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Que roubada: Dormi no inferno! Texto de Aznº 666

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AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ
16/4/2010 · 1 · 0
 

Que roubada!
Na década de 80 se tu arrumasse emprego fácil era porque era ruim, o patrão era péssimo,pagava mal ou os 3! A epidemia de fliperamas estava bombando e surgia casas de jogos igual a insetos depois da chuva. Para pegar este emprego tinha que ser casca grossa e meu currículo com participação em filme Capoeirístico ajudou.

Meu setor era de vendedor de fichas e ajudar o gerente como guarda costa se fosse preciso. A juventude Transviada era a maior frequentadora do local e tinha ícones como exemplo:
Os playboys da Figueiredo e os pés rapados da Cruzada que frequentavam semanalmente as páginas policiais!

Dei sorte pois minha loja ficava no Lido aonde os playboys e os Cruzadas não iam, ficando a frequência limitada aos eméritos gazeteiros de colégios próximos e pivetes que "trabalhavam" nas portas dos hotéis da área. A tal juventude transviada fazia questão de demonstrar a educação familiar e por isso as máquinas apanhavam mais do que mulher de malandro!

Na ânsia de conduzir a bola do jogo chacoalhavam a máquina para tudo que é lado, pondo em risco o imenso vidro que protegia a mesa de jogo!
A ordem do dono era:
Vidro quebrado, dinheiro do sálário descontado!
Então quando chegava os mais indigestos, eu saía do caixa com os bolsos cheios de fichas e ficava vendendo-as ao lado dos mais violentos com o intuito de intimida-los!

Numa manhã entrou meia sala de um colégio e senti que o bicho ia pegar, afinal o morro do Chapéu Mangueira era a 1 Km dali. Disputa a dinheiro era proibida então quem perdia pagava a ficha. O problema é que a ficha do 1º jogo alguém tinha que pagar e quem tinha pago foi o (Futuro) ganhador.
O adversário (o perdedor) tinha que comprar a sua também para garantir a lisura da aposta, mas na hora de entregá-la para o ganhador, negou-se!

O ganhador menor e mais fraco tentou tomar a força, mas o grandão o amassou sobre o fragil vidro da máquina! Ouviu-se um estalo seguido de silêncio absoluta!
Alguém gritou:
Simbora Jorjão que o bicho vai pegar!
Sairam em desabalada carreira ficando para trás só as gargalhadas.

Nos entreolhamos, eu e o gerente e eu enxerguei meu salário no vermelho e ainda faltavam 2 semanas para recebê-lo! Mas a macumba da nega é boa de maneiras que apareceu nesta noite o recolhedor de fichas da empresa, (recolhiam todas as noites para poder nos fornecer fichas para venda) que não era o mesmo de sempre! O colocamos a par de nosso drama e ele ofereceu uma solução:

Eu vendo cópias de chaves para abrir a máquina e chegar no cofre. O preço é salgado mas com 3 dias voçes saem do vermelho aí o resto é lucro!
Eu que ja era honesto na barriga de minha mãe, não quis participar da vaquinha, então o gerente comprou a cópia da chave sózinho!

Aí a gente fechava 1:00 hora da manhã, o gerente abria a máquina pegava o cofrinho de 20 centimetros de largura por 30 centimetros de comprimente e 5 centimetros de altura e chacoalhava, chacoalhava, as fichas iam caindo, uma ou duas de cada vez. Faziam um barulhão danado e o gerente e eu temendo que o dono passasse e visse a luz acesa por debaixo da porta.

Noutro dia o mesmo recolhedor de fichas e o gerente falou da dificuldade de retira-las. Então o recolhedor disse para ele preparar paus de picolé com visgo, (liquido branco que sai da jaqueira) que era tiro e queda! O recolhedor não deu só o peixe como diz o velho deitado, ainda ensinou a pescar!
Aí oque demorava uma hora para tirar 20 fichas passou a ser feito em 10 minutos.

