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Quando entrar Setembro

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Pablo Capistrano · Natal, RN
1/9/2006 · 92 · 14
 

Na manhã do dia 11 de Setembro de 2001 eu estava em sala de aula, com uma turma de ensino médio numa escola privada em Natal. Não tenho idéia do motivo, mas a aula acabou descambando para uma discussão sobre terrorismo. Quando sai da escola peguei um ônibus e antes de chegar em casa topei com uma colega de faculdade que me disse: “Teve um acidente em Nova York. Dois aviões bateram nas torres do World Trade Center”. Quando entrei no meu apartamento fui logo ligando a TV e assistindo o plantão da Globo News pôr no ar a reprise da queda das torres. 11 de Setembro é assim, uma data coletiva. Todo mundo que tinha a idade certa naquela época vai lembrar do que estava fazendo quando as torres caíram ou de como soube do acontecido.
Estranhamente, sempre que eu lembro desse dia penso em Caravaggio e em Kierkegaard
Há um quadro de Caravaggio me espanta há muito tempo. Chama-se O Sacrifício de Isaac e é, provavelmente de 1605. Ele parece ser uma versão mais elaborada de um outro quadro homônimo de 1600 e mostra Abraão no momento em que vai executar o sacrifico de seu filho, sendo interrompido por um anjo que lhe mostra uma ovelha. Essa história sempre foi uma das minhas preferidas. Não só pelo ciúme e pela insegurança doentia de Yaweh que procura sempre testar a fidelidade do seu povo, mas também pelo modo como Abraão aceita o absurdo. Kierkegaard fala dessa história num texto chamado “Temor e tremor”. Para o filósofo dinamarquês a história de Abraão e de seu filho representaria o estado psicológico do homem de fé, que aceita o mergulho no abismo. Mergulhar nesse abismo é abrir as portas para o vazio de significado que parece se ocultar por trás de alguns dos supostos “desígnios de Deus”. A aceitação do absurdo e a confiança em Deus levariam Abraão a cometer um dos mais hediondos crimes. Mas, para Kierkegaard ele estaria imune ao julgamento ético de seu ato, porque a fé poderia, de uma forma ou de outra, suspender teologicamente a moral.
Não há como ler esse texto do mesmo modo depois de 11 de Setembro de 2001. A idéia de uma suspensão teológica da moralidade tomou conotações sinistras depois dos atentados que derrubaram as torres gêmeas. O som da voz de um dos terroristas pilotando um dos aviões que se chocou contra as torres anunciando: “Deus é grande!” impediu-me definitivamente de ver o quadro de Caravaggio e ler a justificativa de Kierkegaard com os mesmos olhos que eu tinha quando era estudante do curso de filosofia.
O 11 de Setembro marca um momento de virada no curso da história recente. Ele nos mostra que os velhos fantasmas de uma intolerância religiosa que pareciam estar sepultados pelas disputas ideológicas do século XX, nunca morreram de fato. Se pensarmos num alinhamento de fatos que envolvem a disputa entre cristãos, judeus e mulçumanos pela posse da verdade divina, poderíamos pôr as cruzadas, a inquisição, as guerras religiosas do século XVII, os polgrons contras judeus do século XIX e o terrorismo religioso desses anos como uma mesma e contínua reação contra os pressupostos de uma razão laica e livre. Todos os esforços de Kant de sustentar moralmente uma religião da razão parecem ir por terra quando alguém usa o nome de Deus para justificar a “suspensão da própria moralidade”. A fé é um instrumento poderoso. Um instrumento que lança luz sobre a mente do homem. Como toda boa luz, pode tanto iluminar quanto cegar; pode tanto libertar quanto aprisionar os espíritos mais inquietos. Por isso eu tenho medo da fé e prefiro responder, quando alguém me pergunta qual a minha religião, roubando a frase de alguém que não me lembro quem é, mas que já possui no uso capião das citações roubadas dessas centenas de livros que tenho na estante: “Acredito muito em Deus, mas desconfio daqueles qye se dizem seus funcionarios".

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Pablo Capistrano
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Daniel Duende
 

Em tempos absurdos, os homens desesperados buscam também por deuses absurdos...

É uma questão de zeigeist... ou de valores.

bom texto.
abraços do verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 1/9/2006 11:05
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Daniel Duende
 

ops... eu quis dizer "ZeiTgeist" :)

(é nisso que dá digitar rápido e não ler antes de enviar. escreveu não leu, mico cometeu...)

Daniel Duende · Brasília, DF 1/9/2006 11:06
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Fábio Fernandes
 

Pablo, esse momento de virada terminou de vez com qualquer ilusão de futuro que pudéssemos ter. Já notaram que, em nosso tempo de criança (pelo menos no meu, que fui criança na década de 1970), a gente encarava 2000 e 2001 como datas cabalísticas, representativas de um futuro melhor. E no entanto se tornaram datas "acabalísticas", apocalípticas e desintegradas. Ficamos todos mais pobres em termos de crença - ou não: estou falando do ponto de vista do branco ocidental (reler Edward Said nesses tempos é sempre saudável, aliás).

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 1/9/2006 11:53
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Daniel Duende
 

Para os apocalípticos, estes são definitivamente tempos de esperança, meu caro Fábio...

Estes são tempos absurdos, e só o absurdo é capaz de extinguir a si mesmo em tempos como estes...

Em tempo... o apocalipse é uma "data" DEFINITIVAMENTE bem cabalística. :)

abraços do verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 1/9/2006 11:57
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Ana Cullen
 

O que me incomoda um pouco é pensar que esses atos terroristas são motivados única e exclusivamente pela religião, pela fé... o buraco é mais embaixo, a questão é muito mais sobre poder do que sobre religiosidade, o problema é que muitas vezes os executores dos atos acham que é uma prova de fé.

Ana Cullen · Brasília, DF 1/9/2006 12:40
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Daniel Duende
 

Eu concordo que isso é aterrorizante, Aninha. Mas eu gostaria de abrir um pouco mais o escopo da coisa aqui. Não se trata apenas de um jogo de poder de alguns. Sò o jogo de poder, a sede de poder, de uma minoria não seria suficiente. A pergunta é: o que faz estes tantos milhares -- ou milhões -- de anônimos estarem dispostos a morrer em nome de uma causa, de uma religião? Será uma predisposição natural lemingueana do ser humano? Será algo em nosso momento, l'air du temps, coisa assim? Será um fenômeno inexplicável, ou não?

O que me impressiona não são os poucos que usam a fé, e a necessidade, de de muitos para fazer seus jogos de poder. O que me impressiona é a fé, e a disposição de alguns para matar e morrer por uma causa muito maior do que eles... e que por vezes é imposta a estes mesmos de forma nefasta, disfarçada de algo que eles precisam muito... a "vontade" de Deus.

Estes jogos é que me impressionam, e aterrorizam sobremaneira...

Estes são tempos absurdos, como eu disse, e as pessoas desesperadas buscam então deuses absurdos...

Daniel Duende · Brasília, DF 1/9/2006 17:02
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Ana Cullen
 

Mas sabe que me assustam mais os que manipulam a fé do que os que estão dispostos a morrer e matar por ela? Eu acredito que o ser humano é um bicho dos mais geniais e indefesos, essa combinação é fascinante e aterrorizante (para usar o seu adjetivo).

Ana Cullen · Brasília, DF 1/9/2006 18:00
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Daniel Duende
 

Eu concordo com vc. Aqueles que manipulam são muito mais assustadores. Mas me assombra muito mais aquilo que leva as pessoas a se "entregarem" a tais buscas... seja a pelo poder, ou pelos deuses absurdos destes tempos....

Daniel Duende · Brasília, DF 1/9/2006 18:03
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j.alves
 

Deus e Demonio é apenas o ser humano.

j.alves · São Paulo, SP 2/9/2006 15:16
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Fábio Fernandes
 

Acho sempre redutor e perigoso atribuir um ato a apenas uma causa. Não é só fé que provoca esse tipo de ação, Ana. Como o Verde falou, existe toda uma série de manipulações nas quais a fé é apenas a superfície. Aí se misturam também interesses geopolíticos e sócio-econômicos. Pode até ser que o homem-bomba pense somente na fé - mas, como já foi pesquisado, muitos deles não têm esperança de futuro, e os manipuladores lhes oferecem não só uma promessa de futuro no além, mas dinheiro para suas famílias no aqui-agora. Isso não os conforta de modo absoluto, mas lhes dá a sensação de que para alguém - não para eles - existirá uma luz no fim do túnel.

Mas - se é que posso dizer isso - não julguemos não. Pensar nos atores dessa tragédia como sendo "emissários do mal" os desumaniza aos nossos olhos. E somos todos tão humanos. Precisamos nos entender mais e melhor.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 3/9/2006 10:41
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Fábio Fernandes
 

Acho sempre redutor e perigoso atribuir um ato a apenas uma causa. Não é só fé que provoca esse tipo de ação, Ana. Como o Verde falou, existe toda uma série de manipulações nas quais a fé é apenas a superfície. Aí se misturam também interesses geopolíticos e sócio-econômicos. Pode até ser que o homem-bomba pense somente na fé - mas, como já foi pesquisado, muitos deles não têm esperança de futuro, e os manipuladores lhes oferecem não só uma promessa de futuro no além, mas dinheiro para suas famílias no aqui-agora. Isso não os conforta de modo absoluto, mas lhes dá a sensação de que para alguém - não para eles - existirá uma luz no fim do túnel.

Mas - se é que posso dizer isso - não julguemos não. Pensar nos atores dessa tragédia como sendo "emissários do mal" os desumaniza aos nossos olhos. E somos todos tão humanos. Precisamos nos entender mais e melhor.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 3/9/2006 10:42
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Ana Cullen
 

Era exatamente isso que eu estava tentando falar Fábio! Ou quase isso...bom, concordo com o seu comentário.

Ana Cullen · Brasília, DF 3/9/2006 13:05
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Daniel Duende
 

Concordo mais uma vez com as colocações do Fábio... temos que compreender a complexidade humana, e os muitos niveis que essa história toda possui...

abraços do verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 3/9/2006 14:10
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carlos magno
 

Muito bom Pablo. Parabéns.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 20/5/2007 21:11
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