Raro desespero
levo pela vida esta lava dividida
entre maresia e fornalha, esta calha
involuntária que vaza sem repouso
pelos meus vasos sanguíneos –
um ramalhete de hemácias turvas –
e entorto a curva do horizonte
mais ainda, sob o peso das nascentes.
tenho os dentes eriçados em muralha
sobre o tombadilho úmido da língua,
quando ruge do intestino a tempestade
e a borrasca acode às bordas da garganta.
é quando se espanta a audiência lerda
porque as cerdas da palavra escalavram
mesmo quando não é de outrem a ferida
é o sangue do escriba a tinta rala
e é nos ralos fundos que o poema escorre.
se me morre todo embrião que calo
é que digo, deliberadamente, hoje
o que foge da forquilha do devir
devo seguir, assunto de margens quietas
pelas canaletas que pisas disperso
com o verso úmido e ungido à lama
um lamento feito a limo e desamparo.
o que tenho é este raro desespero
que se grita surdamente no que escrevo
levo pela vida este enlevo medievo
um entrevado enredo, um medo errado
acordado em sonho, irrompe ileso
leve como o peso de um salto.
Primoroso poema.
E o abaixo diz bem o que galo:
"tenho os dentes eriçados em muralha
sobre o tombadilho úmido da língua..."
Sim. Cabe ao Poeta decidir engalar e decifrar o conteúdo do poema;
e, depois, esmurrá-lo até que a cerda do leitor
se sirva do alimento de que é capaz.
Daí é apenas questão de tempo
o ribombar da perfeição... A lauda é-lhe macia
e mansa, tal o desejo de expressar-se.
É isso, Renato,
Que a sua belíssima poesia nos traz - em unge-nos.
Parabéns, Poeta!
Abçs. Benny.
Um grito preso na garganta, que fere, que desfere a alma, a esencia do poeta.
Lindo, Forte.Metafísico!
"porque as cerdas da palavra escalavram
mesmo quando não é de outrem a ferida
é o sangue do escriba a tinta rala
e é nos ralos fundos que o poema escorre."
Creio Poeta, que dentro desse imenso poema, você mostrou a angústia das palavras que arrancam pedaços e os molda em poesia, de sangue.
Minhas reverências a tão belo desvelamento.
beijos
Renascido amigo
nato poema
belo de fato
---
Renato
Não tou recebendo recado
porque deu prego no meu pecê.
E fico só com os postados
nas que consigo emrpestar pra navegar.
---
Não sou eu quem me navega...
quem me navega
é você
quem me navega é o pecê
faltou disco rígido
pro meu miolo mole
beijin, amiguin
"o que tenho é este raro desespero
que se grita surdamente no que escrevo
levo pela vida este enlevo medievo
um entrevado enredo, um medo errado
acordado em sonho, irrompe ileso
leve como o peso de um salto."
versos de uma perfeição...
um jogo de palavras impressionante.
parabéns, Renato!!
abraços,
Raridades são caras.
Dez daria, mas meu desespero é que só tenho oito!!!
Renato,que poderoso,forte,este Raro Desespero,mas o poeta
sempre "irrompe ileso leve...",que beleza!
Parabéns!
Abraços.
" O que tenho é um raro desespero"....perfeito. Eu também!
Parabéns!
Volto para deixar meu voto!
Mais que raro o desespero, rara e funda a poesia que buscas nas profundezas do barro mais fundo da criação, onde vida, sensações, pulsações e palavras se misturam ao corpo sensitivo do poeta e se oferecem cruamente ao seu desespero de criar; o desespero de tocar o veio fundo da mina da criação e tocar com muito cuidado o diamante bruto e se entregar inteiro à sua lapidação, esses pequeninos nadas da poesia (Manuel Bandeira dizia que a poesia é feita de pequeninos nadas). E perfeição é a única palavra que comporta agora, na minha emoção, este magnífico poema! Bandeira também dizia que não existem poetas perfeitos, mas poemas perfeitos. Gosto de tudo que exala de sua poesia, a pulsação, o cheiro de vida, o poder sedutor das palavras que vão aliciando todos os sentidos. E vai brotando na gente um poder de vida trincando as longínquas muralhas do dicionário. E tenho esperado as suas aparições com o gosto absoluto da contemplação de jóias raras! Um gosto de saber das suas batalhas, desses embates solitários com a palavra e desses êxtases consumados em poesia com fôlego para seguir a perenidade do tempo. E fico cheia de exclamações, no melhor sentido marioandradiano.
Beijo grande, meu estimadíssimo poeta!
