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Romário e A angústia da influência

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Pablo Capistrano · Natal, RN
27/5/2007 · 50 · 2
 


Na década de sessenta do século passado o crítico literário norte americano Harold Bloom teve um sonho estranho. Era como se um vulto, um anjo, ou um animal mitológico, não lembro bem, o sufocasse. A criatura lhe roubava o ar. Arrancava-lhe o oxigênio e, o impedindo de respirar, privava-lhe do sopro vital que o permitiria manter-se mais tempo no mundo dos homens. Esse estranho pesadelo fez Bloom pensar sua grande teoria crítica. Denominada de “Angústia da Influência”, a idéia de Bloom era simples. Nenhum poema se resolve sozinho. Todo texto é uma conseqüência de um texto anterior e o significado de um poema não está contido apenas em seus versos. Um poema traz sempre as marcas de poemas anteriores. Todo poeta tem um débito para com os mortos. São eles, os espectros dos velhos poetas, que assombram os jovens efebos, ameaçando-lhes privar do oxigênio necessário para que sua própria obra possa se preservar no tempo. Pois então. Assim como são as pessoas, são as criaturas. Olhando para o pênalti cobrado por Romário no último Domingo, na partida do Vasco contra o Sport em São Januário, eu lembro da angústia da influência. Certamente que, do mesmo modo que um poema nunca pode ser compreendido isoladamente, e sim dentro de uma rede de outros textos que deixam marcas em seu corpo; um gol nunca pode ser entendido por si só. Cada gol faz referência a um outro gol original. Um precursor. Um gol fundamental, marcado por um outro jogador que atua como espectro. Assim como Shakespeare é o centro do cânone poético do ocidente, de acordo com Hegel, Pelé está no centro do cânone futebolístico brasileiro. O gol de Romário no Domingo passado é um poderoso instrumento de canonização do gol de Pelé. As comparações foram inevitáveis. Dois gols de pênalti, dois gols no qual a equipe do Vasco da Gama esteve diretamente envolvida, dois chutes certeiros no canto do gol. Algumas diferenças fazem a desleitura de Romário. O goleiro Sport não pulou no canto certo; o gol não foi no maracanã; os jogadores do time adversário não vibraram e, graças a D´us, Romário, ao contrário de Pelé, ficou calado para não correr o risco de falar alguma bobagem. Esses são os detalhes que diferenciam os dois gols. Mesmo assim, o milésimo gol de Romário estará sempre fadado a ser lembrado como uma referência, como uma desleitura, uma releitura, uma citação ao gol do seu precursor, Pelé. Assim como o gol de Messi, pelo Barcelona na partida contra o Getafe, fez referência direta ao gol genial de Maradona na copa de 86, na partida contra a Inglaterra. Curiosamente esses dois gols estão atravessados pela angústia da influência dos craques originais. Assim como a maldição de todo poeta forte é ter vindo depois de Cervantes, Dante, Shakespeare, Goethe, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos, a maldição de Romário foi ter vindo depois de Pelé e ter marcado seu milésimo gol como uma espécie de homenagem ao seu precursor, como uma referencia indireta, distorcida, ao seu espectro. Buscamos vencer o tempo, ultrapassar a barreira da temporalidade fazendo com que nossas marcas permaneçam mais alguns anos depois que nós nos formos; depois que o peso dos dias arrastar nossa força vital, nosso sopro de vida. Depois que a memória do nosso nome comece a ser apagada da boca dos vivos, se tornando apenas uma mancha borrada na planície do tempo. Messi e Romário, na sua busca pela imortalidade, na luta por fazer com que sua herança permaneça viva por mais de uma temporada, no mundo instantâneo do futebol pós-industrial, acabaram por ajudar a canonizar seus ídolos. È o discípulo seguindo o mestre e honrando seu nome, mesmo quando tenta superá-lo. Coisas da angústia da influência.

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Pablo Capistrano
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Egeu Laus
 

Pablo,
Não tem nada a ver, mas tem: a capacidade que o futebol brasileiro tem de manter viva toda a sua história (escalações de 1930 são declamadas até hoje, jogos são descritos...) contradiz nossa frase predileta de "povo sem memória"...
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 27/5/2007 22:30
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Pablo Capistrano
 

Pois não é, Egeu.
Temos uma memória seletiva.
aprendemos a esquecer aquilo que parece não nos interessar, mas lembramos bem daquilo que nos apaixona.
e o futebol tem esse poder de apaixonar.
obrigado pela gentileza do comentário.

Pablo Capistrano · Natal, RN 29/5/2007 11:36
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