(um conto de Alê Barreto)
Era pra ser apenas um churrasco. Menos que isso: era só pra ir ao lugar onde estava acontecendo o churrasco e encontrar o cara que ia me pagar um cachê. Mal comecei a conversar com um baiano que ensinava percussão na periferia quando ela se aproximou e disse: “boa noite. Esperança. Prazer”.
Nunca acreditei no “clic”. Mas a descrença não foi suficiente. Lá estava eu sorrindo. E não conseguia disfarçar. Comprei uma cerveja para ter algo que fazer. Esperança também comprou uma cerveja e sentou perto de mim. Acompanhada…
Se tem uma coisa de que eu não gosto é de dividir mulher. É só suspeitar que a garota tem ficante, namorado, noivo ou marido que já desmarco a saída. Mas eu não conseguia desistir da Esperança acompanhada. E ela, acompanhada, não desistia de me ver não desistir.
Durante uma hora nos olhamos por décadas. Faltava nossos corpos se conhecerem. Mas ela estava acompanhada.
- Posso pegar o seu e-mail? perguntei.
- Claro.
Esperança maliciosamente levantou uma das pernas e escorou numa cadeira, pra servir de apoio para escrever. Como o acompanhante estava ao lado, sempre sorrindo, como mansa ovelha, fixei o olhar no bilhete. Após anotar o e-mail, Esperança escreveu “espero que você aceite o convite que vou lhe fazer”. Me entregou sorrindo o bilhete.
- Você tá de carro?
- Não – respondi.
- Quer uma carona?
- Sim.
Cabiam cinco pessoas no carro: o motorista, uma pessoa que estava ao seu lado e três pessoas atrás.
- Não sei se vai dar para todo mundo – provoquei.
- Dá sim, aqui atrás tem lugar.
O acompanhante entrou primeiro. Depois Esperança. Eu fechei a porta.
Mal o carro arrancou, começou a manobra mais arriscada da noite. Esperança colou uma das pernas em mim e começou a roçá-la lentamente. Eu estava tão hipnotizado que levei alguns minutos para lembrar que o acompanhante estava lá também. Mas não fiz muita questão de continuar lembrando. Tratei logo de esquecer.
- Aqui está bom – disse Esperança para o motorista.
O acompanhante abriu a porta e desceu. Esperança desceu também. Deu um beijo demorado nele. Puta que pariu…
Esperança voltou ao carro.
- Nos leve no motel da rodovia Enildo Freitas.
Caraca! Largou o cara e se atirou na minha! Eu mal podia acreditar.
Esperança aproximou-se lentamente do meu ouvido.
- Você é ciumento?
- Não.
- Posso tirar a sua calça?
- Pode…
Rapidamente Esperança abriu a minha calça a arrancou-a de mim. Voltou a me provocar.
- Quero tirar sua camisa…
- Sim!
Subitamente o carro pára. Olho para o motorista e dou de cara com um revólver sorrindo pra mim.
- Já pegou as roupas dele? A carteira tá aí?
- Tá sim.
Esperança se aproximou, me deu um beijo, mordeu o meu lábio, suavemente.
- Desce.
- Mas eu tô só de cueca.
- Não vou pedir de novo…
Abri a porta, o vento me gelou as pernas. O carro arrancou rápido. Levou a minha Esperança.
Conto produzido na oficina do escritor João Paulo Vaz realizada no Grupo Nós do Morro em 2009.
Leia também O Último Olhar.
Muito bom Alê.as vezes o nome tão bonito "Esperança'e a índole tão ruim, não é?
Bom conto produzido na Oficina. abs.
Alê,
Para quem acabou de sair de um " sequestro relâmpago",
tua esperança está ótima. A minha foi sair com vida.
É aterrorizante!!!
bjs
Alê,
Excelente!!!
Li um outro recente da sua autoria, mas esse me deixou bastante satisfeito e entra na lista dos favoritos.
Abraço,
Essa esperança é última que morde, Ale. Te cuida, guri, que costumam faze passar das esferas uma pras de riba, além de.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 3/2/2010 08:31
Queridos amigos, fiquei uns dias sem aparecer! Mas não se assustem, pois o conto é pura ficção!
Obrigado a todos!
Alê
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