Beijo grande, meu estimadíssimo poeta!
mano benny,
no meu caso, é o poema que me esmurra. e tenho sérios problemas de engalamento, porque sinto deveras que devo, ao contrário, curvar-me à soberania do que em mim quer dizer-se. é claro que também tomo decisões, por vezes... mas aqui há um desenho bastante claro dos sofrimentos inerentes aos processos criativos - aos meus, pelo menos.
abraços,
r
menina brigitte,
sim, é isso mesmo, em poucas e precisas palavras. sempre feliz com tua visita e apreciação...
beijos,
r
saramar,
talvez haja aí uma herança firme da minha experiência com o teatro, essa coisa orgânica que apontas. aprendi bem cedo que é preciso haver sangue no palco, a verdade de um artista. este raro desespero de que fala o texto bem pode ser o de qualquer um, na cena, na sina, no sonho de ser.
beijos,
r
juli, guria,
mesmo sem galera, navegarias, como navegas agora... essa moça de força, de vento, de histórias! sabes bem, eu morro pra renascer, eu sumo, pra ressurgir. e reencontrar amigos como você, aqui.
beijos,
r
ps: melhoras ao pecê e ao miolo!
marcos,
fico feliz com teu gostar... o jogo dos ecos internos, das rimas espelhadas é uma pesquisa que se deu inconsciente, e que agora tento cristalizar num certo estilo. mas sabes, ninguém segura o que um poema queira ser.
abraços,
r
olá rangel,
ainda que não tenha te compreendido totalmente (tens oito raridades?...), fico feliz com tua visita, sempre de um ótimo astral.
abraços,
r
linney,
na verdade, quem menos saiu ileso disso tudo fui eu!... :)
no texto, digo que quem sai ileso é o poema, "leve como o peso de um salto". de todo modo, agradeço tua leitura, tua simpatia e teu gostar.
abraços,
r
olá andré,
generosíssimo o teu sintético comentário. obrigado por sempre acudir aos meus convites de leitura...!
abraços,
r
Renato, eu também, como o Rangel, queria te dar dez mas só tenho oito votos, teu maravilhoso poema, na realidade tudo merece.
A tempos atrás, quando eu ensaiava em casa, seu parceiro, Maurício Panzera, fez-me algumas visitas, ia com o Fernando, da Firma, dê-lhe um abraço, por favor eprá vc um monte de abracinhos.
Renato...
Vou só dizer; Tu é demais cara!
levo pela vida esta lava dividida
entre maresia e fornalha, esta calha
involuntária que vaza sem repouso
.
Ah Esqueci, mas visite o meu
http://www.overmundo.com.br/banco/agosto-na-arte-do-amor
abç
olá roberta,
é... creio que muita gente deve ter esse desespero de que falo aqui... até que dá um certo alívio saber que não estou sozinho! :)
obrigadíssimo pela tua visita e comentário...
beijos,
r
cida, querida,
ainda que já tenha escrito em teu perfil, volto a responder-te aqui, porque sei que muitos poderão ler o que tenho a dizer sobre o teu comentário. a busca do poeta não pode ser outra senão esta, que desenhas, sim, com perfeição, com know-how de quem sente, e sabe o que sente, e pode apontar caminhos possíveis para um entendimento cada vez maior do que seja esta busca, tanto para quem escreve, como para quem lê.
é curioso, porque desde o primeiro momento tive essa impressão de ti, de alguém pronto a apontar direções, com a tranquilidade que proporciona a experiência, e a generosidade dos que entregam verdadeiramente seus tesouros perceptivos. receber comentários como o teu é, para mim, um coroamento de um esforço não apenas criativo, não apenas formativo, mas para além, de um esforço dialógico, na intenção do crescimento acima de tudo. me honras com o
que dizes sobre minha busca na poesia, e me é impossível não ficar muito feliz, vibrar com a tua vibração, e também ficar cheia de exclamações marioandradianas, renatianas, cidalmeidinas!
muito obrigado, mesmo.
beijos,
r
ps: perdoe a réplica particionada... a emoção me fez enviar o post antes do tempo!
oi lígia!
puxa... obrigado por me esclarecer essa história dos "oito-dez"! fiquei até com vergonha do rangel agora... (desculpa, mano! rsrs). é o lance do peso do voto, né? o meu só tem um peso 4! :/
pois é, lígia... já tinha percebido que és (moras) daqui, que és musicista (como eu), e agora vens falar do meu mano pan... que bacana! já não nos encontramos por aí também? fico felicíssimo com a tua visita. aliás, fico feliz sempre que encontro alguém daqui de belém mesmo, que fica mais fácil encontrar ao vivo, pra trocar idéias. qualquer dia, vamos fazer um som!
e um monte de abracinhos pra ti também,
r
cintia,
demais mesmo é ir andando pelo mundo - mesmo que seja o virtual - e poder conhecer gente nova, como agora estamos nos encontrando... muito obrigado por vir aqui, ler e comentar!
beijo,
r
"e é o sangue do escriba a tinta rala
e é nos ralos fundos que o poema escorre..."
