Do alto do morro Santa Clara, no Parque Moscoso, duas velhas senhoras têm muito para contar sobre as mudanças que ocorreram na cidade em quase um século. Isabel Arabela Moreira da Silva, 84 anos, e Jacy Fonseca Madureira, 89, são vizinhas na rua mais alta do morro. Lá de cima ainda avistam boa parte da cidade, mas os prédios cobriram a visão da baÃa, do Parque Moscoso e da cidade alta.
Dona Jacy, mais conhecida como Lilita, é a mais antiga moradora do local. Tão antiga que nem lembra desde quando mora ali. Mas pode dizer, com certeza, que criou seus nove filhos nas ladeiras do morro. Hoje todos são aposentados e quase todos têm netos. Dona Arabela, moradora há 59 anos, também criou seus seis filhos no morro. As duas desfiam o fio da memória para contar como era a vida na comunidade e as transformações que elas viram acontecer na cidade.
Dona de memória prodigiosa, dona Arabela aponta da janela um mapa da Vitória antiga: "está vendo aquele prédio? Lá era uma chácara". Ela conta que as mercadorias para os moradores da cidade chegavam em botes e canoas que ancoravam na atual Ponte Seca, na Vila Rubim, ou no Cais do Tostão, que ficava onde hoje está a Av. Jerônimo Monteiro, próximo à escadaria do Palácio. Lembra também que a primeira estrada calçada para o morro foi construÃda pelo governador Nestor Gomes para dar acesso à casa que ele construiu no alto. Essa estrada é hoje a rua Santa Clara.
As duas recordam que no inÃcio o morro era um lugar pobre, com muito mato e ladeiras enlameadas quando chovia. Chamava-se morro do Cabral, nome da famÃlia proprietária. Aos poucos os moradores foram melhorando de vida e regularizando seus terrenos. Hoje o morro Santa Clara é um bairro de classe média, com belas casas antigas e ruas tortuosas.
Apesar da pobreza da época, a vida era muito feliz, afirmam elas. "Naquele tempo, as mulheres ficavam em casa, por causa disso, todos se conheciam e se ajudavam, as crianças cresciam juntas brincando nas ruas", lembra d. Arabela acrescentando que hoje, como todos trabalham e chegam em casa mais tarde, é mais difÃcil conhecer os vizinhos.
Dona Lilita tem saudades dos tempos em que toda a rua se reunia para festejar São João e Santo Antônio. "Nosso morrinho é abençoado", diz ela. "Quando nós nos arrumávamos para descer o morro ninguém botava defeito", brinca dona Arabela. Nesse tempo, verdureiros, peixeiros e ambulantes de todo tipo iam oferecer suas mercadorias em balaios dependurados nas costas. As frutas eram encontradas com facilidade nas chácaras e quintais existentes.
Hoje, no lugar de mangueiras e cajazeiros, prédios. No lugar dos saveiros que transportavam o café para o antigo Cais do Mesquita, os guindastes do porto. Mas, apesar das saudades, as duas senhoras não caem no saudosismo: acreditam que o progresso é bom e que muita coisa mudou para melhor, como, por exemplo, o calçamento das ruas. E seguem em frente...
Texto publicado originalmente no Jornal Primeira Mão.
Ambas as entrevistadas já faleceram.
Claudia, o progresso tem estes dois lados.
Para mim, sempre perdemos muito, em favor dele.
As lembranças destas duas senhoras são doces como as frutas outrora abundantes, apesar de saber da cota de dores de cada uma para criar a famÃlia.
Infelizmente, hoje, as árvores são substituÃdas por prédios e as crianças correndo, morro acima, morro abaixo, por pequenos prisioneiros em apartamentos.
Quem foi mais feliz?
beijos
Eu acho que ganhamos e perdemos, ao mesmo tempo. Mas também acho que não é um jogo assim tão fácil de estabelecer o placar, não. O fato é que esse é o nosso tempo, queiramos ou não. O que está ao nosso alcance é fazer dele um lugar possÃvel de se viver.
beijos
Desta eu perdi a edição. Ia implorar pelas imagens, um mapinha velho que fosse. Paiência. Inventei as imagens eu mesmo.
Abs
SpÃrito, vc sabe, eu trabalho com imagens e com narrativas imagéticas. E, à s vezes, só para distrair, prefiro que o texto construa as imagens. Quando um texto meu proporciona ao leitor a possibilidade de interventar imagens eu fico bem feliz.
abraços!
Então:
'Interventei' fundo com este.
uma delÃcia de texto!
adorava passear pelo centro de vitória no meu horário de almoço. ficava namorando aquelas casas antigas e as ruas estreitas. saudades...
Saulo, também tenho saudades do centro. Quase não vou mais lá. Na minha infância, tudo era resolvido lá: escola, trabalho, médico, enfim, a referência de todos era o Centro. Hoje a cidade se espalhou, criou novos polos. A gente pode passar anos sem ir ao Centro. Sinto falta principalmente da cidade alta e rua 7.
Ilhandarilha · Vitória, ES 27/9/2008 20:49Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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