quem quer viver, aprumar o passo, a navalha da vida doendo no estômago. O enigma do estômago empurrando-a até a cozinha. O enigma do estômago empurrando-a para a vida, uma fibrazinha de consciência, de que quer viver. Maria quer viver. Esse sentimento aflora como tímida faísca na confusão daqueles dias todos subindo do estômago, passeando como uma mão morna pelo seu peito, acariciando o pescoço, contornando a lâmina fria, uma quase lucidez. Maria quer viver. Quer. Liga o gás, enquanto procura o fósforo. Pensa com raiva, uma raiva profunda, beirando um desejo de que o fogão fosse automático, que a vida fosse um contínuo fluir sem solavancos, sempre no automático. Droga de fogão, droga de fósforo, droga de vida. Esbraveja Maria com a energia engatilhada da raiva. Risca o fósforo, acende a chama maior do fogão, que faz um estalo com o excesso de gás. Maria põe água para ferver. Precisa de cafeína, muita cafeína. Café forte, encorpado, denso, amargo. Bem amargo.
Maria agora vive e pensa com o estômago, com a navalha do estômago, esquecida do pescoço, do nó profundo da sua vida, do baque, da queda, da absoluta dissolução.
Antes que Maria chame Napoleão já está a postos, atento a todos os seus movimentos. Lambe com alegria incontida a mão da dona, esperando o compensador afago na cabeça e o pratinho de ração, sempre o pretexto do ritual de aproximação. Napoleão, o pequeno imperador da vida e seu curso naquele mundinho de dissoluções de Maria. Napoleão integrado ao seu mundo canino, também pego pela navalha do estômago, mas que nele não dói, antes restaura o piloto automático da vida, aciona o botão de uma noite tranqüila, sem espera, sem vigília.
Maria recobra o habitual controle daquele mundo de miudezas seguindo os movimentos de Napoleão. Remexe panelas, abre a geladeira, as janelas. Entrega-se ao café quente da vida com aquele aroma de que quer viver, que ainda é possível respirar, um dia sem dor, quem sabe, sem dissolução, fora da bolha, totalmente no controle da tela em branco da sua vida, ali, plasmada na brancura de luz da tela do computador. Enfrentar o dia do baque, da queda, da dissolução, do corte, o abismo, a travessia, o beco estreito da sua vida. Antes e depois do incêndio, a linha. O baque, a queda, a dissolução, o corte, o abismo, o vácuo. A travessia...

Cida Almeida · Goiânia (GO) · 13/5/2008 10:29 
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Sim, precisa migrar. Precisa fazer essa travessia. Olha Napoleão nos olhos e os vê percucientes. É como se lesse a sua alma, desvendasse todos os seus anseios, todos os seus mistérios. Embora a analise, não pode falar. Não fala, mas faz nascer no íntimo de Maria a suspeita de que fizera a escolha errada. Em vez de uma astróloga por que não um psicólogo? Sorriu. Napoleão é mesmo um imperador. Apesar de vira-latas, e o que importa isso, sabe influenciar as pessoas. E principalmente ela, Maria. Já havia livrado sua cara no prédio, onde o seu pai trabalhara por toda a vida, e agora sem uma palavra – a ele são impossíveis –, sem um latido ou um ganido lhe aponta um caminho. Outra vez sorriu e o sorriso parece expelir a navalha da vida que lhe atormentava o estômago. Afrouxa a pressão do frio metal que lhe ameaçava ainda há pouco a jugular. Napoleão entorta a cabeça para observá-la mais atentamente. Afaga com a ponta dos dedos a cabeça dele numa resposta carinhosa e ele fecha os olhos satisfeito. As grandes orelhas perdem a prontidão e caem relaxadas nas laterais da cabeça. É de fato um imperador, pensa. E que coincidência! Não à-toa chama-se Maria...Maria Josefina...sorri aliviada com as coincidências da vida.
jjLeandro · Araguaína (TO) · 13/5/2008 11:04 
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Sincronicidade entre a vontade de morrer e a fome do cão.
A vontade de morrer de Maria, a fome de Napoleão.

