REGINALDO ROSSI E CAETANO:A DOR DE CORNO É A MESMA

1
Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
26/12/2013 · 14 · 3
 

Os bregas falam em quebrar a mesa se a mulher querida não chegar, ou chamar o garçom para ouvir seus queixumes. Os chiques disfarçam e falam em cataclismas e carnaval, ao tempo em que disponibilizam a amada para outro: “outro homem poderá banhar-se/Na luz que com essa mulher cresceu”. Se analisarmos direitinho, a dor que sentem é a mesma. O que os difere é o modo de dizê-la. Falemos, então, de uma música especial do filho de Dona Canô.

“Ela e Eu” é uma canção que trata do fim do casamento de Caetano Veloso com Dedé, sua primeira mulher. Foi criada em 1978 pelo cantor/compositor e tornou-se uma das minhas preferidas dele. Segundo Caetano, a canção foi composta quando apareceram os primeiros sintomas que levaram ao fim seu relacionamento amoroso com a pessoa que viveu com ele vários anos, inclusive no exílio. Ele chorou muito no dia em que compôs essa música. Isso demonstra que no choro, na dor de corno e na mesa de bar, chiques e bregas são iguais. O filósofo Reginaldo Rossi já cantava isso: “Garçom, no bar todo mundo é igual”.

Nessa época, Roberto Carlos ligou para Caetano pedindo-lhe uma canção. Roberto já havia gravado duas composições do baiano: “Como Dois e Dois” em 1971 e “Muito Romântico”, esta em 1977. O compositor então lhe enviou “Força Estranha”, outra canção que, assim como as anteriores, havia sido feita especialmente para ele. “Ela e Eu” também foi enviada na mesma remessa. O cantor destinatário, entretanto, só gravou “Força Estranha” e a lançou no seu álbum daquele mesmo 1978. Caetano não ficou magoado, mas depois esclareceu que o tal Rei Roberto só grava aquilo que for feito pensando-se nele. Disse Caetano:

“É pena que Roberto não tenha gravado essa música. Fiz “Ela e Eu” por uma necessidade íntima minha. A música nasceu do fundo do meu coração, é uma música da minha vida. E realmente não pensei em Roberto Carlos. Esta composição já estava pronta quando ele me ligou pedindo uma música. Na hora pensei: eu tenho esta música tão sentida, tão sincera, que vou mandar pra ele, Roberto merece. Mas acho que ele não gravou justamente porque sentiu que, diferentemente das outras, essa não foi feita especialmente para ele.”

Na verdade, Caetano e Roberto sempre estiveram como narra a letra de Caetano para “Como Dois e Dois”: “longe e perto”. Perto, quando Roberto esteve em Londres gravando cenas do filme “O diamante cor-de-rosa” e o visitou no exílio. Na volta ao Brasil, compôs com Erasmo “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” dedicada ao cantor e lançada em 1971, porém sem citar na letra o seu nome. Caetano devolveu o afago compondo para ele gravar a citada “Como Dois e Dois”, a qual também fez parte do LP de 1971. Longe, quando em 1986, por pressões da igreja católica, o governo Sarney proibiu a exibição no Brasil de “Je Vous Salue Marie”, de Godard. Roberto com sua carolice e seu viés de censor, apoiou o veto da Censura em plena volta de um governo civil e enviou mensagem a Sarney cumprimentando-o pela medida. Foi quando Caetano cometeu uma de suas maiores “caetanices”, escrevendo em março de 1986 um virulento artigo para a Folha de São Paulo chamando Roberto de burro e hipócrita. E acrescentou: “O telegrama de Roberto Carlos a Sarney, congratulando-se com este pelo veto a Je Vous Salue Marie, envergonha nossa classe”. Roberto não engrossou o caldo e disse apenas que Caetano havia sido muito deselegante. E foi só isso! No ano seguinte, Caetano gravou (para amenizar o problema) uma das melhores músicas da dupla Erasmo/Roberto: “Fera Ferida”. A gravação de fato serviu para melhorar o clima entre os dois artistas que voltaram a ficar numa boa. Estranhei os dois reunidos recentemente na associação “Procure Saber”, que é simpática a uma espécie de censura prévia. Depois, Roberto deixou os outros associados falando sozinhos. Como sempre, ficou na dele.