Nesta altura do campeonato o gerente ja tinha pago a parte dele do vidro e ja estava comprando um novo, enquanto o honesto aqui só olhava. Só faltava uma semana para o fim do mês de um trabalho em que eu entrava as 8:00 e saía as 2:00 da manhã sem direito a almoço, lanche, janta, tudo do meu bolso. Diz novamente o velho deitado:
Ladrão que rouba ladrão tem sem anos de perdão!

Eu estava sendo roubado pelo patrão que não pavaga hora extra nem insalubridade ja que a profissão era razoavelmente perigosa! Caí na gandaia e o gerente garotão abriu um cofre só pra mim! Mergulhei de cabeça e em 3 dias ja tinha pago minha parte no vidro e no fim da semana comprei minha chave! Não era qualquer chave, tinha 4 lados, na época um espanto!

Mas araruta tem seu dia de mingau e numa manhã entra um cara com cara de poucos amigos num casaco de couro embora tivesse um sol de rachar. Tremi na base, senti um frio na espinhela, seria o meu primeiro assalto! Ele me deu uma nota de 5,00 para tirar 2 fichas ou seja 1,00! Dei as 2 fichas e 4,00 de troco, mas ele me pediu para devolver os 5,00 e tirar as fichas de 10,00!

Devolvi os 5,00 (mas não pedi meus 4,00 de volta)e dei o troco de 9,00! Aí ele me pediu para tirar de 50,00!!!!
Nesta altura do campeonato eu ja estava me cagando todo, pois achava que ele estava querendo saber se eu tinha dinheiro suficiente para ele anunciar o assalto. Apavorado devolvi os 10,00 dei as 2 fichas pedi que ele jogasse e fosse embora!

Pra minha sorte ou azar ele nem jogou as duas fichas, na metade do jogo se pirulitou! No final do dia contabilizei o prejuizo: 4,00 + 9.00+ 10,00 = 23,00!
Prejuizo dele: Tinha pago 2,00 ao invés de 1,00 pelas 2 fichas!
Acabara de cair no golpe do trôco!
No meio do 2º mês o gerente geral da firma me chamou para explicar como aparecia visgo numa porrada de fichas em cima de sua mesa!
Não soube explicar e por isso fui mandando embora. Ele me pagou assim mesmo os dias de trabalho, afinal trabalhei muito por pouco......

Dormi no Inferno!
Trabalhei no jornal O Globo e foi uma benção! Entrava as 6:00 da manhã e as 9:00 ja estava em casa. Além disso podia almoçar de graça na fabrica de jornais no Centro da cidade. Mais o melhor era que na hora da entrega, entravamos em contato com as empregadinhas doidas para namorarem.

Me dei bem e pouco tempo depois arrumei uma para sabado a noite, dia de afogar o ganso, molhar o biscoito, descabelar o palhaço. Como a "comida" era de graça resolvi pagar um motel de qualidade, mas não dava para ser em Copacabana pois não achei meu dinheiro no lixo. Fui para o Centro da Cidade mais precisamente atras da Praça da República aonde achei o Hotel Divino.

Era um casarão antigo, colorido, agradavel de se ver. Após meia hora de espera expostos aos olhares dos que saiam/entravam, finalmente o recepcionista nos arrumou um quarto!
Que maravilha, luz neon que insidia na pintura azul do quarto e realçava umas estrelas prateadas, uma coisa retrô-psicodélica!

O ar condicionado fazia o mais exigente pinguim bater palmas. A exagerada exposição me deixou nervoso e me fez suar bastante, por isso tomei um banho e ja saí uniformizado para entrar no gramado. Entro em campo e vamos pro jogo que trabalho é roubo! Na hora que o centro avante vai furar o véu da noiva o telefone toca. Atendo e uma voz masculina pergunta se não vou querer um tira gosto!