O chamado também cão que habita as profundezas para onde vão segundo os livros medievais os hereges suicidas não recebeu nova hóspede no hotel em brasa.

Maria caminha no quintal até o galpão de ferramentas deixado pelo ex-marido na casa que agora habita solitária, com um vira-latas nobre apenas como companhia. Pega uma pá e observa o lugar mais adequado para fazer um buraco. Escolhido o lugar, começa o trabalho. Pá na terra. Remexe a terra com o coração na boca. Cava, cava. Choveu faz pouco, a tarefa é fácil. Sente vontade de se plantar. Quando criou espaço suficiente, deita na depressão recém feita no terreno. Com as mãos arrasta terra sobre o próprio corpo. Se cobre. A umidade fresca causa uma boa sensação. Fecha os olhos e entra em estado de coma auto-induzido. Quer ver a luz de novo apenas na primavera, quando acredita que a mutação de semente a flor e logo fruto vai ter início. É possível que surja da hibernação voluntária de Maria uma vontade, em Napoleão, de tornar-se cão selvagem, indo procurar o que comer por conta própria. Lobo autônomo e pessoa semente. Nas alturas, indiferentes à mundanidade, astros insondáveis.


Felipe Obrer · Florianópolis (SC) · 13/5/2008 11:27 
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Pintou uma inspiração e fiz uma experiência sonora usando como base palavras do texto coletivo.
Postei aqui. Convido quem quiser a meter a boca lá.

