Vaidade, ó vaidade, tua vitória!
Finnegans Wake ²
Réplicas de mansões lordes
habitadas por fantasmas
de cavalheiros e damas
outrora nobres:
Próceres Senhores,
Senhoras e Brigadeiros
Políticos, Guerreiros,
Generais e Doutores,
desfilam gloriosos
preocupados em não
ser esquecidos por mundo vão.
Monturos suntuosos...
Não há Jorge Luis ³
nesse lugar de trevas,
recordo de almas primevas
como ele mesmo quis.
Não há negros alados,
nenhum guerreiro indígena,
de sua própria terra alienígena;
lázaros considerados.
Na capela, de estilo clássico com
quatro colunas de ordem jônica,
há um Cristo que dá a tônica,
mas não transcende o próprio tom
em mármore de Carrara, 4
pois, ao morrer na cruz,
o Verbo Divino, Jesus,
o tempo na eternidade fundara. 5
Caminhando por ruas
estreitas nesta cidade
de máscara da realidade,
vejo pessoas nuas
que me olham com olhar
de mármore; de sonhadores
pálidos em meio às flores
que enfeitam o lugar
de salas lúgubres e odores
sagrados; faces da mesma
solidão que ensimesma
a noite e o dia dos atores.
Admiram-se em silêncio
sem eco e em contemplação;
perfeita recordação
daqueles que se movem no incêndio.
Desejam um fáustico pacto? 6
Que os belos mausoléus desse lado norte
captem a morte,
transformando-a em arte num acto?
Dorian Gray ficara atormentado
com a perda da juventude
na glória de toda a sua magnitude
ao mirar-se em retrato pintado. 7
E aquele perfume do outro mundo
me inebriava com aperfeiçoada
sensibilidade naquela calçada,
acrescido de não sei quê nauseabundo.
Por instantes, quimeras!
Há um céu que me fita incomensurável,
marcando no tempo a vitória do Imutável:
Gigante, Forte, Soberbo em todas as eras.
Então, sob o sol norte, que me esquentava
a alma, preferi admirar a arquitetura
móvel das nuvens - cuja estrutura
entretinha meus olhos - e pensava:
"Ah! doce perfume do dia!
Prolongue-se e banhe minh´alma
neste rio almejante de vida calma
e torne ao meu ser a doce fantasia..."
Caminho para outra Recoleta, 8
onde a vida grassa,
feito a crisálida que passa,
desiderato do ser borboleta.
Requiescant in pace. 9
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¹ Inscrição na parte superior do pórtico do Cemitério da Recoleta: “Descansem em Paz”. Cemitério da cidade de Buenos Aires, situado ao norte da cidade originária. Deriva seu nome do antigo convento dos recoletos franciscanos, contíguo à igreja de Nossa Senhora do Pilar, onde até poucos anos teve sua sede o asilo de anciãos “General Vilmonte”. Na época de Rivadavia, o edifício chamado de Ricoleta foi destinado a cemitério público. Fundou-se em 1822 e se denominou Cemitério Norte.
² Título da obra de James Joyce. Escritor irlandês (Dublin, 1822-Zurich, 1941).
³ Escritor e poeta argentino, Jorge Luis Borges (1899-1986). Os últimos versos de seu poema “La Recoleta”, dizem: “Aquí no estaré yo, que seré parte del olvido que es la tenue sustancia de que está hecho el universo.”
4 Cristo em mármore de Carrara, de uma só peça, obra do escultor italiano Giulio Monteverde, 1837-1917.
5 “...Portanto, lembrai-vos de que vós outrora éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão, feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Pois Ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um, destruiu a parede de separação, a barreira de inimizade que estava no meio, desfazendo na sua carne a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um só corpo, matando com ele a inimizade.” Carta de Paulo aos Efésios – 2:11-16.
6 Referência ao pacto proposto por Fausto, criação filosófico-poética do Poeta alemão Goethe, Johann Wolfgang (Frankfurt do Meno 1749-1832).
7 Referência ao romance “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde (Dublin, 1854-Paris, 1900), escritor inglês de origem irlandesa. O pintor Basil Hallward retrata numa tela a beleza do jovem Dorian Gray. Este passa a atormentar-se com a perda da juventude, formulando então, um desejo fáustico: quer permanecer belo e jovem, cabendo ao retrato captar o envelhecimento. O pacto logo revelará sua face trágica, e a questão da imortalidade assumirá fundo moral: a vida deve se transformar numa forma de arte?...
