Rio Paramopama: o nome e a saga
Thiago Fragata*
Durante muito tempo, fiz a pergunta aos conterrâneos e professores acerca do principal rio de São Cristóvão/SE. A negativa alimentou a curiosidade e as pesquisas renderam informações controversas sobre a origem do nome e a origem do rio. Escrevo, então, para sistematizar as informações coligidas nos arquivos, bibliotecas e trilhas do enigmático rio Paramopama, o patrimônio natural destacado nesse artigo.
Teodoro Sampaio, na obra O Tupi na Geografia Nacional (1987), considera o termo paramopama uma derivação corrompida do tupi “pará-mo-pama, o mar feito bravo o mar embravecido”. Armindo Guaraná, no Glossário Etimológico dos nomes da língua tupi na Geografia do Estado de Sergipe (1916), decompõe o termo de modo diferenciado e explica que “pará = por; pira = peixe: mapoan = enganar: o peixe enganou”.[1] Ao longo dos séculos sua grafia variou; paramopama já foi paramopamba, piramopama e paramopana. Minha ignorância a respeito da língua geral dos tempos coloniais, o tupi, impossibilita esclarecer qual exegese seja mais pertinente.
Sobre a nascente do Paramopama, as pesquisas iniciais nos arquivos e bibliotecas conduziram a outro labirinto. Atualizei a grafia dos documentos para facilitar a compreensão do problema e quem sabe desenrolar o fio de Ariadne. Analisemos, passo a passo, quatro descobertas:
Primeira, em sua Notícia Topográfica da Província de Sergipe (1826), o padre Ignácio Antonio Dormundo escreve que o Paramopama “nasce na estrada das pedras moles distante da cidade 2 léguas. Para o norte vai unir-se ao Vaza-barris no lugar chamado Barra da cidade, três léguas de sua nascença. Perde suas águas unindo-se às salgadas na engenhoca da Prata, nunca seca”.[2] Foi impossível localizar a referida estrada das pedras moles.
Segunda, no Dicionário Descritivo do Império do Brasil (1845), de Jean Claude-Rose de Milliet de Saint-Adolphe, consta que “o ribeirão da Província de Sergipe [o rio paramopama] vem dos montes que servem de limites à província de Goiás, rega a Província de Sergipe e a cidade de São Cristóvão”.[3] Intrigante a citação “a Província de Goiás”! Será o atual Estado de Goiás!? Será descalabro de um estrangeiro que não conheceu a região? Não será o único exagero. Pedro Calmon, respeitado pesquisador da História do Brasil, informa que até o final do século XVIII muitos acreditavam que o Rio São Francisco nascia nas “vertentes das grandes serranias do Chile e Peru”.[4]
Terceira, Luiz Carlos Silva Lisboa, na Corografia do Estado de Sergipe (1897), informa que o Paramopama “nasce no morro Santa Cruz do Bernardo, banha a cidade de São Cristóvão, desembocando no rio Vaza-barris”.[5] Numa resenha coeva, Manoel dos Passos de Oliveira Teles corrige o autor: “o diminuto afluente da margem esquerda do Vasabarris [...] tem mais de meia légua de curso; e o que faz célebre é banhar a ex-capital de Sergipe e formar alagados soberbos para as salinas”.[6] Embora Oliveira Teles revele a existências das salinas, hoje extintas, ele nada acrescenta sobre a nascente.
Por último, Mario da Veiga Cabral, na Corografia do Brasil (1916), informa que “nasce em uma gruta no oiteiro das Pedras, encontrando o Vaza Barris pela margem esquerda”.[7] Assim como a “estrada das pedras moles”, o oiteiro das Pedras não constitui referência para população de São Cristóvão.
Diante das indefinições, de origem do termo e de origem da nascente do rio Paramopama, decidi empreender expedição subindo o curso das águas, da embocadura até a nascente. Foi a solução encontrada para tentar esclarecer a questão e ampliar o conhecimento sobre o objeto. Quando o papel não ajuda, atrapalha, é preciso largar a lupa e ganhar o campo, no caso, as correntezas. Fui ao antigo porto das Pedreiras, à margem do rio Vaza-barris. O povoado se acha localizado a 7 km do centro histórico de São Cristóvão; do seu porto é possível avistar o encontro entre o Paramopama e o Vaza-barris, seu afluente.
