Assim como na pintura, existem leituras impressionantes e impressionistas. Na minha adolescência li uma reportagem nas Seleções do Reader's Digest sobre Henri Matisse e nunca mais esqueci a sensação que a história de vida do pintor causou em mim. E as impressões mais fortes não vieram das informações, mas de uma intuição sobre a natureza do homem que não estava no texto, mas que naquela leitura hipnótica escorria para dentro da minha alma sem que eu tivesse consciência.
E, de vez em quando acordo com uma ebulição à lá Matisse, um frenesi, umas danças diferentes na alma, algo indefinível buscando expressão. Talvez o que mais tenha me marcado - e só me dou conta disso agora - seja a tesoura de Matisse, um objeto mágico e encantado do meu universo. O que mais me impressionou na obra genial de Henri Matisse foram as colagens, a sua pulsão criativa vencendo os limites do corpo, a intoxicação das tintas. E aquela tesoura continuando uma obra mágica...
E hoje, sei lá, cutuquei dores que pediram papéis coloridos e a pulsão da velha tesoura para recortes e colagens. E aqui estou, nessa nudez branca da tela (do computador), numa ciranda meio tresloucada com Matisse. E as minhas palavras dançam como dançam as suas imagens, cores e impressões. Quão indelével e pungente! Matisse na minha alma, no sempre daquela leitura inesquecível.
Deus aprisionado
Impossível de tintas
A criação desvairada pede
Um teto todo seu
E ele CRIA.
Uma abóbada celeste
Flutua sobre a cama paralítica
Com o cheiro de tinta fresca
Asfixiando os alvéolos da alma.
A criação exige forças ocultas
Ele prende a respiração
E as mobiliza desde o inferno
Da dor de não existir em cores
E formas.
Ele reinventa o céu
Das impossibilidades a criação
Mina tintas imaginárias
Que escorrem das terminações nervosas
Dos dedos hábeis que habitaram
O fundo de um olho mágico
Que só ele sabe tocar
Com tamanha delicadeza.
Dedos e olhos e alma
No frenesi de um desenho etéreo
Acordando em cores para a luz
Perfeita de Deus
Aprisionado
(Extasiado!)
No momento gênese da tela.
Genial o menino que ele fabrica
No mais profundo da dor
De não ser Deus.
Mas ainda tem o poder do encantamento
De uma fúria primitiva
E faz da cama paralítica
Um berço esplêndido.
E reinventa a brincadeira de pintar
Com o prazer de um menino
Completo em artimanhas
Ele esquece as cores luminosas
A sensualidade de suas tintas
E as combinações impulsivas
Na alquimia da paleta.
E dá um salto:
E quem disse que só se pinta com tinta?
(E quem me diria que só se escreve com palavras?).
O pincel domesticado assume a forma
De tesoura mágica
E o balé da criação continua
Divertido e essencial
Picotando papéis coloridos
O menino volta às telas
E estende a alma
Para uma arte que cola
Um riso satisfeito
Na cara da vida
E dança com alegria.
Enquanto Deus contempla
E diz: Bom, muito bom!
Muito bom o poema sobre o momento íntimo e individual de criar. Acredito que o título ficaria ótimo se você usasse o arremate/bordão: "Bom, muito bom!" Isso expressa tudo, como a própria Tacilda já disse acima.
Sobre Matisse: o mestre francês, careca e com aqueles óculos redondos é de uma época em que a pintura vivia uma ebulição muito grande e tendências e escolas surgiam da noite para o dia, mexendo muito com a cabeça do público e da crítica, tão acostumados com os cânones acadêmicos. O fauvismo, a sua tendência pictórica estava no sangue com suas cores fortes. Ele estava em uma exposição de suas obras quando alguém se aproxima e lhe diz mais ou menos assim, falando de um de seus quadros: mas essa mulher tem a barriga verde, e mulher não tem barriga verde. Ele responde: mas isso não é uma mulher, é uma pintura!.
abcs
Brigadão pelo comentário. Quanto ao título, o bordão eu reservei mesmo para grand finale... Um exclamativo clímax, o olhar de fora... Um certo voyeurismo do criador diante da criatura.
Cida Almeida · Goiânia, GO 12/2/2007 12:24
Bom, muito bom é você Cida, com todos esses matizes de Matisse. O seu poema é uma pintura que me impressiona demais. Parabéns.
Carlos Magno.
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