_ Tripulação, preparar para o pouso.
Era a deixa. Foi ouvir isso e a senhora avultada, sentada na poltrona 14, sobre as asas, disse aquilo que não se pode dizer numa hora como essa:
_ Estou sentindo cheiro de queimado.
O pior não foi ela ter dito. O fato de uma frase sair da boca de alguém como um pensamento alto, não é problema. Inconveniente é alguém também concordar com isso. O burburinho tomava a sala e podia ser pego no ar, como máscaras de oxigênio que caem sobre as cabeças dos passageiros em caso de despressurização da cabine.
_Eu também senti, disse a outra da poltrona 17.
Na poltrona de número 13 – nada venturosa - fiquei em silêncio. Não achei necessário ouvir aquilo tudo, justamente, na hora do pouso. Achei que o cheiro podia ser imaginação. Segurei a esse pensamento como quem embala uma criança frágil. Era preciso.
Fiz uma oração e balbuciei: “Será o que tiver que ser”. Essa mania da predestinação, que me persegue.
Já sãos e salvos, depois de pousar, tomou-me um misto de raiva e pena daquela senhora. Como diz cunhada minha: “Há certas coisas que as pessoas não precisam saber, uma delas é que o avião vai cair, minutos antes; e a outra é que Deus não existe”. Acrescento à lista, o saber da hora , do dia e da razão de se morrer. A tríade de revelações, pode causar estragos nunca imaginados, mesmo antes de se confirmar verdadeira.
Um avião pode ou não cair. Se você tem a informação que ele sucumbirá, imagine como você se comportaria: se jogaria antes? Rezaria? Revelaria seus segredos por telefone a algumas pessoas? Feito isso, o avião pousa serenamente. E agora?
Vi na TV o depoimento de uma sobrevivente da queda de uma aeronave no Pará, na década de 80. “Todos sabíamos que íamos cair, o piloto avisou pouco antes de acabar o combustível”, contou. Mesmo assim, um dos passageiros não amarrou o cinto, ficou de pé no corredor. Ele não sobreviveu, ao contrário de muitos outros.
Outra hipótese. Deus não existe. De fato, comprovado. Todos sabem; não há luz no fim do túnel, nada. Você está só. Saber disso te liberta, mas tudo o que não se faz com medo da punição, do purgatório, da próxima encarnação seria automaticamente permitido. O caos estaria instalado. Cogitar a não existência é uma coisa, consolidar isso à toda a nação, é outra muito diferente. A fé estaria importunada, e a vida da forma como conhecemos hoje, também.
A ousadia daquela mulher em fazer algo que poderia causar muitas angústias, como causou de fato, a pelo menos 153 pessoas de um boeing, às três horas da tarde de terça-feira de sol. Ela pôs à prova a fé e a serenidade de boa parte dos tripulantes da aeronave.
Ao sentir um cheiro de queimado é possível que seja tudo, inclusive nada.
_Tripulação: portas em automático.
Era outro sinal. Alguém no fundo gritou:
_Chegamos! Graças a Deus.
Deus ainda era evocado. O avião ainda estava ali. Eis o signo da normalidade, de volta.
Muito interessante!
Me lembrei que muitas vezes ja me antecipei em sofrimentos, desnecessariamentes, com poucas possibilidades de vir a ser uma dor, uma perda... e muitas vezes me fechei os olhos, com minha força mágica de me teletransportar, e deixei de ver como se resolve, como se ultrapassa um obstáculo... A gente ás vezes vive um "era uma vez" e um faz de conta que não é a introdução da nossa vida, e fazer de conta é não viver...
Reflexivo texto
é interessante como certas pessoas imaginam as coisas e atrapalham meio mundo. Já viajei com pessoas que não fecham o olho no
avião e nem em uma longa viagem de onibus, por medo de que algo possa acontecer. Eu durmo, e se morrer dormindo melhor...
pois o que tem de acontecer, acontece.
bjs
...nossa! fiquei me imaginando nessa aeronave....aff.
terror de aviao......oficina aqui embaixo, sabe como é né?!
mas Deus é mto grande pra caber em nossa logica, concorda?
a gente nem se entende, rsrsrs, de certeza é que um dia partiremos.....se com bilhete de volta, isso só Ele saberia dizer.
gostei do texto!
bjsss;
Muito divertido e bem construído o texto. Votado com louvor. (Só discordo dessa parte de que, sem deus, os homens perdem o senso moral. Acho o contrário. Os ateus tem um senso de conduta e de justiça muito mais aguçado. São mais individualistas e respeitam mais o espaço e o direito alheio)
Flávio Herculano · Palmas, TO 14/8/2009 09:25Muito bom o texto. Redondo e muito gostoso de ler.
Daniel Rubens Prado · Belo Horizonte, MG 1/9/2009 11:45Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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