Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Relato de uma estranha mania - de Maria Flor

1
superbacana · Rio de Janeiro, RJ
20/10/2007 · 70 · 6
 

Tenho uma bizarra mania - que já se tornou obsessiva- de esfregar sutil e lentamente a ponta dos meus dedos das mãos e, terrivelmente, dos pés pelos meus lábios. Mas esfrego de maneira que eu possa sentir a suavidade ou a aspereza de suas impressões digitais.
Tenho essa manha mania - que tanto minha maninha me alertou - desde pequena e, até hoje, não consegui superá-la (e nem sei se um dia conseguirei). Apesar de nojenta e mal-encarada por outros, me proporciona um prazer antes inatingido. Muitos já me disseram: "Maria Frô! Pára com essa mania, menina! Assim cê vai acabar pegando uma doença ou não vai arranjar um namorado!", e eu pensava: "Mas namorado pra que se eu tenho esse imenso prazer bem ao meu alcance...?"...
Quando já estava alcançando a beira dos meus dezessete anos, minha mãe encucou com a idéia de me colocar numa terapia. Ah, meu santíssimo, quanto drama pruma pessoa só! Quis porque quis que eu me consultasse com um terapeuta, então lá fui eu, afinal, com mãe não se discute. Cheguei lá e a mulher me pediu pra começar a falar sobre meus problemas. "Mas quais problemas?", pensei eu. Tentei explicá-la o motivo d'eu estar lá, naquele consultório, pagando aquela nota pra falar sobre o desnecessário. É claro que ela não acreditou. Aliás, quem acreditaria numa coisa dessas vindo de uma menina de dezessete anos? Me dei conta, então, de que teria que inventar algum problema, desses que as pessoas carregam pras sessões de análise, só pra minha mãe, e agora a terapeuta, largarem do meu pé.
Na primeira sessão (depois de tentar dizer a verdade e não mais que a verdade), fingi inibição. Disse que não conseguia explicitar o que eu estava sentindo e que eu era assim mesmo, tímida, reservada. Aí ela se interessou! Abriu um sorriso no canto da boca e disse que estava tudo bem, que era normal essa timidez na primeira consulta e que tentaríamos mais uma vez.
Durante uma semana pensei no que poderia inventar pra satisfazer aquela mulher; mas só a satisfação não bastaria, pois aí ela continuaria tratando do intratável; eu tinha que despertar a indignação dessa mulher, o seu medo, o seu sentimento de incapacidade, pra ela, então, me encaminhar pra um especialista. Ou seja, teria que inventar algo grotesco, crônico, suicida! E algo que minha mãe não acreditasse também, é claro... Envolvimento com drogas? Não, não, pesado demais e, além disso, nem tô com fisionomia de drogada viciada. TOC? Seria evidente se eu tivesse... Foi então que eu cheguei à uma idéia brilhante! Radical, mas brilhante! Mamãe, sou ninfomaníaca!
Estava decidido, na minha próxima consulta confessaria minha compulsão pelo sexo.
Deveria ter tirado uma foto da expressão de terror da terapeuta. Foi chocante, inesquecível, até eu fiquei com medo da proporção que isso tudo tomou! Na mesma hora, apavorada com a situação, ela ligou pra minha mãe e pediu pra que viesse imediatamente ao seu consultório. Enquanto isso, ela me fitava, com as pupilas dilatadas de pavor, não sabendo se me questionava ou se ficava calada. Resmungava para si mesma: "Como pode, meu Deus, uma menina de dezessete anos!".
Finalmente minha mãe chegou e já foi logo arrastada para uma sala à parte daquela. Não tenho certeza se ouvia risos ou choros, o que me apavorava ainda mais. Instantes depois sai minha mãe, numa calmaria só, da sala. Pega na minha mão e fala: "Vamos, filha, acho que você não vai precisar mais vir aqui. Vou comprar uma máquina de escrever pra você.".

compartilhe



informações

Autoria
superbacana
Downloads
111 downloads

comentários feed

+ comentar
anamineira
 

Super, bacana seu texto. Tenho filhas que até já passaram da adolescência e ainda mando as duas fazer uma terapia. Coisas de mãe.
Muito legal.
Votei,viu?
Um abraço apertado.

anamineira · Alvinópolis, MG 19/10/2007 17:35
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Rita Costa
 

Superbacana,... maravilhoso seu texto.
Bem escrito, com uma linguagem livre que nos leva pelas frases de forma tão suave que nem damos conta do tempo. Li, reli e adorei! Votadíssimo! Bjus

Rita Costa · Rio de Janeiro, RJ 19/10/2007 21:51
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Andre Pessego
 

Olá Bacana,
gostei, e gostei muito. Daqueles enredo que nos leva ao fim, sem ter o contista caido na mesmice, um abraço, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 20/10/2007 07:16
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
superbacana
 

Rita, muito obrigada pelos elogios! Fico feliz que eu tenha conseguido ser simples e livre ao mesmo tempo.
Obrigada pelo voto!
beijocas

superbacana · Rio de Janeiro, RJ 20/10/2007 15:40
sua opinião: subir
superbacana
 

Pessego, acho que meu objetivo foi atingido, então! Quis dar um fechamento inesperado para a vida de Maria Flor.
Obrigada pelos elogios!
beijocas

superbacana · Rio de Janeiro, RJ 20/10/2007 15:43
sua opinião: subir
isadoravel
 

aeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, Foli!!!

isadoravel · Rio de Janeiro, RJ 22/10/2007 22:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Instituto Overmundo pesquisa a cadeia produtiva da música no Rio de Janeiro

Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados