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Roadstar

http://quatrorodas.abril.com.br/imagem/543_brasileiros_targa_abre.jpg
1
baduh · Rio de Janeiro, RJ
27/9/2007 · 82 · 20
 

Naquela manhã de segunda-feira havia um pequeno e animado ajuntamento na sala do quinto andar dos escritórios de um banco estatal. Era gente que costumava madrugar no trabalho.

- Rapaz, o Jaime... quem diria...

Quem ia chegando e era inteirado da brincadeira, invariavelmente ria, às gargalhadas.

- Se em casa eu falasse em comprar um carro esporte, conversível, minha mulher me matava, só por causa da idéia...

- Ela sabe o marido que tem...

- Nada, rapaz! Meu nome está limpo. Mas, sentir vontade de ter um Miúra... ou um Puma... lá em casa, nem pensar! Seria levantar suspeitas sobre mim, que sempre fui um inocente...

O grupo ia aumentando, conforme outros chegavam ao escritório. Estavam num canto da sala, perto de uma muralha de arquivos - eram todos homens. Havia lá uma mesinha. Nela, numa pequena gaveta, oculto, um toca-fitas, encaixável, de bandeja - um Roadstar.

- Não condeno! Ninguém é de ferro... Mas também não precisava dar essa de super-maridão, de esteio moral, como o Jaime dá a entender...

- Vocês arranjam cada uma... como foi que aprontaram essa?

- Pura coincidência. E um nadinha de burrice... Um Miúra Targa vermelho, chama muito à atenção...

Um, que havia acabado de chegar e de saber da história perguntou:

- Mas, afinal, quem foi que pegou?

- Euzão aqui! Legitimamente separado... Cheguei ao estacionamento do motel e, bem ao lado da suíte que me calhou... o Miúra vermelho do Jaime. Todo mundo conhece... Ele vai às nossas partidas de futebol, de Miúra, às festas, de Miúra... Nem todo mundo pode ter um. E a placa a gente já sabe de cor...

- Se um vigia do motel te pegasse pregando uma peça dessas... e chamasse a polícia...

- Que nada! Aquilo é um lugar calmo, todo cercado, protegido. Não se vê quase ninguém. Foi tranqüilo, a capota estava recolhida, para facilitar...

Risadas. Vem chegando mais um, para saber do que se trata.

- E você vai devolver na frente de todo mundo?

- Mas claro que não! O cara é gente boa, afinal... Devolvo para ele, discretamente... Melhor! Vou enfiar na primeira gaveta da mesa do Jaime, quando ele bobear... E a gente fica de longe, observando a surpresa...

Mais risadas. Mas o pequeno grupo acaba se contendo, com esforço, porque a porta se abre e Jaime acaba de chegar ao escritório.

- Morreu alguém?

- Não, mas quase. O teu Flamengo perdeu, de novo!

- Enquanto aquele técnico burro não sair... Que vergonha!

- Teve um cara, um caixa, que na última sexta-feira apostou o bigode. Eu vi. Perdeu. Quero vê-lo hoje...

- Para mim também foi uma droga. Além de o meu time ter perdido, de goleada, me roubaram o toca-fitas!

- Ué, tu deu mole, Jaime?

- Eu sempre tiro da bandeja. Fico carregando pela alça ou coloco na maleta, se estiver de maleta. Mas a minha esposa, num minutinho que estacionou em frente à casa da mãe, esqueceu... Levaram!

Silêncio. Constrangimento. Até mesmo uma ou outra expressão de dor.


No horário de almoço, o escritório estava quase deserto.

- Vai devolver, vai contar?

- Não sei, acho que não tenho coragem. Entrega por mim.

- Desculpe, meu velho, não fui eu quem tirou...

- Mas... o que eu faço?

- Escolhe. Faz dele um infeliz, ou de ti um ladrão...

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informações

Autoria
Baduh (Fernando Antonio de Almeida Soares)

Escrivinhador nas horas vagas, brigão, coração de geléia, pândego, drámatico, contraditório, coerente... Enfim, um homem comum.
Ficha técnica
Para os mais jovens:
O Miúra era um carro esportivo, fabricado em número limitado, no Brasil. Não era coisa de milionários. Mas era caro.

O toca-fitas de bandeja chegou a ser uma instituição.

Símbolo de status mesmo era levar pela alça o toca-fitas para passear, para ir ao cinema, à praia... "Eu tenho carro!"

Dentre as marcas, o Roadstar, diretamente contrabandeado de Miami, ou, do Paraguai, (segunda-linha), era a melhor.
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Benny Franklin
 

Grande Badyh...
Contagiante texto que chego até ter saudades do tema. E o tema em si... Humm!?
Quem não se lembra do famoso toca-fita Rodstar?
Ah! Eu, pelo menos, cheguei a ter um modelo desses em meu carro. Fazia sucesso com as meninas...
Era um show! As garotas quando entravam no carro,
já iam dizendo: Ei! Rola o rodstar ai!
E o som comia na caixa, na cabeça e no centro...
Valeu Baduh!
Abçs. Benny.

Benny Franklin · Belém, PA 25/9/2007 12:49
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baduh
 

Obrigado, amigo Benny!
Não deixa de ser também um resgate, uma lembrança de uma época e do nosso comportamento.
Abração.

baduh · Rio de Janeiro, RJ 25/9/2007 12:53
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Saramar
 

De carros, não entendo nada, menos ainda de Rodstar, mas a história é muuuito boa!
Coitado do amigo do Jaime, que enrascada!

beijos

Saramar · Goiânia, GO 25/9/2007 15:15
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baduh
 

Obrigado, Saramar!
Ninguém gostaria de estar na pele deste amigo sem nome... ahahah
Beijos, obrigado.
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 25/9/2007 15:17
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Lobodomar
 

Badhu,... é maravilhoso esse texto, seja pela criatividade, seja pelo ácido bom-humor. Tomara não tenha sido 'baseado em fatos reais'. Grande abraço!

Lobodomar · Guarapari, ES 25/9/2007 19:37
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
baduh
 

Obrigado, amigo Lobo-do-Mar.
É pura ficção. No entanto, isto já pode ter acontecido em algum lugar do mundo... Já se sabe que, tantas vezes, a vida reserva surpresas... a quem deseja fazer uma surpresa... rs
Um abração,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 25/9/2007 20:41
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Sérgio Franck
 

Baduh, fiz o download, pois quero reler. Certa vez vi um puma amarelo á venda, lindo e conservado. Cheguei a sonhar acodado com o carrinho, mas quando voltei na outra semana, o carro já tinha sido negociado.

Valeu, amigo.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 26/9/2007 10:49
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baduh
 

Franck.

Também adorava o Puma, um carrinho lindo!

Devo, porém, lembrar a você e a todos os meus amigos (que certamente fazem uma leitura-dinâmica, num primeiro momento), que aqui os carros são meras desculpas para se contar um drama - com um impasse no fim -, num tom pseudo-humorístico e em pouquíssimas palavras, o que é um desafio para qualquer autor.

Desafio, num sentido parecido com aquele de se fazer um jogo de palavras-cruzadas, categoria "difícil"... rsrs

Abração do,

Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 26/9/2007 12:27
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Marcato Pereira
 

Que dilema, hein? E a vida é cheia deles, e de surpresas como a apresentada na estória. O melhor de tudo é a forma sutil como é colocado o drama da narrativa, que vai num crescendo, até atingir o clímax, sem perder o ritmo. Muito bom! Um grande abraço.

Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 26/9/2007 20:31
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baduh
 

Muito obrigado, Marcato!
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 26/9/2007 20:38
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Andre Pessego
 

Baduh,
já falaram o lógico do texto, vou pois falar da imagem
sabe que tive um carro com essa carroceria de fibra, só que era amarelo. .. o que me tiravam de sarro do carro, com motor 1600, me deu saudades, um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 26/9/2007 21:30
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baduh
 

Grande, André!
Os táxis aqui no RJ são amarelos... se fosse aqui... ahahahah
Abraço,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 26/9/2007 21:50
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Saramar
 

Voltei para votar nesta adorável história.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 27/9/2007 09:14
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baduh
 

Muito obrigado, Sarita.
Deixei lá um recado no teu perfil.
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 27/9/2007 11:23
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Sérgio Franck
 

Baduh, compreendo o que diz. No caso de textos elaboradíssimos como os seus, o interessante é fazer o download ainda na fila de edição e só comentar no instante do voto. É assim que farei apartir de agora.

abço.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 27/9/2007 11:43
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baduh
 

Puxa vida, meu poeta querido, Franck!
Eu compreendi que você iria ler somente depois.
Gosto tanto daqui do Over, de pessoas como você, como a Ize, o JJLeandro, o Adroaldo, a Saramar, o Oeiras, o Benny, rapaz... tanta gente maravilhosa... Isto aqui é o nosso lugar...
Grande abraço,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 27/9/2007 12:46
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jjLeandro
 

Um verdadeiro dilema para o rapaz que tirou o toca-fitas, hein? E boas gargalhadas para nós.
Aqui em minha cidade aconteceu um fato - real. Uma moça foi ao motel com o namorado, chegando lá viu a camionete do irmão num dos quartos ao lado. Ele era casado e, para lhe pregar uma peça, a irmã pegou o celular e ligou para ele. "E aí, tá no motel, hein? Tô vendo o carro aqui ao lado". Ele respondeu: "Não, tô em casa. O carro tá com minha mulher!"

Aconteceu como com o Jaime.

Dei boas risadas. Muito bom.
abraços

jjLeandro · Araguaína, TO 27/9/2007 16:32
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baduh
 

Muito obrigado, JJLeandro.
Essas coisas devem mesmo acontecer ou já ter acontecido muitas vezes. E sempre aquela coisa: quem quer fazer uma surpresa... acaba surpreendido!
Obrigado e um abraço do,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 27/9/2007 17:36
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j.alves
 

Muito bom

j.alves · São Paulo, SP 27/9/2007 18:30
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baduh
 

Muito obrigado, J.Alves, pelo carinho.
Um grande abraço.
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 27/9/2007 20:08
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