Felipe Obrer · Florianópolis (SC) · 13/5/2008 17:11 
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Meti a mão, nessa idéia tri-legal. Mas o fiz em edição pra não ficar repeteco se for aproveitada. Se não for. Tá feita mesmo assim a contribuição solicitada pelo Felipe. Um deleite.
Boa idéia, Milu.
Beijin
Juliaura · Porto Alegre (RS) · 14/5/2008 00:18 
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maria volta para casa e senta-se no sofá. napoleão a acompanha, latindo ao seu lado. ela se deita, pensa no dia que teve, na ansiedade que tem sentido, nas coisas que ela ainda não sabe que irá viver. ela tem isso - vontades... de se comunicar, de se abrir, de interagir... maria quer interagir e tem napoleão, que continua a latir... ela se levanta e prepara um banho. se lava, delicadamente, retira toda a terra de seu corpo... promove o encontro desses dois elementos. "três", diriam alguns. maria tem vontade de interagir... quer estar, ser, participar... ela sabe que o é, mas precisa sentir-se sendo... pensa em si, em seu nome, no seu dia. imagina o nome do programa que leva o dia a seu nome e não se sente anti-original por ter o próprio, que, na verdade, é o mesmo... diferentemente igual. ela termina o banho e se senta novamente no sofá da sala... abre uma revista e começa a ler um texto feito a vinte mãos... vários escritores compartilharam a idéia de escrever um só texto, em sequência... ela lê o texto... ele fala de uma certa maria, que entrou no ônibus... a revista do nome de estado fala do dia que teve maria, do dia de maria como na televisão... não se sente nada por isso... o outro, não ela. de volta ao computador, ela recebe um convite para participar da escrita de outro texto, em conjunto, numa certa comunidade da internet... ela começa a escrever - "Não havia sol nem ar."...
Celim · Belo Horizonte (MG) · 14/5/2008 02:24 
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Astros insondáveis, o cão selvagem, o corpo flutuando, dissolução, ganidos estridentes. Tudo roda, as partículas de luz, os móveis do quarto, a sombra familiar do homem ao lado da cama, latidos dentro da cabeça imobilizada pela dor, o peso intransponível das cobertas. Lentamente, Maria vai recobrando a consciência do corpo. A dor, vestígio inegável de vida. Napoleão saltita em torno do homem que continua em pé, ao lado da cama. Maria não consegue mover a cabeça, mas jamais esqueceria aquele cheiro, aquelas pernas firmes, duras, inflexíveis. A sombra, a grande sombra. Lentamente, ainda, os astros insondáveis da noite dentro dela, Napoleão acendendo a vida do quarto com seus latidos de alegria, querendo afagos, atenção, parceria para as brincadeiras bobas que fazem a felicidade irretocável de um cão perdido na docilidade de existir apenas e seguir o fluxo. Maria suspira fundo, fundo, tentando emergir daquela bolha abafada pelas cobertas. De novo, o mesmo baque, a queda seca no abismo, o apagão. Desde a primeira vez que aquilo aconteceu, o apagão, alguma coisa acontecia dentro da bolha, uma ruptura, um corte que a deixava mais arrasada ainda, mais impotente, completamente imperscrutável, sem noção de tempo, nem espaço. A única lembrança era a daquele mundo de astros insondáveis, o cão selvagem, o corpo flutuando, a sensação de liberdade. Ela e o cão, irmanadas na fome de liberdade. O médico bem que tentou explicar, mas Maria fez força para não entender. Não queria entender. Só queria viver. Apesar de tudo, de todos, dela mesma, do sentimento de inadequação, do freqüente mal-estar, queria viver. Precisa viver. Às vezes, raro, mas acontecia, chegava a desejar com força de reza, tentando um pouco o fervor da mãe, que alguma coisa acontecesse que a empurrasse para a vida, e que fosse irremediável. Queria viver de uma forma irremediável. Que estourasse de vez essa bolha onde nada fazia sentido. Nenhuma explicação a tranqüilizava. Por isso, pra que tentar entender aqueles apagões que ficavam cada vez mais freqüentes dentro daquela sua não-rotina de vida. Vida para ela era apenas um desejo que por mais que espremesse nunca vinha o caldo. O seu desejo era uma laranja seca.
Consciente da realidade do corpo, Maria agarrava-se aos vestígios que trazia dos insondáveis astros que giravam dentro da sua noite. Os seus apagões. Lembrava a seqüência como se estivesse vendo um filme em que a protagonista não fosse ela. As luzes ofuscantes da brancura da tela do computador. E depois, nada. Ouvia o ranger da porta do galpão de ferramentas do ex-marido. A mão que abria a porta era a dela, sempre com o mesmo gesto meticuloso. Suava frio na palma das mãos, a eterna aflição que trazia desde os tempos de criança. Tinha até dificuldade para girar a maçaneta. Mas girava, como se aquilo fosse salva-la da escuridão. Depois, a caixa de ferramentas em sua mão. O quintal, o cão com a porção selvagem nos olhos, louco para ver o desfecho da cena. A terra sempre molhada pela chuvarada da noite anterior. Ela cava, cava. E cava com a certeza de alguma coisa grande. Não quer desenterrar nada, nenhum tesouro, nenhum segredo, nenhum medo. Não quer desentranhar. Pelo contrário, quer se plantar, se entranhar com a terra, como se fosse semente e tivesse o poder de brotar. Queria brotar. Então cava, cava, com o cão à espreita, impaciente, postado ao lado dela como uma sombra, uma presença, uma sentinela, vigilante, pernas firmes, inflexíveis. Maria esquece tudo e só cava, cava. Deixa-se possuir pela terra úmida, a maciez da terra, a cama aconchegante para o seu corpo exausto de flutuar. A cama de onde ela brotará com a sua fome de vida apaziguada pelo contato com a terra, o cão uivando louco de liberdade. As pernas inflexíveis, como dois postes ao lado do seu corpo emborcado no ato de cavar. As pernas rijas do homem sem rosto. As pernas infinitas que ela vê varando o céu enquanto vai se cobrindo com a terra úmida, aconchegante. Os astros insondáveis, as pernas, os uivos. As pernas inflexíveis, ali, ao lado da cama. Maria perdeu a noção de quantas vezes viveu essa cena sem desfecho, sem achar a lógica, a chave. Não quer achar a chave, não quer entender. Só quer viver. Não quer nem desejar viver. Quer alguma coisa que a faça viver, simplesmente, com a mesma gratuidade de Napoleão. As pernas, ali, ao lado da cama, inflexíveis, a cabeça pesada, o desconforto das cobertas, as luzes flutuantes do quarto, a agitação de Napoleão. O impulso de levantar-se, a sombra, as pernas inflexivelmente reais ao lado da cama.