8 Referência ao belo bairro nobre ao norte da cidade de Buenos Aires.
9 “Descansem em paz"
Eu visitava o velho Cemitério da Ricoleta numa tarde de sol e céu imensamente azul a cobrir Buenos Aires. Contraste fabuloso com aqueles túmulos suntuosos de pessoas outrora importantes da vida argentina, mas lúgubres. Senti forte desejo de compor este poema, pensando em meu privilégio de estar ali e poder admirar tudo aquilo nessa era de fim-de-século e milênio e estar presente no sentido heideggeriano da pre-sença.
Uma verdadeira aula, Juscelino, não um simples asseio turístico. Excelente!
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 2/11/2008 13:07
Vaidade, ó vaidade, tua vitória!
Finnegans Wake ²
Muito Real
Um grande poema, Jusc!!
Como o Marcos disse,uma aula e tanto!!
Como você transformou aquele cenário do cemitério, com tantas referências históricas e literárias! Tornou-se um cenário mais poético, uma poesia que transcendeu a beleza estética do lugar...poesia extraída das vidas que se foram, mas que continuam compondo este cenário através da eterna poesia...da eterna arte...e das escrituras sagradas...
Bom aprender com vc,prof !!!hehe
beijinhos bluecarinhosos
Blue_Chips...in blues...rsrs
Ahh...e esqueci de ressaltar...que me emocionou como vc poetisou
a questão dos excluídos por não pertencerem à nobreza...toda aquela 'pompa' como sempre para pessoas da alta sociedade,mas que muito pouco contribuiram na história do lugar...ou para o mundo!]Enquanto outros,não pertencentes à nobreza, são esquecidos por aí...
bjlsblueee
Concordo com Raiblue!
Apesar de que depois que morre-se acaba tudo!!!
Tanto faz estar num cemitério cheio de mansões ou não!
A alma vão todos para o mesmo lugar onde não existe vaidades em diferenças sociais!
Apaixonante teu postado parabéns!
beijo no coração!
Corrigindo:
Ahh...e esqueci de ressaltar...que me emocionou como vc poetisou
a questão dos excluídos por não pertencerem à nobreza...toda aquela 'pompa' como sempre para pessoas da alta sociedade,mas que muito pouco contribuiram na história do lugar...ou para o mundo!
Enquanto outros,não pertencentes à nobreza, , mas nobres de espírito,homens que coloriram a história da arte, são esquecidos por aí...
bjlsblueee
Num postado destes a gente entra num passo que mal pisa. é tanta beleza e exuberância, Juscelino! Sinto-me numa catedral. Vim algumas vezes e fiquei aqui em silêncio. Só lendo e admirando as imagens dos versos, a citações, as fotografias, lembrando da cidade, da Recoleta divertida, cheia de vida. Nesses números ao lado dos versos, que vc resolveu de forma tão interessante, enigmática. roteiro de sonho e cultura.
E o mais incrível: sua experiência, que entrei - senti o presente, a pre-sença.
Mais um clássico que vem no ensinar o que é cultura e erudição, sem ser pedante. Excelentes !...tanto a poesia quanto as informações e fotos.Muito bom , Jucelino !
( e num deu medo não viu ?...rsrsrsrs)
E, quanto ao "tema secundário", digamos, posso dizer-lhe que, sendo espírita, tenho pra mim que a "derradeira" é apenas e tão somente passagem, de onde se transmuta do sólido para o etéreo, sobrando o que há de melhor, a energia essencial cristica.E por lá, posso garantir, não ha diferenças nem de dor, raça, credo, posição, etc etc etc...Ou seja, la em cima o buraco é mais em baixo...rs
abraço...ótimo trabalho !
Joe
Excelente,Ju!
Faltou vc comentar que, nesse cemintério de mausoléus tão nobres e luxuosos, paira um jazigo simples (comparado aos outros), ainda que uma das defuntas seja nobre: a idolatrada-salve-salve Eva Perón, no Jazigo de la Familia Duarte.
Em bronze, pode-se ler uma frase digna de Evita: "Voltarei e serei milhões". tá boa????? rs rs rs
beijocas
Veja que coisa engraçada : você fala em vaidade, vaidade, referindo-se aos vivos que se esquecem que virarão pó. Citar, contudo, tantas referência explicativas de seu texto não lhe parece vaidade???? Só estou, humildemente, perguntando. Lila Su
Lila Su · São Paulo, SP 2/11/2008 23:27
Lila Su,
talvez escrever um poema já seja em si vaidade. Um poema reflete conhecimento. Explicar algo hermético é vontade de ser construtivo. De qualquer forma, conforme Salomão no Eclesiastes, "vaidade de vaidades! Tudo é vaidade".
Espero, humildemente, ter respondido a sua pergunta.
MonyBlu,
conforme os nobres "donos" do cemitério famoso, Eva nunca foi nobre e nem deveria estar ali. Então, olvidei-a de propósito até para preservá-la...rs
Beijos
Caro Joe,
você salvou a minha pátria! Ler que não fui pedante me aliviou, confesso. Obrigado e grande abraço, meu caro.
CD,
sua mensagem me faz sentir alegria em escrever o que escrevi. Fico contente que tenha sido uma viagem colorida.
Blue-Chips,
gostei que você tenha percebido o social no poema. Há nuances que gosto que percebam sem explicações. Bom aprender com você também. Bj
Celina, querida, obrigado por sua mensagem sempre objetiva e carinhosa. Bj
Juscelino Mendes · Campinas, SP 3/11/2008 00:17
Domingos,
sua presença é sempre agradável e querida. Abraços.
Obrigado, Marcos. Se consegui passar algo de interessante, satisfaço-me com esse trabalho. Abraços.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 3/11/2008 00:20Beleza de trabalho, fotos e o poema além de nos mostrar um passeio turistico recheado de história.
Omar Costa de Umbro · São Paulo, SP 3/11/2008 09:16
Juscelino Mendes · Campinas (SP)
REQUIESCANT IN PACE ¹
Um Trabalho de folego dando uma ampla visáo do tema.
...Vaidade, ó vaidade, tua vitória!
Finnegans Wake ² ...
...Caminho para outra Recoleta, 8
onde a vida grassa,
feito a crisálida que passa,
desiderato do ser borboleta...
Parabéns .
Abracáo Amigo
Omar e Azuir,
obrigado por me visitar neste cemitério lúgubre.
Abraços.
Bom trabalho meu querido, volto pra votar
Cariri em Movimento · Aurora, CE 3/11/2008 17:53
Juscelino,
Belos versos, que nos levam a pensar na vida e na morte. Até na hora do descanso eterno, há um grande abismo social. Mármore de carrara nos mausoléus dos nobres, esquecimento e comum vala a nós, pobres mortais. Gente do povo, indígenas, outrora donos da terra, e os negros que mantiveram o sistema explorador com a força dos seus braços e o rubro do seu sangue, ficam fora do faustoso mausoléu. A morte feita arte nas estátuas que parecem nos observar. Apesar de tudo, o céu continua sempre ali, acima da imutável quimera do existir. Em sua arquitetura maleável, uma doce fantasia fugidia, como o livre vôo de uma bela borboleta...
Parabéns ! Deixo o meu voto...
Um abraço
Juscelino
Uma obra de inúmeras referências, digno da sua
lavra. Tudo, afinal termina na última referência.
descanse em paz.
belo.
Parabéns pelo desdobramento do poema.
Um abraço
Juscelino,
Pertinente para a data recente, boas referências e informações.
Descansemos pois.
abraços
Carinhosamente contribuo com meus votos para te dar os 80 pontos.
Publicado.
Juscelino, amigo
Teu poema é tecido com os fios da beleza da melhor das poesias. Quanto ao cemitério, ainda acredito que é lugar onde mais se estampa a hipocrisia humana. Que diferença faz, a vala comum dos mausoléus de luxo, se as almas ja navegam nos encantos da eternidade.
na verdade, parceiro, o tumulo dos mortos é o coração do homem.
Maravilha o teu poema
Abraços
Noélio
Bon jour...Jusc...lindo!
Mais belos vôos como este procê!
Blue_Chips
Votado meu amado e querido conterraneo
O ser humano é algo que sempre surpreende.
Como pode um cemitério ser tão visitado?
É bem interessante ver como cada lugar propicia que as pessoas recriem valores, ou coloquem importância em algo que não parece tê-la. Penso eu: além de ser uma forma de abrigar lembranças do entes queridos, o que mais veria num cemitério?
Eis que vem você Juscelino e nos brinda como uma aula de história e de sensibilidade. Poesia pura.
Parabéns.
Votado.
Eae Jusça, na pazzz?? :-)
Cara do céu!!! Isso aqui é poesia pura:
"...que me olham com olhar de mármore; de sonhadores
pálidos em meio às flores que enfeitam o lugar" Que sacada bacana!! Parabéns!!! Votadaço!
Abração!
Mais uma obra literária bem acabada, Juscelino.
Parabéns.
Votei.
