Reviravolta (Parte I)
O sono demorava a chegar, como sempre, mesmo depois de um longo dia de trabalho. Mas o sonho, esse vinha rápido, antes mesmo de dormir. Às vezes sonho de menino, como ganhar presentes no natal, no seu aniversário ou no dia das crianças. Às vezes sonho de adulto, sonho por uma vida mais digna.
Olhava o teto sombrio do barraco cinzento e sujo e via, através dele, um futuro melhor. Seus olhos brilhavam ao ver a cena de seu primeiro dia de aula, a professora, cadernos e livros novos na mochila, meu Deus, nunca tivera uma mochila. Livros? Tinha um ou dois que a mãe trouxera para casa após sua jornada diária de trabalho catando papelão nas ruas para vender na reciclagem. Livros velhos e sujos. De nada adiantavam, já que não sabia ler o menino. Ainda que tivessem gravuras! Mas estavam lá, debaixo do colchão, aguardando para o dia em que aprendesse a ler.
Novamente a imagem da professora, dos livros encapados e com cheirinho de novos. Outra vez os olhinhos brilharam. Quem sabe um dia? Quem sabe amanhã cedo quando acordasse, a sua vida não fosse sua e sim outra, como num passe de mágica?
Adormeceu na esperança de poder acordar em outro mundo, onde ele fosse criança e pudesse brincar e ir à escola.
Mas, infelizmente, amanheceu tudo igual.
O barraco cheirava mal e a mãe já havia saído com o irmão mais novo para as ruas, catar papel para garantir ao almoço.
Ele já sabia o que tinha que fazer. Levantar da cama e ir para o seu trabalho. Café da manhã nunca tinha mesmo. Às vezes tinha pão, mas só às vezes. A mãe e o filho menor arranjavam qualquer coisa para comer na rua. Ele, na maioria das vezes, ficava mesmo sem comer até à hora que a mãe voltasse com algo para preparar para o almoço.
Mas naquela manhã ele estava diferente, com um brilho maior no olhar. Nem percebeu quando cortou o dedão do pé enquanto tentava limpar os mariscos. Os olhinhos apertados olhando longe, muito além da lagoa, muito além da favela.
Mergulhou tantas vezes que já estava sem fôlego, mas ainda tinha forças para limpar os carurus, encher o saco e levá-lo nas costas até à favela, para a venda.
Todos os dias eram assim. Seu ritual à espera de uma felicidade que nunca vinha, mergulhar atrás dos mariscos, limpá-los com os próprios pés e depois transportá-los nas costas. Ele e outros meninos da mesma idade, tinha até uns dois bem menores que os demais. O Zezinho tinha apenas oito anos e era o menorzinho, mas já suportava o tranco, conseguia carregar uns cinco quilos de sururus nas costas. Nenhum deles ia à escola, passavam assim a maior parte de sua infância.
Mas com ele seria diferente. Ele sonhava alto, tinha planos, tinha ideais e iria lutar por eles como alguém que tenta desesperadamente viver. Iria conseguir sua passagem para um mundo melhor.
O vento frio fez o seu corpo molhado tremer, como tremiam as palhas dos coqueiros ao longe. O vento açoitava seus pensamentos de menino. O que seria dele, pensou, depois de um ano, dois anos, uma vida mergulhando atrás de sururus? Suas costas doíam e ele tentou relaxar os membros rijos nos minutos intermináveis do medo que de repente sentiu de não conseguir realizar seus sonhos...
É a estória de um sonho...
"O vento açoitava seus pensamentos de menino. O que seria dele, pensou, depois de um ano, dois anos, uma vida mergulhando atrás de sururus?"
Queridos overmanos!
Postei novamente a parte I de Reviravolta, pois percebi que a maioria teve acesso somente à parte II, segundo relatos.
Para quem não leu, convido à leitura e espero que apreciem!
Para quem já leu, fiquem a la vonte!
Muitos beijos
Boas Festas!
Maelene,
Se a criança ( mesmo maltratada pela vida) acalenta desde cedo sonhos de uma vida melhor, por certo ela há de conseguir.
Bjs e Feliz Natal
Isso vai dar um romance meu caro! Meus votos e votos de Boas Festas!
raphaelreys · Montes Claros, MG 25/12/2008 17:22
Votado com alegria nessa história bom de ler sô...
Feliz 2009!
Abraços daqui,
Doroni, Raphael, Ivette e Nina!
Muitíssimo obrigada pela presença aqui, desejo a todos um ano de 2009 cheio de realizações e muita felicidade!
Bjokas no coração!
Terrível realidade, vou procurar a parte dois agora !
Maravilhosa a sua sensibilidade !
Um beijo !
Obrigada Alcanu!
Se ficar difícil encontrar a parte 2, estou disponibilizando o link aqui:
Um beijo!
Ops! o link ficou emendado no beijo!rsrsrs corrigindo:
I have no idea about what happening,rsrsrs, enfim, podem clicar a la vonte na palavra um beijo no post ao Alcanu acima, para acesso a parte II de Reviravolta!
Bjos confusos,rsrs!
W. Marques!
Thanks pela visita!
Mil votos de um 2009 repleto de coisas boas. Que vc consiga realizar os seus melhores sonhos!
Bjs
Fiquei apaixonado pelo seu texto parabens
zé polinomio
Agora ficou redondinho. Mas não se esqueça de que os sonhos sonhos são.
Marlene, eu já havia lido, mas gostei de ler de novo. Muito bom.
Beijo e um 2009 cheio de paz e alegrias para você.
Oie Marlene!!
Sensível....diante de todas as adversidades, os sonhos são o que nos move,...nos faz lutar....persistir...ainda que às vezes um vento gelado tente nos roubar esses sonhos....
Muito bonito,gostei!!
Beijinhos azuis
Blue
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