Quando lhes tiraram a lavoura,
E o sistema se voltou para os pastos,
Eles partiram deixando para traz,
Naquelas terras tão somente os rastros.
Que apontavam para as cidades grandes,
Gado humano em procissão,
Brancos escravos e negros servis
Tangidos para longe do seu chão.
E se a juriti abandonou o campo,
Com medo do gavião,
Quem ficou o fez por não ver,
Vida longe da plantação.
E assim cresceram as favelas,
E os bois engordaram nas invernadas,
As riquezas do País foram ficando,
Nas mãos de poucos... Concentradas.
Depois vieram as indústrias,
Como vaga-lumes iluminando o apogeu,
Mas o País continuou injusto,
Com a sorte dos filhos seu.
Que em desatino elegem a esperança,
Como forma de punir maus governantes,
Afinal ela trazia na sua pele,
As chagas dos retirantes.
E o destino que teceu a trama,
Daquele que assumiu o seu papel,
Se pos como um enorme vazio,
Tal como uma nuvem no céu.
E esperando pelo incerto
Num tempo que está a passar,
Quando a Asa-Pau se faz ouvir,
Esse povo se põe a rezar.
E olha que nem seria preciso
Essas preces levadas a Deus,
Se no planalto se ouvisse
A voz rouca dos votantes ateus.
Gente de todos os matizes
Que não encontram a saída,
Que os faça retornar pela estrada
Que lhes pareceu ser um caminho de vida.
E se o boi agora geme no curral
Alguém está sofrendo no cativeiro,
O mau feitor no conforto da sua cela
Com segurança aplica nosso dinheiro.
O que pode esperar esse povo?
Feito galinha solta no terreiro,
Cada um com um galo de plantão
A lhe fustigar o traseiro.
Como bicho solto na seca
Busca salvar-se procurando emprego,
Vive com um pé no ócio
E o outro no desapego.
Andam cobras pelas esquinas
A encantar passarinhos
Suas bocas quando agarram não soltam
E os meninos deixam de ser anjinhos.
Ninguém mais é o mesmo
E hoje já não é como antes,
Somos todos nesse caminho do medo
Apenas e tão somente...Retirantes!
Em busca do melhor da vida
Quando essa é feita de instantes,
Falta-nos aquele rancor cívico
Que sufoca os governantes.
Deitados à sombra dos Jequitibás
Virtualmente colocando,
Pois pouco sobra dessa espécie
Nos campos de que estou falando.
Ainda tem gente minha por lá,
E para lá estou querendo voltar
Já não me vejo mais aqui
Pois lá sempre foi o meu lugar.
Será um reencontro com tudo
Que passou a florescer,
Tão somente nos sonhos
De quem cresceu sem esquecer,
Quem eu sou,
De onde vim,
Para onde vou,
Esperar o fim.
As margens do grande rio
Que sempre correu em mim,
No topo das ingazeiras
Que adocicam o meu jardim.
Tem gente minha por cá
Também querendo voltar.
Tem gente minha morrendo
Sem esse sonho realizar.
Preciso me apressar
Para que eu não morra também assim,
Preciso voltar para a minha terra
O melhor lugar de mim.
RETIRANTES
Da roça para a cidade e da cidade para a roça. Caminhos de um povo retirante.
Estimado Celso:
tua poesia é um retrato de uma realidade tão verdadeira quanto mentirosa - cabendo considerar lados - da sociedade escravocrata que perdura até hoje. Seca é um peixe valioso, be sabemos, e os retirantes são guerreiros, quixotescas figuras que por serem populares não cultiva-se "respeito". Contudo, não cabe aqui me deter nessas questões que todos nós sabemos, acolhemos, discordamos, enfim. A “dança do intelecto” de que falava Ezra Pound está ai, aliada a mais bela melopéia. Parabéns!
Parabéns Celso, gostei muito do teu texto, tenho uma atenção especial sobre os movimentos i/migratórios e você revelou muitas verdades.
Gostaria que este texto fosse publicado.
Um abraço.
Votado.
Agradeço pelos comentários ao meu texto "RETIRANTES". Eles agregam valor ao meu trabalho. Espero contar com o apoio de todos nos novos textos que postarei.
Muito obrigado!
CCF
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