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Que tal rever as luzes?

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Luiz Geremias · Curitiba, PR
20/1/2011 · 2 · 1
 

Sempre que leio textos motivados pela lógica iluminista, penso que precisamos rever esse ponto de vista. Se, por um lado, há algo pernóstico nessa crença irrestrita na razão, como, por exemplo, a motivação para domar a natureza, como se esta fosse um cavalo selvagem, há, conjuntamente, um chamado à proposta de usar a inteligência para desvendar os problemas e questões postas pela pesquisa humana. Principalmente, há uma crença no humano, em potencialidades que a humanidade poderia desenvolver. Isso, digo, com todo o caráter utópico que essa crença traz e com os horrores que ajudou a engendrar.

Vejamos que as teorias do século XX foram marcadas pela absoluta descrença na imagem genérica de um ente destacado da natureza e da essência, desde o Existencialismo até todo o arsenal de discursos pós-modernos. Veja-se o Estruturalismo, por exemplo. Nada há de humano numa estrutura que o estrutura, com o perdão do trocadilho.

O sujeito se sujeita

Examine-se, por exemplo, a proposição de Piaget, ou mesmo a de Lacan, que afirmou que o inconsciente se estrutura como linguagem. Ora, se o inconsciente é uma linguagem, onde a ausência dela? O que o brilhante Lacan deixou de perceber é que há uma falta necessária para que haja espaço para a linguagem e que dizer que o inconsciente se estrutura desse modo é impor a obturação de toda e qualquer falta. Em outras palavras, o que o estruturalismo trouxe de novo foi a inversão daquilo a que se propunha o Iluminismo: a submissão do humano a uma linguagem, um discurso, uma fala que o estrutura.

Abre-se a tal falta, que os lacanianos tanto prezam, no lugar em que estava a razão na sua luta por domínio e controle. Mas, se o inconsciente é uma linguagem, não estará ele dominado e controlado? De que modo se estabelece uma linguagem? Não é fruto da ação de um sujeito? Mas, não seria o inconsciente exatamente a falta do sujeito, logo a falta de linguagem? É que os estruturalistas não podem pensar isso, pois se o fizessem jogariam fora todas as suas estruturas ou as compreenderiam simplesmente como meras recursos de estabelecimento de um poder.

Dos pós-estruturalistas, então, o que dizer? É o fim do sujeito, como bem se disse. Este não passa de um boneco em mãos invisíveis, na medida em que há sempre uma disciplina a formatá-lo, segundo Foucault, sempre há um discurso a ser desbaratado e um sujeito a ser baratinado. Abre-se a frente da manipulação através do discurso, mais além da manipulação do discurso, mais efetiva e eficaz do que se poderia imaginar no auge do Iluminismo. A linguagem, esse recurso que enuncia e oculta, assume uma importância jamais vista. E para quê? Para que se possa supor que o humano é uma construção daquilo que se fala. Engenhoso, mas curiosamente nada substancial, reconheçamos. Tudo se resume, então, à linguagem, a discursos, talvez na falta de algo melhor.

O recurso à microfísica, por parte dos seguidores de Foucault, como Deleuze e Guattari, é extremamente interessante, mas é preciso que se pense, também, o quanto a macrofísica, o holismo do todo que dá sentido à parte, parece obnubilado. Isso tudo em nome de escapar das dicotomias centrais que parecem ter marcado a identidade do humano no ocidente. Ou seja, para nos livrarmos do sujeito racional, supostamente uno, mas objetivamente dicotômico, o estilhaçamos. Em lugar da árvore da identidade, a grama – o rizoma – da identificação.

Principalmente, que se pense no fim das grandes narrativas da pós-modernidade. Ora, lendo Lyotard ou Jameson, a certeza que se tem não é a de que a grande narrativa científica, da racionalidade, foi submetida a outra, a narrativa do capital? O antigo sujeito, plenipotenciário em sua arrogância racional, se sujeita a ser objeto, tal como os que compra e consome.

Por trás dos cacos, o mercado

São questões me que assaltam sempre que leio algo que se fundamenta na matriz Iluminista, muito embora compreenda que nos encontramos em um ponto em que não há como observá-la a não ser como uma proposta historicamente assinalada. Não é o caso de recuperá-la como paradigma, mas como referência do que foi atacado pelos “discursos” e “narrativas” que prepararam e permitiram os fundamentos para o estabelecimento da sociedade do controle, que o microfísico Deleuze enunciou e denunciou.

Talvez se possa dizer que, como gostavam de afirmar os iluminados iluministas, sem conhecer é impossível entender e, principalmente, dominar algo. E que nem sempre o domínio é nefasto, como parecem nos fazer crer todos os pós-iluministas. E mais: nem sempre a razão é pura racionalização ou caiu em desuso graças a uma suposta liberação de costumes ou pensamentos. Não houve essa liberação e não custa lembrar uma noção interessante de Sarlo: por entre os cacos da identidade pós-moderna, o que se enxerga não é o vazio, mas o “mercado”, nada mais do que isso.

Em suma, o que faz pensar é que se o sujeito racional incomodava tanto, não sem razão, por que substituí-lo pelo sujeito mercador ou o sujeito massa? Na certa, nem um nem outro são mais atraentes do que aquele. Talvez, pelo contrário. Como dito, sem a grande narrativa racional e científica, não há o vazio, muito menos meros discursos soltos no ar. Há a razão comercial, a única que parece ter restado e que produz não mais obras de arte ou paradigmas, mas, tudo indica, principalmente jogos de linguagem e pastiches.

Por tudo isso, que tal olhar com atenção para a chamada “filosofia das luzes”? Não terá ela mensagens a nos transmitir sobre o sentido que hoje permeia nossas vidas sem sentido? No mínimo, como no pensamento dialético de Hegel e Marx, poderemos pensar o quanto entre a tese iluminista e a antítese pós-moderna há uma síntese a construir.

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Edson1970
 

Para mim, toda linguagem é subjetiva. Precisamos apeeender e ler os discursos. Gostei do seu texto.

Edson1970 · Mossoró, RN 23/1/2011 08:31
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