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Rosa
Renato Torres · Belém (PA) · 2/8/2008 10:05 · 114 votos · 34 comentários ·  
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overponto
a rosa morta e seca ergue-se da garrafa de vinho
tintura tão deserta, vertendo a cabeça mouca em desatino
eu penso nela – metáfora ressequida, vinho paralisado
assombro espantalho no desdém da embriaguez pretérita
tua fina carcaça resiste sem propósito no sótão da memória
a glória túmida tomba em languidez cadavérica, hirta
sobre a mirra postergada no altar, invenção tímida.

rosa, silenciosa desde antes, ao chegares vespertina
tinhas tua razão em adagas pelos flancos ainda vivos
decidias toda sina ao ferires as mãos claras da moça
e as minhas em poça úmida de vinho tinto e seco...ah!
desde então essa secura tua, essa sedenta cria dura
do estio, mesmo mergulhada, essa fala de poeira, essa pedra
resumida em pétala, governada em mistério, relicário mudo.

a rosa miúda rege o seu minúsculo destino
domando-o à rédea d’um fio fino, a linha vital
sangrando-a contínua de seu novelo rubro, umbral
do rouco veludo que agasalha desejos guardados.
e eu também aguardo, como em prece vigilante
a cor dar em si, erguendo-lhe a corola outra vez viva
outra vez ave migrante, outra vez antes,
como um fogo futuro de jardim.


tags: Belém PA poesia poesia-paraense vinho-tinto renato-torres a-pagina-branca rosa
 
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Autoria   Renato Torres
Ficha Técnica  

Poesia Paraense
Poesia Brasileira

Data   02/8/2008
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Poema cheio de metáforas, pode ser analisado de diversas maneiras, desde inspirar coisas leves às mais pesadas. Gostei de ler,
abraços caro overmano
Cristiano Melo · Brasília (DF) · 30/7/2008 20:33 
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Magnificamente bela!

Marca de um grande poeta comprometido com seu tempo e seu mundo. Palavras de ferir escuridão...
Uma das mais belas poesia/prosas que eu já li - esse ano - aqui no Over.

O resto é viajar na composição.

Forte abraço, mano.

Seu fã, Benny.

Benny Franklin · Belém (PA) · 31/7/2008 14:10 
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A mando, indireto, é verdade, do Beny, vim conhecê-lo. Grata surpresa.
Tua linguagem demnstra o quanto leu, uma cultura intrínseca traduzida nos versos prosáicos. A intenção escondida entre os versos, além de estilo, mostra uma mente inquieta. Isso é poesia, não aquelas baboseiras que escrevinho. Muito bom!
Marcos Pontes · Eunápolis (BA) · 31/7/2008 14:13 
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rosa, silenciosa desde antes, ao chegares vespertina
tinhas tua razão em adagas pelos flancos ainda vivos
decidias toda sina ao ferires as mãos claras da moça
e as minhas em poça úmida de vinho tinto e seco...ah!
desde então essa secura tua, essa sedenta cria dura
do estio, mesmo mergulhada, essa fala de poeira, essa pedra
resumida em pétala, governada em mistério, relicário mudo.


Renato, aqui fico lendo, lendo...copio, leio...
Transcende tudo Poeta. Reluz a alma pequena, ofusca tudo que não seja amor. Admiro vc e muito.
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 31/7/2008 18:58 
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É no entanto a rubra flor, tal o coração arrancado do peito que vai erguido em andor sem muito esplendor, trazido do fundo, das vísceras, arranhado, lanhado, estropiado qual a rosa do amor, mas venerado, ainda, acalentado, tanto, desejado sempre, como a vida é.
(Grato Cíntia, por esse alerta-convite que nos enleia com Renato em mais uma das melhores poesias que hoje temos)
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 1/8/2008 15:25 
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Olá Renato,
A rosa morta torna-se viva e linda, em bonitas metáforas encharcadas nos vinho tinto!
Abração

Branca Pires · Aracaju (SE) · 1/8/2008 18:09 
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lindo texto viajei, belíssimo.votei.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca (SP) · 1/8/2008 20:13 
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Meus votos com carinho!

beijo no coração
celina vasques · Manaus (AM) · 1/8/2008 20:17 
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Renato,
Volto a sentir a rosa, lutando sofrida com o vento para que se agarre em algum lugar, talvez no nosso sotão da memória... e tente espargir purpurinas em nosso canteiro da existência...Viajei, mas a sua poesia sempre é uma viagem, seja para a infância da saudade como para o infinito leve que ainda sonhamos...
Um abraço forte.
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 1/8/2008 20:33 
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Quantas garrafas de vinhos desertas sobre a mesa nos mira sem piedade, rosas secas com espinhos vivos em carne crua?
Magnífico!
brigitte · Goiânia (GO) · 1/8/2008 21:31 
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Renato,
rosa - "tua fina carcaça resiste sem propósito no sotão da memória"
Belo poema
bjss e votos.

Doroni Hilgenberg · Manaus (AM) · 2/8/2008 00:32 
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Querido Renato:

Tua rosa imortalizada
destino (es)colhido
d e s a t i n o

Colhe a rosa
que restou
Outra vez
mais uma
e outra
...
Recolhe cada desejo
Em prece ... Segue
...
Ela brotou
...

Belo ... Muito mais ainda ... Belo!

Beijos_Meus*
*
Lili_Beth* · Rio de Janeiro (RJ) · 2/8/2008 01:16 
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Sacramentado merecidamente.
Marcos Pontes · Eunápolis (BA) · 2/8/2008 01:51 
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Um prazer enorme conhecer tua arte ,Renato!!