Cida Almeida · Goiânia (GO) · 14/5/2008 10:24 
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Os sonhos de Maria custam-lhe caro. Vive um grande conflito: o absurdo preço para realizá-los ou uma vida como Napoleão, livre, tendo apenas as necessidades do corpo a ditar os seus atos. Quer pagar o alto preço, mas a criatividade, moeda para essa transação está escassa. Aos poucos se convence que o seu mundo interior e o real são antípodas. Fracassara nas várias tentativas de harmonizá-los. Por isso as palavras não saem, por isso não consegue materializar o que traz na cabeça. Por isso a tela do computador permanece sempre branca e o seu pensamento escuro, repleto de astros em órbitas desordenadas. Seria desejo de desaparecer o sepultar-se numa cova, ou uma tentativa desesperada de fincar raízes profundamente na terra para renascer com mais aptidões que lhe permitissem tornar-se uma escritora famosa? Constrange-se ao imaginar que pode não ser fértil como o solo úmido no qual deseja estender-se. Seria sufocada por outras plantas mais aptas. Sabe que buscou tudo quanto os péssimos conselhos do desespero lhe apontaram como saída: de astróloga a psicólogo, do suicídio ao renascer. Da produção individual à coletiva. Tudo um rotundo fracasso. O psicólogo lhe havia recomendado uma saída: “Se a criatividade não vem, tente a memorialística. Usará como maior recurso as lembranças, não a engenhosidade.” Mas precisa buscar a si mesma para vencer? Lembra-se de Pedro Nava, o seu Baú de Ossos e a demora em acertar o passo na literatura brasileira. É verdade que o escritor mineiro só conseguiu isso quando falou de si próprio. Sorri ao lembrar que o fim dele foi um tiro na cabeça que ele mesmo desferiu. Ia pelo mesmo caminho? Pára e pensa.
jjLeandro · Araguaína (TO) · 14/5/2008 11:48 
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A todos os que estão envolvidos no projeto: Não há mais espaço para texto. Limite mais do que estourado, infelizmente.
Por conta disso, estou fazendo alguns cortes. Espero que os atingidos entendam.
jjLeandro, sua útlima sugestão ficará aí em cima. Como isto é um espaço aberto, quem quiser pode dar continuidade à história, criando um caminho paralelo. A iniciada com tempo e espaço determinados para conclusão vai ter um final. Logo mais tá tudo editado.
bjos a todos
milu leite · Florianópolis (SC) · 14/5/2008 12:08 
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"J)Sim, meto a mão. Pego um lenço a mais, a caixa já quase vazia. Eu com esse enorme resfriado, os cabelos ainda colados de suor, a blusa empapada, mais até que a fronha do travesseiro."

Essa parte aí acima, embora identificada com a letra "J" é da lavra da Juliaura e não minha. Houve um erro na identificação já que usava-se a letra "J" para o que eu produzia anteriormente.
abcs
jjLeandro · Araguaína (TO) · 14/5/2008 12:54 
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milu... depois de haver escrito o texto aqui nos comentários, terminei a idéia com mais um post, na fila de edição (eu sei que você escreveu sobre não have rmais espaço para incluir outros textos na colaboração, mas...)... por favor, inclua essa pequena passagem - (rs). eu a repetirei, de novo, aqui:

"enquanto escreve, maria é transportada para um espaço, onde estão as outras pessoas que compartilham dessa experiência com ela... todos se entreolham, sorriem e se dão as mãos... juntos, uníssonos, recitam o texto, na velocidade do pensamento conjunto.. maria sorri."
Celim · Belo Horizonte (MG) · 14/5/2008 13:36 
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jj, já tinha notado o erro. corrigi (espero que do jeito certo; às vezes corrijo e erro de novo!).
celim, eu vou dar um jeito de colocar o trecho lá. isto implica cortar outros trechos... acredito que vc tenha uma boa e produtiva razão pra me pedir isto... é? diga que é, por favor!
bj

milu leite · Florianópolis (SC) · 14/5/2008 13:44 
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Pedido geral: leitura. por favor, leiam e vejam se do jeito que está tem sentido (não sou louca por ele, mas acho que a intenção aqui era dar algum, pelos menos para a maria).
cida, fiz tantos recortes na tua última parte que não sei se ficou do teu agrado. é complicado mexer nas palavras dos outros, palavras são intenções também.
mas aviso de novo que cortei, enxuguei, tive que meter a mão onde não devia (ou não pretendia inicialmente).
ainda é tempo de botar a mão. faltam míseras 3 horas.
bjos
milu leite · Florianópolis (SC) · 14/5/2008 13:59 
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Ocorreu-me que esse sonho de Napoleão - pretender ser fêmea e, ainda por cima de tudo, humana - não se realizaria assim sem sacrifícios de algumas coerências, por exatas ou suspeitas razões, e a dificuldade mesma de um cão assim, mesmo vira-lata estar a compor textos em computador, além de latir, correr, rosnar e lamber, que sempre lhe foram as peculiares referências. Convenhamos, apesar de imperador de algum sucesso nas artes marciais, apenas o nome não lhe seria de modo algum suficiente para almejar, se é que cães sonham, almejam, ser além do que era. E, no entanto, como era mesmo o dia dedicado à virgem, quem sabe ocorresse tal milagre e o cão, se sonhando estivesse, realizasse finalmente o anelado. Quem sabe não foi apenas e tão somente isso... um milagre de Maria.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 14/5/2008 14:19 
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(Ju) Sim, precisa migrar. Precisa fazer essa travessia. Olha Napoleão nos olhos e os vê percucientes. É como se lesse a sua alma, desvendasse todos os seus anseios, todos os seus mistérios. Embora a analise, não pode falar. Não fala, mas faz nascer no íntimo de Maria a suspeita de que fizera a escolha errada. Em vez de uma astróloga por que não um psicólogo?

Esse trecho acima .....srsrsrsr.....no retoque vc colocou como sendo da Juliaura, mas na verdade fui eu que escrevi. Aquele que aleguei e vc corrigiu era realmente dela.

abcs
jjLeandro · Araguaína (TO) · 14/5/2008 14:19 
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nossa! eu bem que avisei sobre correções que geram erros! desculpa, jj. agora acertei.
AVISO: O texto tá finalizado. não tem espaço para incluir mais nada. Por essa razaõ, Adroaldo, e só por essa, não dá pra aproveitar ali naquele espaço o que você postou.
Celim, vou fazer mais uma tentativa de inclusão. não sei se vai dar certo.
o problema técnico maior aqui nessa edição é que, como os textos são colados no espaço destinado à digitação, eu nunca sei de antemão quanto vai caber. é um ir e vir de páginas, ctrl c, ctrl v, inacreditável. a simples inclusão de negrito é lida como caracteres a mais, implicando mais cortes. junte a isso as panes básicas do sistema e o trabalho vira uma surpresa atrás da outra.
pois então, vamos ver se consigo incluir pela última vez o trecho em questão.
bjos
milu leite · Florianópolis (SC) · 14/5/2008 15:03 
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milu... eu só não quero que minha parte da colaboração termine com a volta ao início do texto... porque deixa de entrar no clima de fantasia que propusemos...
agora, terminando o texto com todas as vozes recitando-o dentro do sonho, que pode ser de napoleão, de maria ou de outro dos colaboradores, eu abro a possibilidade para que qualquer inclusão se encaixe na linha do texto...
só isso. (rs)
Celim · Belo Horizonte (MG) · 14/5/2008 15:09 
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celim, só vi agora o seu comentário postado nas sugestões. então, a conversa ficou meio confusa (aqui, acho eu).
olha, eu entendi perfeitamente a sua proposta e gostei. muito. acho até que vc poderia repetir aqui nos comentários o que colocou ali nas sugestões. fica o registro. permanente. o processo talvez seja o mais interessante a revelar.
enfim... vou à requerida inclusão. se o tempo não me atropelar, vai dar tudo certo.
bjo

