Há coisas na vida que se repetem, atitudes, falas, que volta e meia retornam como um ciclo que se completa. Assim, já se cumpre há anos um ritual quinzenal: almoçar na casa dos meus sogros.
Chegávamos por volta da uma da tarde e nos alojávamos na cozinha, cada qual em sua cátedra. A cozinha era lugar de encontro, de harmonia. Mas, antes disso, tínhamos que cumprimentar o membro caçula da família: o Pelé.
Pelé era um belo melro pretinho, que quase falava de tão presente e amado por todos. Vivia na área de serviço, em gaiola solitária, junto aos outros dez canários coloridos e cantantes.
- Pelé!!!!!!! – Eu o cumprimentava, e nada: ele não falava comigo. Por várias vezes, tentei algum contato com aquele passeriforme, mas ele me ignorava. Aproximava-me de sua gaiola, e o danado fugia para o lado oposto, ou pior, às vezes, debatia as asas em fúria sinalizando total descontrole.
Domingos e domingos se passaram, e o Pelé continuava inabalável, sem assunto. Percebi, então, que, em todas as ocasiões que tentei uma proximidade, estava vestida com alguma peça colorida ou de estampas nada sutis. Meu sogro – que possuía extremo afeto por aquele – afirmava que o motivo do incômodo era a cor de minhas roupas. Senti-me agredida...uma de minhas características mais elogiada era o meu vestir. As pessoas admiravam e até copiavam muitos de meus modelos.
Num certo domingo, ao voltar da missa, pensei: hoje irei de branco, quero ver se ele terá a coragem de não me cumprimentar. Chegamos, como quase sempre, dez minutos atrasados. Pelé já estava aos berros – sim, era o único passarinho que não piava, mas berrava -, exigindo que fôssemos vê-lo. Não fui à área de serviço, continuei na cozinha imóvel, ignorei a obrigação de ir cumprimentá-lo. Sentei-me na minha cadeira de sempre, e pensei: “ele vai sentir minha falta”.
Demos início ao almoço. Como todo almoço de família, falamos sobre as novidades, as dificuldades, as doenças, robustecemos nossas picuinhas, ignoramos outras. Tudo dentro do esperado. Porém, eu, não conseguia me desvencilhar do pequeno pássaro. A cada garfada, eu aguçava o ouvido para conseguir ouvir algum piar. Nada. O queridinho não se manifestava. Falávamos, falávamos e ele não se intrometia em nossa conversa. Mantinha-se neutro numa elegância admirável. Por um momento, cheguei a pensar que o pretinho também revidava ao desafeto, por isso se calava.
Durante todo o almoço, não consegui responder a nada corretamente, somente exprimia “hum”, “sim”, “ta”, hãhã”. Estive alheia até mesmo ao pingo gelado que derramaram propositalmente sobre meu braço.
-Sobremesa?
-Hã...Ah?- não, obrigada, estou satisfeita.
-Nem uma bananinha assada? perguntou minha sogra.
-Mais tarde, na hora do café, respondi.
Minha atenção voltava-se, exclusivamente, para a gaiola. Eu tinha que acertar as contas com aquele penoso. Daquele dia não passaria. Não poderia deixar que ele: um bicho cheio de pena, roubasse a atenção de todos, no momento em que eu deveria ser o centro, eu era a visita.
- E, aí? Não vai olhar pra mim, não?
- Não adianta fingir que não está me entendendo.
- Sei que você faz de propósito, o que você quer é me desestruturar. Quer que todos fiquem com dó de você, achando que meu estilo de roupa não é apropriado para estar na frente de sua gaiola.
- Não adianta tentar me ofuscar com suas penas negras e brilhantes. Eu os abraço, falo e como com eles; você, de vez em quando, recebe um afago nesta cabeça minúscula.
- O quê? Olha pra mim, seja homem, assuma seus atos, seu covarde.
- Vou deixar uma coisa bem clara: a partir de hoje, quando eu vier aqui acompanhada de algum deles, você vai ficar bem quietinho, não vai sair voando de um lado para outro dentro desta coisa velha que tanto ama, chamada gaiola. Vai deixar eu chegar perto. Não precisa se preocupar que eu não vou colocar a mão em você. Até por quê, morro de nojo e não vejo graça nenhuma em afagar um passarinho. Se pelo menos você fosse um cachorro... Mas não é. O que não quero é que eles pensem que você não gosta de mim. Ou pior, que eu não gosto de você.
- Fofinha!
- Sim, estou aqui!
- E o que você está fazendo aí?
- Estou olhando o Pelé...puxa... o lindinho está precisando de uma gaiola nova.
Apenas para se divertir!!!
E me diverti.
Muito bom texto,parece até real rsrsrs
Fernanda, muito massa seu texto, moça. Prendeu a atenção do início ao fim.
bjo.
Fernanda, bela forma de divertimento menina.
Eu adorei: E votei.
Beijos
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