Agradeço educadamente e como um violinista, viro a cara e meto a vara! Pouco depois corro pra galera. O dedo nervoso da cozinha aciona o "zé pretinho" e no meu quarto ele toca. Atendo e ouço a mesma voz masculina:
Temos Cidra (champanhe de pobre) e tira gosto de presunto e queijo!
Perdi a compostura:
Tô comendo filé e voçe me vem com tira gosto! Não quero pôrra nenhuma!

O trauma de frio adquirido na infância em Paraná-Santa Catarina foi despertado pelo clima polo norte e o "zéquinha" que no início estava mais duro que pau de noivo, agora estava a meio pau! O jeito foi desligar o ar condicionado. Mas qual botão desligava? Mexi tudo que era botão mesmo assim não acertei. Desliguei na tomada messmo e mais tarde quando precisei liguei a tomada e não funcionou.

Saí as 6:00 da manhã e por coincidência encontrei todos os funcionários do hotel no corredor. Na outra semana voltei na cara dura e tomei um chá de cadeira de mais de uma hora e não consegui vaga! O jeito foi andar a Lapa toda e lá pelas duas da manhã consegui vaga.
Era uma espelunca e tinha bar/bilharito atras que fornecia gratuitamente a trilha sonora que embalaria nossa noite de amor.

Eram gritos, falação, gargalhadas e a monótonia das tacadas seguida pelo bate-bate das bolas se espancando no pano verde. Entramos, fechei a porta e nossas narinas foram invadidas por um perfume de gardênia, mais precisamente:
Extrato de pó de merda! Fazer amor nestas condições só na cadeia. Saí do chiqueiro, digo quarto e tentei troca-lo.

Dei sorte havia vago um naquele instante. Entrei no mesmo desanimado, estava morto de cansaço não só pela caminhada como pela humilhação no Hotel Divino.
Liguei o ventilador tipo helicóptero de mais de 10 kilos, pendurado apenas pelos 2 fios elétricos. O sinistro aparelho rebolava mais que mulata na sapucaí, ameaçando cair a qualquer momento no meu rabo!

Se eu soltasse um pum aquela peste diria com certeza:
Pelo grito, pelo berro, esse cu ja levou ferro!
Com as pás ameaçadoras de mais de meio metro perigando fatiar meu rabo, fiz amor com um:
Olho no sabre outro na "amiga"!
Por sinal a "amiga" me reservara uma surpresa. Uma baita verruga na costa do tipo serra elétrica(derruba qualquer pau duro) e no auge do esfrega-esfrega quando minha mão batia naquele caroço de abacate a pressão do 'zéquinha' ia quase a zero.

O jeito foi jogar minha virilidade para escanteio e transformar minha parceira num depósito de gala. Logo após virei homem DVD:
Deita, Vira e Dorme!
No auge do sono fui acordado por uma gritaria infernal que vinha do bilharito e findou com gritos de socorro. Dias depois constatei no jornal que lá um homem tinha sido esfaqueado!

Aí não dormi mais e fiquei torcendo para terminar logo aquela sexta-feira 13! Depois dessa noite seria:
Motel na Lapa nunca mais, isso se a carne não fosse fraca. Para escapar da hora do rush da putaria, safadeza, sacanagem, sem vergonhice e conseguir vaga nos sabados a noite tinha que chegar depois de uma da madruga! Cheguei e o quarto na penumbra como manda o figurino.

A garota tinha bebido além da conta e ja estava igual a música:
Era puro extâse!
Eu queria dormir até umas 10:00 da manhã de domingo para depois ir passear e almoçar. Acordei 5:30 com o Rei Sol, a rainha, Princesa e meia dúzia de súditos dentro do nosso quarto! O casarão tinha janelões antigos de quase 3 metros de altura que deixavam passar até uma girafa.

Para piorar o banheiro e o quarto eram de ladrilho branco e deitado naquela cama branca me senti um paciente traçando a enfermeira. Deste dia em diante só na areia a beira mar ou em becos escuros atrás de bancas de jornais.
Esta é a sina de um Don Juan pé rapado

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Leiteiro
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