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Quando o morto incomoda

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Zé Preá · Recife, PE
8/9/2008 · 109 · 14
 

"O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda". (Nelson Rodrigues)

Outro dia li num blog sobre música o seguinte: “Quando se fala em Aracy de Almeida, a primeira imagem que me vem na cabeça é dela como jurada do Sílvio Santos. Na época, já uma senhora, ela parecia uma bruxa de óculos escuros, emoldurada por um pixaim bléqui, com o humor de uma sogra com TPM. Só anos depois é que fui entender por que era ela que gongava os calouros ao som do famoso bordão ‘vai levar dez paus’”.

Se Noel Rosa vivo fosse jamais perdoaria semelhante coisa. Ou não. Aracy era a intérprete preferida das suas músicas e foi uma das maiores sambistas que este país já teve.

Mas vamos fazer uma viagem no tempo e retornar ao Brasil de 1968. A botina mandava em Pindorama, a “arapongagem” corria solta, o AI nº 5 estava prestes a não dar problema de consciência no coronel Jarbas Passarinho, e os artistas foram “aconselhados” a ficar calados. O samba tradicional andava meio debilitado porque vinha se recuperando do ataque dos bossanovistas e tropicalistas. Dizia-se que o samba estava pra morrer. Foi quando a TV Record de São Paulo inventou de fazer mais um festival, desta vez chamado a I Bienal do Samba. Caetano Veloso, que já era um artista talentosíssimo resolveu participar do concurso. Impediram! Disseram que o homem não era sambista e que queria esculhambar colocando guitarra no samba. Caetano ficou arretado e não era pra menos.

A Aracy de Almeida que nessa época andava por baixo no que diz respeito a fazer sucesso, inscreveu um samba muito bom, mas foi desclassificada misteriosamente. Foi quando os dois se encontraram, tiveram uma conversa e Caetano resolveu compor uma das músicas de que mais gosto do seu repertório: A Voz do Morto.

A versão de Aracy para a história da música é essa: “Vou contar uma história aqui. Eu trabalhei aqui numa emissora e essa emissora era chegada a negócio de festival. Uma música minha foi desclassificada e era uma música muito boa. O Samba da vida, de Miguel Gustavo, um autor realmente genial. Então, pra gozação eu cheguei perto do Caetano, ele morava ali na Rua São Luís, e disse: ‘Caetano, vamos fazer uma música de gozação daquele festival, porque afinal de contas festival é aquilo que a gente sabe. Só ganha o que não é popular’. Então o Caetano entrou na minha, eu entrei na dele e o Caetano resolveu fazer essa música A voz do morto”.

A versão de Caetano ilustrada pelo palavreado chulo que teria usado Aracy na ocasião é mais condizente com a verdade, pois todo mundo sabia que Aracy era a Dercy Gonçalves do samba e as duas tinham fama de boca porca: “Assim como ‘Baby’ me foi sugerida por Bethânia, ‘A Voz do Morto’ me foi ditada pela Aracy de Almeida. Ela estava em São Paulo para fazer a Bienal do Samba, que era um festival só de sambas, e estava muito irritada com a ideologia em torno daquilo. Ela veio falar comigo: ‘Pô, me tratar como glória nacional pensando que vão me salvar? Puta que o pariu, salvar o caralho’! Estão pensando que vão salvar o samba na televisão? Salvar o caralho! Quero que você faça um samba porque você que é o verdadeiro Noel, porque você é violento, você é novo!'. Era assim que ela falava para mim: ‘Eu já estou por aqui, de saco cheio’ - e ela pegava, como se tivesse saco mesmo -; ‘Eu estou de saco cheio desse negócio de Noel Rosa, ter que arrastar esse morto pelo resto da vida. Quando eu canto é a voz desse morto! E ninguém me engana com essa porra não, de festival do samba. Faça uma música da pesada para eu gravar, esculhambando essa porra toda!’. Ela me ditou o samba! Fiz essa música, ela adorou e gravou”.

É claro que, inteligente que só ele, Caetano incluiu outra mensagem na música. Quando a cantou depois junto com Os Mutantes, de Rita Lee, deu confusão. Foi aí que resolveu fazer É Proibido Proibir.

Eu não conheço a gravação de Aracy nem a de Caetano, mas no começo da década de oitenta e com a censura já domada, o excelente cantor e violonista pernambucano Geraldo Azevedo fez uma notável interpretação dessa música naquele estilo “um banquinho e um violão” tão em moda na época da Bossa Nova. Ela só faz confirmar o talento de Caetano Veloso como compositor musical.

Então, à apreciação de vocês que depois responderão se a música é de protesto ou de deboche mesmo, como eu a entendo!

Zé Preá

Sobre a obra

História da música A Voz do Morto, de Caetano Veloso, nas versões de Aradercy (Aracy de Almeida) e do próprio Caê.

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Zé Preá
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Circus do Suannes
 

Zé Preá, cantador nordestino, é a mais nova aquisição do Overmundo. Vocês vão ver do quer esse cabra é capaz. Inaugurei a votação com um orgulho pai dégua.

Circus do Suannes · São Paulo, SP 6/9/2008 13:48
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Sheila Fonseca
 

Votado,
Abraço!

Sheila Fonseca · Rio de Janeiro, RJ 6/9/2008 14:01
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Lila Su
 

Zé Preá, você me aguçou a curiosidade. Diga como faço para ler, ouvir a canção referida. Adianto que me perco nos caminhos do Overmundo. Um abraço. Lila Su - irmã do Adauto ( fazer o que, né???)

Lila Su · São Paulo, SP 6/9/2008 15:00
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Doroni Hilgenberg
 

ZÉ Preá,
continuando a votação e lhe
desejando sucesso, pois vc promete.
Não ouvi a musica, mas deve ser de deboche,
porque morto não faz mais protesto.
bjsssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 6/9/2008 15:03
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Zé Preá
 

A Voz do Morto
Composição: Caetano Veloso

Estamos aqui no tablado
Feito de ouro e prata
E de filó de nylon
Eles querem salvar
As glórias nacionais
As glórias nacionais
Coitados
Ninguém me salva
Ninguém me engana
Eu sou alegre
Eu sou contente eu sou cigana
Eu sou terrível
Eu sou o samba
A voz do morto
Os pés do torto
O cais do porto
A vez do louco
A paz do mundo
Na glória

Eu canto com um mundo que roda
Mesmo do lado de fora
Mesmo que eu não cante agora
Eu canto com um mundo que roda
Eu e o Paulinho da Viola
Viva o Paulinho da Viola
Ninguém me atende
Ninguém me chama
Ninguém me rende
Ninguém me engana
Eu sou valente
Eu sou o samba
A voz do morto
Atrás do muro
A vez de tudo
A paz no mundo
Na glória

Segue a letra da música e a gravação de Geraldo Azevedo estou tentando remeter pro banco de cultura (música).

Zé Preá

Zé Preá · Recife, PE 6/9/2008 23:25
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Renato de Mattos Motta
 

Ta aí meu voto!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 7/9/2008 00:16
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

texto maravilhoso.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 7/9/2008 09:20
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Vanessa Anacleto
 

Aguçou muita curiosidade. Estou aqui tentando ouvir a música. Votado com satisfação. Sempre adorei a voz de Aracy.

abraço

Vanessa Anacleto · Rio de Janeiro, RJ 7/9/2008 10:41
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Maurimar
 

Eta Dr. Suannes, só podia vir daí.... parabéns. Maurimar

Maurimar · Mogi das Cruzes, SP 7/9/2008 11:50
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Lena Girard
 

Uau!! Eu já votei de ler. Só falta ouvir. Beijos

Lena Girard · Belém, PA 7/9/2008 19:12
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Langinha
 

Parabéns ! Outro sucesso !!! Bjkas...Langinha...

Langinha · São Paulo, SP 8/9/2008 15:43
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Saavedra Valentim
 

Votando.
Abraços

Saavedra Valentim · Vitória, ES 8/9/2008 22:04
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Saavedra Valentim
 

Caro Zé
Um conto muito inspirador. As histórias, envolvendo música popular e cantores que fizeram parte de minha adolescência e juventude, são bastante interessante.
Crônica muito bem escrita.
Parabéns!
Abraços

Saavedra Valentim · Vitória, ES 8/9/2008 22:10
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Carlos Mota
 

gostei do tema e do texto
mas não conheço a música
vou pesquisar

Carlos Mota · Goiânia, GO 11/9/2008 11:42
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