QUE SE CUMPRE AOS POUCOS...

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Joana Eleutério · Brasília, DF
13/1/2008 · 118 · 11
 

QUE SE CUMPRE AOS POUCOS


Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Feito tarde que se despede da luz, assim, num processo de anoitecer, morrendo tarde, nascendo noite, mudando de roupa, cobrindo-se de crepúsculos e estrelas.

Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Forma serena de morrer vivendo, confundindo os verbos e os tempos, assim feito poema que se sacramenta na pele antes de se tornar palavra, alquimia que só os sofridos podem realizar.

Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Amor amado que no calado coração adormeceu, virou ventura de ser silêncio em meio ao pó, feito criado que, ao lado da cama, espera chegar o dia em que deixará de ser mudo.

Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Adornado encalço que, em meio a flores, denuncia o crime, passagem noturna de um poeta errante, embriagado de palavras tontas, turvas rotas do sentimento humano.

Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Esse existir sentido, cotidiano, sem feriados, acomodando-se em calendários, em que a história resolveu ser números, antes de ser passado.

Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Esse poema de adeus que a Deus pertence, essa reunião de palavras que ao céu reclama, essa agonia literária que se descreve o gozo do poeta de ser gesto e palavra ao mesmo tempo.

Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Esse gesto que realizo aos poucos, de chegar ao fim de meu poema.



Do Livro: MELO, Fábio de. Tempo: saudades e esquecimento - o cotidiano como lugar de revelação. São Paulo: Paulinas, 2003. p.126.


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informações

Autoria
Fábio de Melo - Licenciado em Filosofia e Teologia, pós-graduado em Educação. Mestre em Teologia Sistemática pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus (CES), em Belo Horizonte/MG. Dedica-se ao trabalho de evangelização pela arte.
Ficha técnica
Da leitura despretensiosa desse livrinho: Tempo: saudades e esquecimento - o cotidiano como lugar de revelação, ganhado há uns dois anos e do qual fiz pouco caso. Mas, meio tardiamente, acabei descobrindo nele algumas pérolas. Uma delas é essa, o seu último capítulo. Só para compartilhar a maravilha dessa simplicidade e revelação, como uma bela tradução dos nossos sentimentos humanos. Para nós, pretensos poetas, é um prato cheio.
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Saramar
 

Joana, fui tocada por intensa ternura lendo esse maravilhoso texto (poema?).
Uma ternura grande por quem tenta, por aqueles que amam e se permitem ser soltos. Uma ternura grande por quem vive, apesar da vida.

Você tem razão, é muito bonito, além de provocar a reflexão.
Obrigada

beijos

Saramar · Goiânia, GO 10/1/2008 23:00
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Joana Eleutério
 

Saramar,
Gostoso demais ler seus cometários-poesia, que sempre vem completando e ampliando os sentidos do texto. Grande abraço.

Joana Eleutério · Brasília, DF 11/1/2008 08:55
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Nydia Bonetti
 

Joana
Conheço Fábio de Melo. Ele é maravilhoso! As palavras brotam de seu coração como se fossem águas claras brotando das nascentes. Ele realmente evangeliza pelar arte. Suas músicas e seus textos são belíssimos. Também suas palestras e suas aulas. Ele é um desses seres iluminados, que vêm à terra para trazer luz aos que andam nas trevas... Parece um anjo.
Parabéns pela sensibilidade de trazê-lo até nós.
Beijos.
Nydia

Nydia Bonetti · Piracaia, SP 11/1/2008 10:37
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Branca Pires
 

Joana, essas coisas acontecem. às vezes ignoramos presiosiadades, as enterramos para yempos depois virem à tona. Que bom que veio e que vc nos trouxe aqui.
Abçs

Branca Pires · Aracaju, SE 11/1/2008 20:19
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Cintia Thome
 

Adorei este texto...quase uma poesia, escreves lindamente Joana
Voto com prazer.

Cintia Thome · São Paulo, SP 12/1/2008 16:08
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Nydia Bonetti
 

Nydia Bonetti · Piracaia, SP 12/1/2008 16:21
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Branca Pires
 

Volto Joana para os votos. bjs

Branca Pires · Aracaju, SE 12/1/2008 16:30
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azuirfilho
 

Joana Eleutério · Brasília (DF)
Uma linda Construção.
Adorei e me identifiquei muito não apenas no tema tratado de poesia pura e bela, como também no estilo pedagógico de repetir e conduzir o leitor a visáo do escritor na momento da sua criação.
Tem todo merecimento
Parabéns e louvor.

azuirfilho · Campinas, SP 13/1/2008 19:36
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Cintia Thome
 

Pois é Joana, eu sou as vezes desatenta..muitas e não vi que o texto não era
teu e sim de Fabio Melo. Mas muito bacana você trazer ao nós
algo bom para a reflexão. Beijos.Beijos.

Cintia Thome · São Paulo, SP 13/1/2008 19:48
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Noelio Mello
 

Joana.
Tive o grande prazer de ter a minha casa de veraneio visitada pelo padre Fábio de Melo em uma das suas constantes visitas à Belém. Ele é realmente fascinante como escritor, mesmo achando que sua trajetória como cantor também é ótima. Ele tem um escrito sobre a amizade que é soberbo. Excelente, Joana. Belo trabalho de divulgação.
Beijos
Noélio

Noelio Mello · Belém, PA 13/1/2008 22:47
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Joana Eleutério
 

Obrigada meninos e meninas. Que bom que gostaram do texto do Fábio de Melo. Conheço muito pouco dele, mas já estou encantadíssima. E já curiosa com o seu texto sobre a amizade. Boa dica, Noélio. Beijos.

Joana Eleutério · Brasília, DF 14/1/2008 08:29
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