Todo o poema é lindo e riquíssimo de imagens. Obrigada pelo convite, voltarei com meus votos.
Abraços de Betha.
Renato, sempre muito bom partilhar de suas inquietações. Muito instrutiva essa interlocução sincera, despojada de todos os "ismos". E só porque falei em Mário de Andrade, seguindo a inquietação de todos nós na labuta de levar sempre a mesma pedra ao topo da montanha e a cada dia recolhê-la no rés do chão e com o mesmo obstinado esforço redonduzi-la, um diálogo com a poesia da vida http://www.overmundo.com.br/banco/amendoim-a-poesia-da-vida.
Beijo grande.
olá betha,
eu é que tenho a agradecer pela tua visita, e pelo teu gostar... espero que aprecies também outros textos que venho postando cá no overmundo.
beijos,
r
Renato.
Um poeta em desespero, acaba criando um risco de luz no universo. Parece simples, mas assim defino a avassaladora beleza do teu poema.
Abraços, meu irmão e parabéns serenos.
Noélio Mello
cida,
sim: este é o diálogo que busco, e também fico satisfeitíssimo com o que estamos a trocar, estes punhados puros de francas incertezas...! já fui ler teu texto, e o comentei...
beijos,
r
manoélio,
mas é essa maneira simples que tens de dizer o que configura o ouro do que escreves!... agradeço-te a visita, o comentário, a serenidade...
abraços!
r
concordo, " ninguém segura o que um poema queira ser".
voltei para reler e votar!!
parabéns mais uma vez!!!!
maresia e fornalha: sempre juntas.
sorte é saber escolher, queimar ou não, mergulhar ou não, esquentar, afogar... Todos temos desesperos, raros ou não...
Flor
bjim, meu moreno.
olá marcos,
por isso mesmo disse que bem sabes... obrigado por ajudar meu desespero a ficar no ar!
abraços,
r
florzinha minha,
e como sabes bem dessas minhas alteridades, né? talvez bem como as suas, talvez bem como as de todo mundo. o bom da arte é que podemos vezenquando transformar tudo em beleza. ou não...;)
beijo-te, morena,
r
Difícil comentar o teu poema. Nada simples. Mas não o fazer seria lastimável. Pois mereces receber um retorno intenso e um grande aplauso pelo que escreveste. Só posso dizer que há tempo não lia um texto de tamanha força e verdade. Gostei imensamente.
Letícia L. Möller · Porto Alegre, RS 4/8/2007 08:07
Renato, xô te contar, vim umas duas vezes pra votar e fiqui adiando, veja só já vai sair da fila, muita gente vai deixar de ver, raramente alguém vai procurar no perfil.
- Então eu estou sugerindo, pedindo, clamando um novo critério, por exemplo um tempo minimo de permanencia na fila, independente da pontuação. Acho que dá mais oportunidade de mais gente conhecer textos assim - fulminantes -
um abraço andre
olá letícia,
a cada pequeno passo adiante aqui no overmundo, o que considero ganhar uma nova atenção, como agora a sua, e senti-la factível, sincera, sem apelos dramaticamente elogiosos - que antes do aplauso, quero mesmo é esse retorno intenso que mencionaste - eu fico me sentindo mais gratificado com o esforço que venho fazendo na poesia. mesmo que tenhas te sentido sem palavras pra dizer, disseste o suficiente. espero tê-la às voltas com esses meus brinquedos de palavra... há outros já publicados aqui no overmundo.
abraços!
r
mano andré,
creio que esta tua solicitação deves dirigi-la diretamente a alguém como o hermano vianna. a mim, me parece que a fila de edição e votação cumprem bem o seu papel, proporcionando o diálogo imediato com os colaboradores... agora, depois de publicado, o material fica disponível no banco de cultura, e não apenas no perfil, como acreditas... o que fica apenas no perfil são as colaborações não publicadas. acredito também, andré, que seria bacana provocar um debate sobre o valor da iniciativa em conhecer mais sobre os colaboradores visitando seus perfis, revirando seus arquivos. eu mesmo faço isso quando quero ler/ver/ouvir mais de alguém que me chama a atenção.
no mais, fico feliz de teres vindo, lido e votado no meu desespero!
abraços,
r
débora,
lindo é teres vindo e recuperado esse meu texto desesperado... obrigado!
beijo,
r
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