Relação aberta

Alê Barreto
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Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ
30/1/2010 · 4 · 5
 

(um conto de Alê Barreto)

Era pra ser apenas um churrasco. Menos que isso: era só pra ir ao lugar onde estava acontecendo o churrasco e encontrar o cara que ia me pagar um cachê. Mal comecei a conversar com um baiano que ensinava percussão na periferia quando ela se aproximou e disse: “boa noite. Esperança. Prazer”.

Nunca acreditei no “clic”. Mas a descrença não foi suficiente. Lá estava eu sorrindo. E não conseguia disfarçar. Comprei uma cerveja para ter algo que fazer. Esperança também comprou uma cerveja e sentou perto de mim. Acompanhada…

Se tem uma coisa de que eu não gosto é de dividir mulher. É só suspeitar que a garota tem ficante, namorado, noivo ou marido que já desmarco a saída. Mas eu não conseguia desistir da Esperança acompanhada. E ela, acompanhada, não desistia de me ver não desistir.

Durante uma hora nos olhamos por décadas. Faltava nossos corpos se conhecerem. Mas ela estava acompanhada.

- Posso pegar o seu e-mail? perguntei.
- Claro.

Esperança maliciosamente levantou uma das pernas e escorou numa cadeira, pra servir de apoio para escrever. Como o acompanhante estava ao lado, sempre sorrindo, como mansa ovelha, fixei o olhar no bilhete. Após anotar o e-mail, Esperança escreveu “espero que você aceite o convite que vou lhe fazer”. Me entregou sorrindo o bilhete.

- Você tá de carro?
- Não – respondi.
- Quer uma carona?
- Sim.

Cabiam cinco pessoas no carro: o motorista, uma pessoa que estava ao seu lado e três pessoas atrás.

- Não sei se vai dar para todo mundo – provoquei.
- Dá sim, aqui atrás tem lugar.

O acompanhante entrou primeiro. Depois Esperança. Eu fechei a porta.

Mal o carro arrancou, começou a manobra mais arriscada da noite. Esperança colou uma das pernas em mim e começou a roçá-la lentamente. Eu estava tão hipnotizado que levei alguns minutos para lembrar que o acompanhante estava lá também. Mas não fiz muita questão de continuar lembrando. Tratei logo de esquecer.

- Aqui está bom – disse Esperança para o motorista.

O acompanhante abriu a porta e desceu. Esperança desceu também. Deu um beijo demorado nele. Puta que pariu…

Esperança voltou ao carro.

- Nos leve no motel da rodovia Enildo Freitas.

Caraca! Largou o cara e se atirou na minha! Eu mal podia acreditar.

Esperança aproximou-se lentamente do meu ouvido.

- Você é ciumento?
- Não.
- Posso tirar a sua calça?
- Pode…

Rapidamente Esperança abriu a minha calça a arrancou-a de mim. Voltou a me provocar.

- Quero tirar sua camisa…
- Sim!

Subitamente o carro pára. Olho para o motorista e dou de cara com um revólver sorrindo pra mim.

- Já pegou as roupas dele? A carteira tá aí?
- Tá sim.

Esperança se aproximou, me deu um beijo, mordeu o meu lábio, suavemente.

- Desce.

- Mas eu tô só de cueca.

- Não vou pedir de novo…

Abri a porta, o vento me gelou as pernas. O carro arrancou rápido. Levou a minha Esperança.

Sobre a obra

Conto produzido na oficina do escritor João Paulo Vaz realizada no Grupo Nós do Morro em 2009.

Leia também O Último Olhar.

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Autoria
Alê Barreto
alebarreto@produtorindependente.com
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Cintia Thome
 

Muito bom Alê.as vezes o nome tão bonito "Esperança'e a índole tão ruim, não é?

Bom conto produzido na Oficina. abs.

Cintia Thome · São Paulo, SP 31/1/2010 03:41
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Doroni Hilgenberg
 

Alê,
Para quem acabou de sair de um " sequestro relâmpago",
tua esperança está ótima. A minha foi sair com vida.
É aterrorizante!!!
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 31/1/2010 14:38
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Zezito de Oliveira
 

Alê,
Excelente!!!
Li um outro recente da sua autoria, mas esse me deixou bastante satisfeito e entra na lista dos favoritos.

Abraço,

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 31/1/2010 18:58
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Adroaldo Bauer
 

Essa esperança é última que morde, Ale. Te cuida, guri, que costumam faze passar das esferas uma pras de riba, além de.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 3/2/2010 08:31
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Alê Barreto
 

Queridos amigos, fiquei uns dias sem aparecer! Mas não se assustem, pois o conto é pura ficção!
Obrigado a todos!
Alê

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 21/2/2010 22:28
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