Voltando à música “Ela e Eu”, achei bom porque Bethânia a gravou em 1979 e, não fugindo à regra, deu um show. Show que Roberto talvez desse também! Ou não, como diria Caetano. Como é que esse rei(zinho) teve a coragem de desprezar uma obra que contém uma poesia tão bela quanto esta? É por essas e outras que meu rei é outro...

Aqui nesse vídeo abaixo, a rainha Bethânia canta a música sentada no chão do Bar Academia da saudosa TV Manchete, isso cinco anos depois, em 1984. É uma maravilha!

“Há flores de cores concentradas 
Ondas queimam rochas com seu sal 
Vibrações do sol no pó da estrada 
Muita coisa, quase nada 
Cataclismas, carnaval 

Há muitos planetas habitados 
E o vazio da imensidão do céu 
Bem e mal e boca e mel 
E essa voz que Deus me deu 
Mas nada é igual a ela e eu

Lágrimas encharcam minha cara
Vivo a força rara desta dor
Clara como o sol que tudo anima 
Como a própria perfeição da rima para amor

Outro homem poderá banhar-se 
Na luz que com essa mulher cresceu
Muito momento que nasce 
Muito tempo que morreu 
Mas nada é igual a ela e eu”.

Com este texto me despeço dos amigos neste ano irresponsável, leviano e cruel que foi 2013: por ter causado tanta baixa no meio artístico. Voltarei em 2014. Ou não!

Ouçamos "Ela e Eu", de Caetano!

Sobre a obra

Os bregas falam em quebrar a mesa se a mulher querida não chegar, ou chamar o garçom para ouvir seus queixumes. Os chiques disfarçam e falam em cataclismas e carnaval, ao tempo em que disponibilizam a amada para outro. No fundo, a dor de corno é a mesma, o que difere é a maneira de exprimirem seus sentimentos em forma de música.

compartilhe



informações

Autoria
Abílio Neto - pesquisador musical
Downloads
368 downloads

comentários feed

+ comentar
Andre Pessego
 

ÔH Abílio,
Feliz ano novo.
Pensei, quando vi o título que ia conhecer mais um pouco ao Prof. Reginaldo Rossi. Não sei se o conheci em S. Paulo lecionando matemática, química, física e acho que num eforço para ajudar, até biologia. (Na mesmo época em que Lairton Araújo também lecionava as mesmas matérias em cursinhos pre-vestibular).
Vi o título de sua matéria e ........ faltou a primeira parte Reginaldo Rossi, para quem - na minha visão - vejo muito mais significado que em Caetano e Roberto.
Não deve ter sido fácil para Reginaldo se embrenhar no meio das feiras, dos botecos, da outrora multidão da Rua Augusta e ir falando para aquelas multidões.......
Um pedido - faz a parte I do artigo. Voce, logo em voce, será de um valor enorme....
um abraço.
andré

Andre Pessego · São Paulo, SP 1/1/2014 07:44
sua opinião: subir
Abílio Neto
 

Obrigado, caro André Pessego. Olhe, amigo, essas homenagens póstumas são vistas pela maioria das pessoas como oportunistas. Nesse escrito acima, eu quis chamar a atenção para o fato de que a dor de amor é a mesma.

Mas antes, aqui mesmo no Overmundo, você achará um outro artigo meu que falará mais do nosso Rei do brega. Por favor, leia e me fale o que achou. Abraços!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 1/1/2014 11:10
sua opinião: subir
gilbert daniel
 

como dizia jean-paul sarte: "o brega é os outros"

gilbert daniel · Internacional , WW 4/1/2014 22:02
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 6 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados