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Ilustração: ADALON
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Circus do Suannes · São Paulo, SP
15/8/2008 · 138 · 19
 

Dizem as más línguas que publicitário é alguém que procura te vender algo de que você não precisa e pelo qual você pagará um preço que a coisa não vale. Pergunte aí ao meu filho Alexandre, craque na área, e veja o que ele pensa a respeito disso.

Os publicitários contra-atacam: o ovo da pata é muito mais nutritivo do que o ovo da galinha. Por que, então, o ovo da galinha está nos supermercados e os ovos das patas têm destino que desconhecemos? Simplesmente porque a galinha faz um escândalo danado depois que bota, enquanto que a pata continua tão silenciosa que o dono da chácara só se dá conta de que ela bota ovos quando ela aparece com a ninhada de patinhos balançando o traseiro em fila indiana. “Quem não anuncia se esconde”, diziam os elegantes publicitários, o que o conhecido especialista em comunicação José Abelardo Barbosa de Medeiros traduziu por “quem não se comunica se trumbica”, com direito a ser literalmente citado no dicionário do Aurélio.

Houve tempo em que nossos publicitários conquistavam palmas e salvas em festivais internacionais. E acabaram fazendo escola pelo mundo a fora. Mesmo falados em outra língua, certos comerciais têm a malícia brasileira.

Isso até que se descobriu que muitas das tais “peças publicitárias” brasileiras, como eles gostam de denominar seus trabalhos, eram meros produtos de laboratório, que jamais haviam sido exibidos no país. Eram como esses automóveis escalafobéticos que aparecem em certas exposições e jamais circularão por nossas cidades. Ou certas fantasias que algum costureiro famoso resolve pendurar em suas modelos, como se alguém minimamente são da cabeça fosse pagar um real por aquilo.

A julgar pelo declínio da qualidade de algumas peças publicitárias que hoje aparecem na televisão, certos empresários preferem entregar o trabalho a algum sobrinho que acaba de ingressar numa escola de propaganda aberta num desses ermos da periferia e que são meras fabriquetas de diploma, em lugar de gastar dinheiro com profissionais, cujo trabalho, pelo jeito, não levam muito a sério. Coisas que lembram o nascimento da televisão.

Naquele tempo havia certas peças marcantes. Pergunte à tua mãe se ela não ia dormir todas as noites ao som de certa musiquinha que tua avó cantava, tendo como personagem certo cobertor.

O fato é que hoje alguns comerciais são um insulto à sensibilidade do telespectador. Como o caso da dupla de sertanejos que resolveu fazer propaganda da própria churrascaria. No que me concerne, diante daquela propaganda, simplesmente perdi a vontade de comer carne.
Ou a propaganda do cartão de crédito que mostra a alegria com que o pai da mocinha aceitou a notícia de que o namorado dela passará a morar na casa do não ainda sogro, até terminar a faculdade. Eis a mensagem que me ficou: o cartão preferido dos idiotas.

Por outro lado, se você imagina que o tal merchandising, comerciais que se aproveitam de um personagem que esteja em evidência para vender serviços ou produtos, seja coisa de hoje, você ainda não viu nada. Aí está o jovem Luis Gustavo e seu inesquecível Beto Rockefeller que não me deixam mentir.

Mas, por falar em propagandas ruins, isso de uma campanha publicitária ser tirada às pressas do ar porque seu resultado poderia vir a ser catastrófico ocorre com freqüência. É coisa sobejamente conhecida dos professores de publicidade, que até lhe dão nome requintado: reversão de expectativa. E citam cases que ilustram isso. Escrevi case, que é como eles se referem a suas peças publicitárias ou que nome mais inventem para isso.

Clássica ilustração do tema é o caso do tecido sintético que, na minha juventude, quando a calça rancheiro ainda não havia atingido o status que conquistou hoje, talvez por haver sido traduzida para jeans, que veio para concorrer com as calças de alpaca, de gabardine, de casimira, de tropical ou de que outro tecido fosse e que tinham algo em comum: usou, amassou. O que levou o sargento do quartel onde eu fazia serviço militar, por sinal irmão do conhecido maestro Rui Rey, que tocava umas rumbas que teu avô certamente conheceu, a advertir os soldados: “quero todo mundo com as calças vinculadas”. E insistia no adjetivo: “eu disse calças vinculadas!” Perguntei, na ocasião, ao Kamel Abude, meu colega de Companhia de Comando no Batalhão de Saúde, hoje ilustre advogado criminalista, como eu conseguiria andar se ligasse (vinculasse) uma calça a outra. Ele não achava que eu deveria levantar o braço e esclarecer que a palavra certa é “vincada”, isto é, calça com o vinco acentuado? “Já viste o tamanho da cela que aguarda soldado metido a besta?” foi o conselho do meu companheiro de farda, que, com isso, conquistou o meu silêncio e minha eterna amizade.

Pois o sucesso das calças de tergal foi de tal monta que apareceu um tecido concorrente, o nycron, cujos fabricantes contrataram um gênio para divulgá-lo, distinguindo-o do outro tecido. E o homem bolou um bordão, como dizem eles, que era despejado em nossos ouvidos noite e dia: senta/levanta, senta/levanta, senta/levanta. Ou seja, você não precisaria mais preocupar-se em vincular suas calças. Até o jovem Cláudio Marzo foi chamado para a campanha do nycron.

O resultado foi estrondoso: as vendas das calças de tergal simplesmente triplicaram e do nycron ninguém mais voltou a falar.

Há também aquela propaganda de pomada contra hemorróidas, que mostrava um garboso cavaleiro a galopar um mais garboso ainda corcel, para dizer que o remédio havia produzido efeito. Exibida em certo país europeu de língua portuguesa, a tal peça publicitária teria ocasionado casos e mais casos de hemorragia anal, pois os espectadores pensavam que o remédio consistia simplesmente em cavalgar. Mentira, certamente inventada pelos espanhóis, que não têm mais nada a fazer do que mangar dos vizinhos.

Há outro case que é contado de forma diversa, conforme o narrador seja algum fã ou inimigo da publicidade. Um filme, como sabeis, é apenas e tão somente uma sucessão de fotografias, ou frames, como se diz em publicitês. Sendo exibidos em alta velocidade, isto é, cerca de 24 frames por segundo, o olho humano não tem tempo de perceber o espaço que existe entre um e outro frame. Daí a ilusão de movimento de pessoas, animais e coisas que vemos na tela. Pois certo publicitário pensou em utilizar isso para transmitir mensagens subliminares. Como seria isso? Depois de cada 23 frames normais, ele introduziu uma fotografia de um garoto de blusa amarela, tendo um sorriso no rosto e na mão direita um suculento pacote de pipoca. Lá fora, o tal publicitário colocou, como parte do teste, vários carrinhos com pacotes iguais ao que o feliz garoto de blusa amarela empunhava. O cérebro do espectador captaria a mensagem subliminar e o condicionaria a fazer o que o publicitário havia pretendido que ele fizesse.

Não deu outra. Terminado o filme, as pessoas se encaminharam rapidamente para fora do cinema, procurando uma loja onde pudessem comprar uma camisa amarela igual à que usava o tal menino.



Sobre a obra

Aí vai uma crônica em hipertexto. Dedico-a ao grande publicitário Alexandre Amaral Mello Suannes.

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Marcos Pontes
 

Impossível conter o riso. Que cura para hemorróida, hein?
Quando você falou de pésimas propagandas, imediatamente me veio à cabeça a do pai babaca, iria até comentá-lo aqui. Matou meu comentário no nascedouro.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 13/8/2008 20:01
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Branca Pires
 

Olá querido Circus, foi um prazer ler-te.
Nossa, a tua crônica está pra lá de boa. Além do mais, e super super esclarecerdora.
Vc tem total razão. Mas o que tem de publicidades ruisn, sendo vinculadas todos os dias? Nossa, algumas sem nehum poder de persuasão. Menos mal, né? O famoso tiro pela culatra, hehe.
Grande abraço

Branca Pires · Aracaju, SE 14/8/2008 14:26
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victorvapf
 

Belo texto! Lembro me do Eucalol... Toda manha sua mae dizia: Escove seus dentes meu filhinho. Menino desobediente, nunca escovava seus dentes,,,e ai por diante! Abracos

victorvapf · Belo Horizonte, MG 14/8/2008 19:43
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Circus do Suannes
 

Já leram "A Misteriosa Chama da Raínha Loana", do Umberto Ecco? Pelo jeito curtirão muito, se é que já não curtiram.

Circus do Suannes · São Paulo, SP 15/8/2008 04:29
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Sandrah Sagrado
 

Fizeram isso também com a pipoca associada ao refrigerante e por isso hoje existe pipoca e refri nos cinemas. Ótima sacada! Beijos.

Sandrah Sagrado · São Paulo, SP 15/8/2008 17:21
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Renato de Mattos Motta
 

Amigo Adauto, como publicitário, teria várias reparações a fazer... mas não vale a pena porque seriam pequenas e excessivamente técnicas. Tá muito legal! Na verdade sempre houve boa e má propaganda, mas a gente lembra é das boas! Existe também a boa peça que é má propaganda como uma certa propaganda de café que todo mundo lembrava, mas não associava com o nome do produto, que não era líder de mercado e só era citado uma vez depois das risadas...
Grande abraço e meu voto!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 15/8/2008 18:40
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celina vasques
 

Meus votos e meu carinho!

beijo no coração!

celina vasques · Manaus, AM 15/8/2008 18:57
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Langinha
 

Querido Adauto : p/ mim, vc é sempre o máximo, mesmo! Parabéns...Voto em vc c/ muito carinho....Langinha....

Langinha · São Paulo, SP 15/8/2008 19:33
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João Bosquo
 

Meus votos não vale quase nada, mesmo assim aí está. Gostei muito. Abrçs. JB

João Bosquo · Cuiabá, MT 15/8/2008 20:31
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Ecila Yleus
 

Muito bom mesmo, quero sempre está aqui.

Ecila Yleus · Recife, PE 15/8/2008 20:53
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j.alves
 

Publicidade é muito louca e seu texto também. valeu

j.alves · São Paulo, SP 15/8/2008 20:58
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Doroni Hilgenberg
 

Adauto
você é demais!
A propaganda´bem feita é tudo, mas comentadas por você, tiram a gente do sério em segundos. E a ultimo hem!
Propaganda gratuita para as lojas.
Gostei!
bjssssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 15/8/2008 21:09
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Marcelo Tadeu
 

Mais uma vez não vim em vão!!!!
Excelente!!

Marcelo Tadeu · São Paulo, SP 15/8/2008 21:37
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Branca Pires
 

Te mando ao banco.
Beijos

Branca Pires · Aracaju, SE 15/8/2008 22:53
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

texto muito bem feito.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 16/8/2008 10:50
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Lena Girard
 

Muito bom o texto, menino! Ele fez eu lembrar de minha mãe quando advertia as meninas que iam procurar por meus irmãos e de meu pai quando pedíamos pra ele dar um jeito na gritaria das galinhas ao pôr o ovo. Minha mãe dizia que elas iam "se oferecer" lá em casa a eles. Ela dizia: "Menina, tem pudor! Não fica te oferecendo com essas roupas depravadas", ao que a garota retucava: "Dona Belinha, material guradado não tem saída. A senhora sabia que a propaganda é a alma do negócio? Quando falávamos a meu pai sobre as galinhas, ele dizia: "Sabe por que vocês comem mais ovo de galinha do que de pata? A galinha faz a propaganda." Isso faz tanto tempo. Eu era apenas uma garotinha, rsrsrsrs. Ler teu texto foi "ver meus pais". Obrigada, menino! Votadíssimo. Beijos

Lena Girard · Belém, PA 16/8/2008 11:58
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Falcão S.R
 

Texto bastante interessante e prazeroso de ler.

Votado!

Abraço

Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2008 19:51
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victorvapf
 

victorvapf · Belo Horizonte, MG 18/8/2008 14:28
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Eldo Meira
 

Tá aí, gostei. Como dizia o tio Flor ao pregar a placa na fachada do seu bolicho: -- A propaganda é a `arma´ do negócio, meu fio.

Eldo Meira · Carazinho, RS 18/8/2008 16:53
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