Inventa que o azul do céu azul foi posto por algo capaz de
pigmentar as coisas. Imagina algo pintando aquilo com grandes
gestos... não faz mal ter braços. Tem braços. Aquela outra coisa;
mira as núvens na composição celeste sobre sua cabeça e
prossegue o seu quadro particular de criaturas pintoras até
construir um teto, um chão e paredes que chamará de galeria. Tira
o resto do dia para apreciar alguns quadros, esculturas, e móbiles.
Extrai lições do silêncio e de seu diálogo com o marulho das coisas
e imagina um instrumento fixo no solo, tangido pelo vento, de
proporções gigantescas, mas invisível aos seus olhos. Gesticula no ar
em busca de cordas tensas. Imagina ter alcançado uma. Toca. Ouve
um som secreto. Se desapega dele e prossegue pisando um chão
movediço sabendo que não tem fundo. Um frio corre o corpo. Ouve
vozes saindo daquele buraco. Não entende as palavras. Sem
entender, inventa tratar-se de lingua morta. Anima-a para
entende-la. Entende. E, ao ver os passos vacilantes da língua
ressuscitada, sente um cheiro acre e doce. Distrai-se. Esquece.
Inventa que o azul do céu azul foi posto por algo capaz de
pigmentar as coisas. Fecha os olhos e, muito seriamente, percebe
que se trata de Alguém. Diante desse Alguém se prostra; está nú,
esconde-se. Comunica a um segundo, a um terceiro, a um
sem-número, que descobriu o Motor Oculto da Natureza, que
sentiu o seu poder, que tem medo. Afirma que ao prostrar-se pôde
estar com esse motor sem que fosse ferido. Experimenta o poder e
temor que sua primazia ao Deus inspira nos demais. Compreende
que compartilha do poder desse Deus. É o seu porta-voz de direito.
Percebe olhos ávidos por respostas para outros tantos enigmas.
Procura encaminhar tais respostas estudando o rastro
fosforescente que a lembrança do arrebatamento anterior tinha
deixado em sua mente. Cria parâmetros de discernimento; ensina,
os que não viram o Deus pintar o céu, a reconhecer Sua marca nas
coisas. Intui que Esta está em todas as coisas do mundo e aprende a
enxergá-la e aprende a ensinar a enxergá-la. Aprende a ler na vida
as marcas da cólera do Artífice e a entender suas razões. Intui que
algo foi feito de errado e oferece alegremente, em sacrifício, pela
sua redenção, a própria carne.
Valério, só uma dica: coloca espaço entre as linhas para facilitar a leitura. Quando é texto corrido assim é só colocar o cursor no início de cada linha e dar dois enter...
Abraços.
cida, obrigado pela dica. Na verdade os dois blocos deveriam ser lidos rapidamente, com uma respirada ofegante no meio. Por isso mantive o caráter de tijolo das partes. Mas sua sugestão é boa, facilita a leitura, e conservada a proporção, o efeito acaba sendo o mesmo. Incorporei.
Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 15/5/2007 15:09Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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