O porto das Pedreiras teve grande importância na exportação dos gêneros produzidos em Sergipe, favorecido pela distância da foz do Vaza-Barris e pela sua profundidade. Sua atividade perpassou a Mudança da Capital (1855) quando a economia de São Cristóvão foi à bancarrota. Na Corografia do Estado de Sergipe, obra do final do século XIX, Silva Lisboa confirma os marcos de um grande trapiche do LIoyd, propriedade da antiga Companhia Bahiana.[8]
Mas o rio Paramopama é, era de baixo calão, raso, de modo que as grandes embarcações dependiam da maré alta para atingir o extinto Porto da Banca ou o Porto São Francisco. Diante do inconveniente, as mercadorias ficavam nas Pedreiras, seguindo no lombo de jumentos para a sede, aonde eram taxadas na Tesouraria Provincial e/ou comercializadas. Nesse trajeto, a corrupção e o desvio eram constantes. Alguns senhores preferiam transportar suas mercadorias em “sumacas ajoujadas”, pequenas embarcações amarradas, o que resultava em viagens demoradas, por vezes desastrosas. Nesse sentido, a falta de um porto adequado foi argumento para a transferência da capital para Aracaju.
Singrando as águas esverdeadas do Paramopama, percebe-se que ainda hoje a busca pelos mariscos é incessante. Afinal, a pesca constitui parte considerável da renda da população sancristovense. A “mãe maré”, expressão cotidiana, ainda oferta alimento “aos filhos”, apesar das agressões. Pertinente é constatar que além da toponímia das suas margens (cramindó, caípe etc), muitos objetos e técnicas da pesca (coufo etc) remetem aos primeiros habitantes, os índios.
Da embocadura à nascente, deparamo-nos com problemas ambientais de toda ordem. Problemas que merecem atenção do poder público nas três instâncias de governo (municipal, estadual e federal). Cito alguns:
A dragagem, retirada de areia do fundo do rio. A última, realizada no segundo semestre de 2004, ainda compromete a reabilitação da vida marinha. O ato danoso tinha como justificativa o Projeto Catamarã, que prometia colocar São Cristóvão na rota do turismo, gerando emprego e renda. Consistia em tornar possível a chegada de um catamarã no píer do Terminal Turístico Ecológico, inaugurado em 1993, no antigo Porto da Banca. O projeto, ironicamente, foi inviabilizado pelo assoreamento provocado pela dragagem.
Outro problema é o lançamento de resíduos sólidos, o popular lixo, nos mangues e águas do rio. Infelizmente, subsiste como ponto pacífico na sociedade brasileira a idéia de que “todo esgoto leva ao mar”. Um terceiro problema do “nosso rio esgoto”, como o professor José Lucio Batista Silva intitulou um dos seus trabalhos, são as enchentes. Estas ocorrem sem periodicidade. Geralmente, inundam parte da cidade baixa, nas imediações da Rua Jardim, Avenida Felix Pereira, Rua Beira Mar e toda a área do centro comercial.
Em 2001, residia na Avenida Félix Pereira e presenciei uma enxurrada. Fiquei impressionado com o ímpeto das águas e a rapidez com que se avolumavam nas residências. Uns desabrigados explicaram na ocasião que a fúria torrencial estava relacionada às represas dos tanques de peixe e camarão. Será?
Diante das mazelas que o Paramopama enfrentou e enfrenta, urge uma ação consistente por parte da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMARH) e do IBAMA a fim de conhecer os criatórios e fábricas que despejam diariamente produtos químicos no seu leito. A monografia Degradação ambiental na bacia do Rio Paramopama no município de São Cristóvão em Sergipe (2007), de Everton Santos, será um bom guia.[9] Não será difícil testemunhar os crimes ambientais, difícil para mim foi encontrar a nascente do rio.