milu leite · Florianópolis (SC) · 14/5/2008 15:25 
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uai... eu entendi que você se confundiu... não se preocupe... é a primeira vez que você promove esse tipo de colaboração conjunta... continue. com o tempo, as coisas se encaixarão, as pessoas se acostumarão a incluiros textos no box de sugestões... outras pessoas montarão outros textos colaborativos... começarão a se acostumar com o limite de caracteres... e, como eu disse imaginar, talvez os programadores do portal montem uma estrutura exclusiva para esse tipo de publicação.
Celim · Belo Horizonte (MG) · 14/5/2008 15:35 
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ufa! tá lá, celim.
valeu. acho que tá valendo tudo.
bjo
milu leite · Florianópolis (SC) · 14/5/2008 15:49 
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celim, não quer sugerir um de seus remixes pra incluir no texto?
temos 1 hora ainda. seria legal vc escolher um (são montes!) e indicar o trecho do texto onde quer colocar o link. vai lá, vai lá!
bjo

milu leite · Florianópolis (SC) · 14/5/2008 15:53 
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celim, vi agora que em "Em edição. 48 horas pra botar a mão - e boca" tem um remix teu em cima de um do felipe. bacana.

milu leite · Florianópolis (SC) · 14/5/2008 17:57 
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Tem problema algum, Milu. Adorei poder ler e acompanhar as contribuições nos comentários e nas sugestões de edição.
Bela idéia, uma boa costura fizeste, de tentar compor todas as contribu.
O que fiz já serve de comentário ao próprio desenvolvimento que a história acabou tendo e nem muito original é porque apenas imita o que é atribuído a pensador chinês, que já duvida se seria homem que sonhava ser borboleta ou borboleta que sonhava sere homem.
Pode-se arrematar a história com isto, à guisa de epílogo.
Ou mesmo já ser entendida como uma primeira apresentação em algum outro sítio, conforme uma resenha que instigue à leitura.
Se der condições, eu já aviso que farei um comentário do aqui ocorrido em minha coluna no jornal impresso Fala Brasil, na edição de maio, lincado pra cá. É sempre uma boa experiência a da criação coletiva da arte e nos demais fatos da vida.
Parabéns.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 14/5/2008 18:03 
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DEPOIS DE EDITADO...

(rsrs)

Uma crítica...

Genial!

Muito bom!

(rsrs)

Vale 10!

Abraços.

Lailton Araújo
LAILTON ARAÚJO · São Paulo (SP) · 14/5/2008 20:42 
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Publicado !
alcanu · São Paulo (SP) · 14/5/2008 22:54 
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uai, milu... você acha que, depois de escrever um pouco aqui nessa publicação, eu iria deixar de meter a mão naquele som? (não meti demais... rs) mas, tá ali, registrado e servido à turma que quiser baixar... continue com essas idéias, que são boas... depois, a gente pode conversar mais a respeito. um bjo pra vc... e pra todo mundo que participou.
Celim · Belo Horizonte (MG) · 15/5/2008 00:07 
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