Até na morte prevalece a distinção de classes. As pessoas parecem não se lembrar que depois de mortos nos tornamos iguais, o mesmo pó.
Interessantes as referências contidas em seu poema.
Parabéns e votos.
JUSCELINO,
Adorei "profê"
Nem estando lá a gente
ia aprender tanto!
...Vejo pessoas nuas,
Que me olham com olhar de mármore;
pálidas em meio as flores que enfeitam o lugar.
QUEDÓ...
Tu aroma
Embriagante
Y un pedazo
De tu cérebro
Donde se hospedan:
ANGELES Y DEMONIOS!
Besos.
AMIGO! ADOREI! EXCELENTE.
NÃO IMAGINAVA QUE SE PUDESSE FAZER POESIAS LINDAS COMO ESTAS , NÃO PARECIAS ESTAR EM UM CEMITÉRIO. MAS ME PARECEU UM MUSEU . POEBEIJOS.
Juscelino,
Ainda fora da base
fico com poucas entradas.
Hoje estou aqui e leio algo diferente.
Beijos e votos,
Regina
Juscelino
Magistral seu poema
Ante tanta arquitetura inutil
( vaidade das vaidades)
gostoso é admirar as nuvens,
sentir a paz e a graça de estar vivo,
e nutrir a fantasia
que somos crisálidas.
bjss
e sentir a graça de estar vivo.
Juscelino, ano passado caminhava num domingo de sol no elegante bairro da recoleta e parei em frente a esse cemitério.Por alum motivo não entrei e agora vc vem e me traz essa preciosidade.Ainda bem que deixei pra entrar só agora1
abs.
Juscelino,
Linda poesia e uam verdadeira aula de história.
Abraços
Caminho para outra Recoleta, 8
onde a vida grassa,
feito a crisálida que passa,
desiderato do ser borboleta.
Que beleza!
Agradeço muito vocês pelas mensagens, votos, entendimento, presenças. É muito agradável lê-las todas. Saber que cada um percebeu versos que mais lhe tocou etc.
Um feliz e abençoado domingo a todos!
Amigo JUSCELINO,
Passei para agradecer sua"doce presença"
Na minha"cadeira vazia" desejar um bom final
De domingo, e dar os parabéns por tamanha aclamação.
E ainda,estou na capital gaucha,meu segundo "lar"
PORTO ALEGRE-RS.
Cumpadi, eu n vou falar da morte e nem da vida.. dxo esse qestionamento pros outros. pra moi vc fala de arte e a descreve bem.. arte é arte; cemiterial ou não. Nas igrejas barrocas nós pisamos nos túmulos pq ele é o chão q pisamos. Existem cemitérios fantásticos e esse tema da blz é até hoje admirado. Nunca estive no Egito, mas com certeza eu iria me maravilhar diante das pirâmides..
O seu poema é uma ode à beleza.
Hoje a morte é feia, antigam/ ela era admirada c outros olhos
Jacinta,
eu sou quem agradece a sua presença aqui.
Espero que esteja tudo bem por aí.
Grande abraço.
Cumpadi Rimbaud,
você não nega a raça dos bons poetas,
pois enxerga até na escuridão a beleza.
Grande abraço.
Juscelino, que maravilha! A última vez que estive em BA eu o percorri em uma visita guiada. Muito bacana! Acompanhei atentamente a história da mulher de branco (ual, lá também tem mulher de branco!), da velha empregada que fora enterrada (sob protestos da sociedade) no jazigo de uma família tradicional da época. E vi o túmulo da Evita, etc, etc. Lá é mesmo um lugar interessante... Curioso que ao chegar em casa, com mais de 600 fotos na bagagem, as fotos que tirei do túmulo dela não estavam lá. uhuhuhu!
Stella Tuttolomondo · Rio de Janeiro, RJ 10/11/2008 21:13
risos... Stella, as fotos não estavam lá? Sei... no momento em que você fotografou não existia luz. Era só escuridão da morte... a sua máquina só capta a vida em luz...rs
Obrigado por sua presença.
Abraços.
Vamos mocinho!!!
Saudades dos teus versos...deixa a preguiça pendurada na árvorte...rsrs...e vemmmm!!!
É sério...Juscc!!
besitossss azuleee
Blue_Chipssss
Logo, Blue-Chips, apareço com algo. Preciso de tempo. Bjs.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 13/11/2008 12:06http://br.youtube.com/watch?v=qyyCNJeQdhM&feature=related
Juscelino Mendes · Campinas, SP 24/11/2008 20:53Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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