Destino. Lancei o desafio ao jovem Erivaldo Santos, que é membro do Núcleo de Educação Ambiental (NEA), do Colégio Estadual Padre Gaspar Lourenço. Junto com o professor Sergio Alex foi encampada a missão que veio dissipar o enigma. Descobriram que o Paramopama, maior patrimônio natural de São Cristóvão, tem origem no sítio Maria Emília, a 4 km do centro comercial. Os minadouros que formam sua nascente estão na confluência dos povoados Aningas e Jurubeba. Mas nem aí o rio tem sossego. Apesar da proibição de desmatamento e da vigilância do proprietário, a área tem sido alvo da ação predatória dos lenhadores.
Ao tratar do rio Paramopama, em agosto de 2007, Dora Ariza Gusmán, representante da UNESCO, disse que o meio ambiente se acha casado com o patrimônio cultural em São Cristóvão. São indissociáveis. Por isso, o parecer discutido em julho do ano corrente na 32ª. Convenção do Comitê do Patrimônio Mundial, em Quebec, Canadá, recomendou um projeto de saneamento básico para a cidade que tem tudo para ser Patrimônio da Humanidade, depois da absolvição dos crimes ambientais.
* Pós-graduando em História Cultural (DHI-UFS), Sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), Membro do Grupo de Estudos História Popular do Nordeste (GEHPN). E-mail: thiagofragata@gmail.com. Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE, Aracaju, 8/11/2008, p. 6B.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] GUARANÁ, Armindo. Glossário Etymológico dos nomes da língua tupi na geografia do Estado de Sergipe. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, vol. 3, fasc. I-IV, p. 296-326.
[2] Notícia topographica da Província de Sergipe, redigida no anno de 1826, pelo Padre Ignácio Antonio Dormundo, de ordem do Conselheiro do Governo e resolução tomada em sessão de 4 de dezembro de 1826. In: NUNES, Maria Thétis. História de Sergipe a partir de 1820. Rio de Janeiro: Ed. Cátedra; Brasília: INL, 1978, p. 183.
[3] FREITAS, Itamar; ALVES, Francisco José. (orgs.) Dicionário da Província de Sergipe. São Cristóvão: Ed. UFS; Aracaju: Fundação Oviêdo Teixeira, 2001, p. 64.
[4] Declaração de D. Domingos do Loreto Couto. Anais da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, XXIV, p. 22. In: CALMON, Pedro. Historia do Brasil: século XVII e XVIII. Rio de Janeiro: José Olympio, 1961, p. 745
[5] LISBOA, Luiz Carlos Silva. Chorografia do Estado de Sergipe. Aracaju: Imp. Official, 1897, p. 19.
[6] OLIVEIRA TELES, Manoel dos Passos de. Sergipenses. Aracaju: Typ. d’O Estado de Sergipe, 1897, p. 108.
[7] CABRAL, Mario da Veiga. Corografia do Brasil (Curso Superior) 30º. Ed. Rio de Janeiro: Liv. Francisco Alves, 1953, p. 514.
[8] LISBOA, Luiz Carlos Silva. Chorografia do Estado de Sergipe. Aracaju: Imp. Official, 1897, p. 96.
[9] SANTOS, Everton Manoel de Oliveira. Degradação ambiental na bacia do Rio Paramopama no município de São Cristóvão em Sergipe (BRASIL). São Cristóvão, 2007. Monografia (Especialização em Geologia Sedimentar e Ambiental Aplicada a Ambientes Antigos e Recentes), UFS, 2007. Não Publicada.
Durante muito tempo, fiz a pergunta aos conterrâneos e professores acerca do principal rio de São Cristóvão/SE. A negativa alimentou a curiosidade e as pesquisas renderam informações controversas sobre a origem do nome e a origem do rio. Escrevo, então, para sistematizar as informações coligidas nos arquivos, bibliotecas e trilhas do enigmático rio Paramopama, o patrimônio natural destacado nesse artigo.
Muito bom, Fragata, como todos os estudos que você faz.
Parabéns!
tá votado mano,espero que todos se mobilizem ao ler isso.
abraço
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