O sonho e a vida na terra de reis.
Sandro Silva
“Inventário” é o documentário recentemente lançado que retrata cotidiano das comunidades quilombolas no Norte do Espírito Santo. Realizado entre 2007 e 2009 com recursos do IPHAN-ES e com produção do Instituto Elimu Professor Cleber Maciel, o filme tem provocado muitos debates nas comunidades do Sapê do Norte, pois seu lançamento coincide com a organização política das comunidades em busca de assegurarem seus direitos aos territórios como está inscrito em suas memórias e determina a Constituição Federal no seu Artigo 68.
Com a fotografia do cineasta Ricardo Sá e pesquisa do antropólogo Osvaldo Martins, o documentário é uma viajem em cores e poemas vivos pelos modos de ser e fazer dos quilombolas envolvidos na produção econômica e cultural de suas comunidades. Os versos lúdicos e críticos dos grupos de Ticumbis e Reis de Bois são o espaço ritual de celebração da riqueza produzida na região mais negra do estado.
Ao redor das dezenas de farinheiras do Sapê do Norte, alimentam-se as bocas e espíritos com a memória que não pode ser ocultada, pois está inscrita nos corpos, nas palavras e nos sonhos desta parcela da população capixaba que é o testemunho e a memória viva do desenvolvimento do estado. É difícil assistir ao documentário e não se perguntar de onde vem a força e a poesia deste povo.
As inúmeras formas de cultivar a mandioca e transformá-la em farinhas, beijus, bolos, gomas, mingaus são parte de uma economia que fez milhares de famílias atravessarem mais de trezentos anos de história. Ainda pouco estuda pela academia, esta economia não se limita a catar moedas, mas às reunir amizades e cantar a vida em festas, causos e embates. Amizades que nomeiam os rios, os santos, os sonhos dos parceiros de ensaio, do desafio da Roda Grande da vida que leva e traz.
O documentário foi exibido em várias comunidades e ligou as pessoas às memórias como a linha paciente do pescador tece a rede. Os olhos atentos de jovens e dos pequenos não desgrudaram das histórias de seus avôs, do jeito de mexer a farinha, de costurar a roupa da festa, de rir de si mesmo e da doçura de uma lembrança. Os comentários sobre os jeitos dos antigos brotavam igual flor sob a chuva, igual flor no manto de São Benedito. A memória viva da vida abundante de ontem percorre cada comentário crítico da situação atual. O filme é um espelho para os quilombolas.
O documentário já é uma referência. Pelos olhos que davam voltas catando as imagens e os sorrisos que cobriam a todos, pela realeza que ele revela em cada gesto dos quilombolas no Sapê do Norte. Ele não é uma encomenda de videoclip ou uma visão de fora das comunidades. Ele foi concebido no calor da farinheira e da memória compartilhada. Ele não banaliza a tragédia que estas pessoas estão expostas pois ele mostra a terra de reis, rainhas e príncipes que constroem todos os dias com suas próprias mãos uma vida mais digna e possível de ser vivida.
antropologias.blogspot.com
Este texto é do meu amigo-irmão Sandro José da Silva, Professor da UFES - Universidade Federal do Espírito Santo, Antropologo que trabalha com as Comunidades Quilombolas do Sapê do Norte.
No dia 02 de Outubro de 2009, ás 14 horas, no Cine Metropolis na UFES, vamos lançar o documentário: REIS QUITUMBIS, direção de Osvaldo Martins de Oliveira, Edição: Ricardo Sá.
Este é um dos produtos finais do Inventário feito de Três referencias Culturais no sapê do Norte/ES: Reis de Boi, Quitungo (Casa de Farinha) e Ticumbi.
Instituto Elimu Professor Cleber Maciel e IPHAN.
Selma, Oswaldo inscreveu o doc na V Mostra de Produção Independente da ABD?
bjos
Sucessos, sucessos e sucessos.
Serão merecidos com certeza, pelo trabalho a respeito dos quilombolas que vivem sem proteção eas vezes sem recursos.
E tanto dinheiro sendo jogado fora pelos nossos políticos em projetos sem valor humanitario.
kfarias
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