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Quando Cai

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Luciana Maia · Rio de Janeiro, RJ
11/5/2007 · 26 · 2
 


Tudo parou, decididamente. Quem levantasse os olhos opacos aos céus veria o convite ao suave espetáculo da terra: a estação de recolher-se, de encolher-se. De fechar todas as portas, frestas e aposentos, para não deixar escapar o que restava de calor que se esvaía, a estação finalmente chegara. A cria da Grande-Mãe é gélida e delicada. Constituída por inúmeros pontos que se concentram levemente uns aos outros e se transformam então na fragilidade de um toque. Nas alturas descobre-se um mundo branco de poeira o qual se fazia mostrar, sem modéstia, sua graça a todos. Flocos de neve caem na augusta manhã...

A neve declara-se em sua imponência. Era tempo de frio e pequenos prazeres. As crianças sorriam satisfeitas no deslumbramento daquela magia e corriam afora para brincar e rolar na grande massa branca e fofa que se alastrara por toda a cidade. Os jovens reuniam-se em montes altos e competiam entre si suas habilidades na neve, sem a medida de riscos, capotavam monte abaixo, e repetiam e repetiam. Os apaixonados, os amantes!, entre goles de vinho tinto e mordidas de chocolate, abraçavam-se num silêncio tácito, com beijos e carícias mais ardentes que em noites de verão, a lareira fumegava e as mãos faziam o mesmo. Os animais hibernavam na floresta que acompanha a cidadela e, moles e letárgicos, esperavam pacientemente a vida retornar ao normal.

Eis o Inverno, quando a vida quer descansar de tantas cores. De tanto pra-lá-e-pra-cá, enfartos, adrenalina, energia em alta voltagem, deste fervor que é o mundo, a vida descansa, pois. Abrimos a boca e foge lentamente o ar cálido que escondia-se no corpo, uma fumaça eleva-se e desaparece. O inverno é quase estático. Agora é o momento do silêncio. É o tempo de a vida mostrar-se devagar, aos passos preguiçosos, e descobrir-se. É quando cai, a neve fria, que lembramo-nos, ainda existe quietude neste mundo contemporâneo.

Descobrimo-nos. Em quê? Sentimos o vazio avolumar-se por dentro e remexer-se involuntariamente, fertilizando conclusões, idéias indevidas, com o teor ácido que nos empurra a um deserto, perscrutando os inevitáveis caminhos pelos quais não encontramos uma saída, queremos um sentido para tudo. Filosofia vã e clichés existencialistas do que é a vida. O silêncio branco esmaga. Palavras duras são postas à mesa para serem degustadas e enfim participamos do banquete dos desgraçados. Como tudo em nossa realidade, descobrimos que, assumindo tal forma tão singela feita em flocos de neve, encontra-se a mensagem bruta e contraditória. Convenhamos que a vida não é só de serotonina, marchinhas de carnaval, festas bacantes e bem-me-queres, também há a desilusão que reina e sobrevive em todas as estações. Há um mundo cá fora, atroz e opaco. Mas e esta beleza embebida em magnificência, este espetáculo branco que cai dos céus, e a alegria dos meninos que fazem grandes bonecos de neve e os amantes deleitando-se em abraços?

Bruto é reconhecer-se só, na noite fria, beleza cai do céu, e deserto cá no quarto. Uns ruídos de alegria lá fora, meninos fazendo-se de deus e criaturas de neve fazem companhia, ruídos em soluços cá dentro. Há neste esplendor silencioso o conforto dos desolados, a caverna dos esquecidos, o edredom dos acabados. Estes penetram no submundo da reflexão e machucam-se, entretanto não há flores lá fora nem caminhadas matinais entre amigos, os pássaros não cantam, e isso tudo conforta. Pois o mundo emudeceu, descansa um pouco, para assim descansar os olhos daqueles que não lembrarão que outrora teve vida lá fora. Desperdiçados. Contraditório, pois, como toda a vida.

Onde há arco-íris também há o negrume, em cantos aparte. E a neve cai, devagarzinho, entre cachecóis e botas grossas, entre casas cheias e quartos vazios. Ela cai, assim brutalmente, semeando alegria e...

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Luciana Maia Pontes
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Luciana Maia
 

...semeando alegria e mais silêncio, das vidas que vivem e das vidas que duram.

{o resto da frase que não coube}

Luciana Maia · Rio de Janeiro, RJ 9/5/2007 16:09
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Rynaldo Papoy
 

Existencialismo à carioca? Bonito, gostei.

Rynaldo Papoy · Guarulhos, SP 10/9/2007 23:46
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