Concordo plenamente com o Benny...uma das mais lindas prosas poéticas..que já li por aqui...
Em cada linha a poesia se derrama...encharcando a rosa ..até nela
a cor dar...e acordar o amor adormecido entre pétalas e espinhos...e o rubro desfazer a secura do vinho...na tinta doce do instante que se abre e faz das dunas os jardins de antes...

Encantada,Renato!!Sua poética me emocionou....de tão bela!!
Parabéns!!!

um beijinho azulzeninfinito...
Bluee

Raiblue · Salvador (BA) · 2/8/2008 23:54 
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Renato, de volta para os devidos votos.
Beijão
Branca Pires · Aracaju (SE) · 3/8/2008 08:10 
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A Rosa...Seca, colérica...pendente no galho é o não muito mais rosa. Fenecendo. A Rosa morta, como as que colocamos para secar entre os livros. Ainda é rosa. Inebriada no gargalo de vinho, alcoolizada, ainda rosa.
Gosto de rosas, nos livros, nos gargalos, e pendentes no galho.

Beijos!
Natália Amorim · Belém (PA) · 5/8/2008 11:33 
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A Rosa...Seca, colérica...pendente no galho é o não muito mais rosa. Fenecendo. A Rosa morta, como as que colocamos para secar entre os livros. Ainda é rosa. Inebriada no gargalo de vinho, alcoolizada, ainda rosa.

Gosto de rosas, nos livros, nos gargalos, e pendentes no galho.

Beijos!
Natália Amorim · Belém (PA) · 5/8/2008 11:34 
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cristiano,

bem-vindo, mano!... rosa é um poema que pesa finíssimo, bem acerca do que pressentes, mesmo. obrigado por vir!

abraços,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 6/8/2008 11:48 
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mano benny,

este poema faz parte de uma produção que, como bem observaste, tem a marca da prosa poética, sem deixar de ser um poema. é que havia muito a dizer, diante de circunstâncias que me davam muito a sentir... ter-te como leitor e fã é um privilégio que nem sei se mereço, mano!

abraços,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 6/8/2008 11:52 
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olá marcos,

que bom! seja bem-vindo! benny é um incentivador de leitores, e faz isso muito bem! fico feliz que não tenhas te decepcionado. a leitura, sem dúvida, pode produzir material que sirva à poesia, mas não é o suficiente. afinal, como já disse nietzsche, um século de leitores, e o próprio espírito terá mau cheiro! portanto, mano, ainda que considere bobagens o que estás a escrever (ainda não o li - depois te darei meu parecer...) segue escrevendo. a busca da poesia deve ser sincera, feita a humanidades.

abraços, e obrigado por vir1

r
Renato Torres · Belém (PA) · 6/8/2008 11:57 
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querida cíntia,

que amável a tua resposta!... fico imaginando como ficas lendo... é mesmo de uma atenção e delicadeza que me comovem - marca de tua imensa sensibilidade. e acertas em cheio: amor. rosa é um poema de amor, afinal. desencantado, mas com aquela esperança que retine ao final, num suspiro.

sempre feliz de te ver nos comentários!

beijos,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 6/8/2008 12:01 
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adroaldo, mano,

esta rosa - a metáfora múltipla, como apontou cristiano - arde no peito, na garrafa, nas veias, no jardim. não importa. a nós, que escrevemos e lemos poesia restará essa alegria, a de reconhecermo-nos, e nos repossuirmos através de tal reconhecimento. fico grato pela indicação de cíntia, e pela tua atenção de irmão poeta.

abraços,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 6/8/2008 12:10 
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branca,

esta rosa - um presente delicado num momento de dor - permaneceu na garrafa nessa possível esperança de ressurreição durante meses no meu quarto. a desenhei, a observei e orei a ela, como a um cristo crucificado (uma metáfora secreta). penso agora em como esse simbolismo bíblico subjaz ao que escrevi...

obrigado por ler e comentar!

beijos,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 6/8/2008 12:15 
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olá w. marques,

bem-vindo! obrigado pelo teu gostar. espero que aprecie os outros textos já postados aqui no overmundo!

abraços,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 6/8/2008 12:18 
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olá celina,

seus votos e seu carinho recebo de coração aberto! obrigado...

beijos,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 6/8/2008 19:41 
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Que lindo!!! Muito belo...Metaforas perfeitas, que fazem a gente pensar em varias outras imagens...Votado...

http://www.overmundo.com.br/banco/com-outros-olhos

grande abraço
Marianne Outeiro · Uberlândia (MG) · 19/9/2008 10:00 
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cíntia,

multiplicam-se-me as alegrias possíveis, em sorrisos que o corpo dá por toda parte, as dádivas ocultas da arte, o sopro sensciente de ventos imemoriais, a ourivesaria dos encontros. é realmente feliz esse nosso encontro na palavra.

beijos,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 22/9/2008 11:54 
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brigitte,

não saberei dizer quantas, mas a minha memória desta específica à qual o poema se refere jamais perecerá. porquanto, o poema.

beijos,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 22/9/2008 11:56 
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doroni,

obrigado pela leitura e comentário...

abraços!

r
Renato Torres · Belém (PA) · 22/9/2008 11:56 
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lili,

será que colhemos o que escolhemos? talvez. de todo modo, quase sempre deitamos fora a flor que ora tínhamos à mão (a esqueci na calçada só por esquecer, diria o chico science...). neste caso eu decidi ficar com ela até o fim do fim. a garrafa, o vinho, tudo na verdade estava impregnado de obsolescência, de ausência. mas uma ausência que estava ali.

beijos,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 22/9/2008 12:00 
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marcos,

se mereço, dirás tu. agora, agradeço!

abraços,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 22/9/2008 12:03 
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blue,

por vezes escrevo com tanto jorro que acaba assim, um poema com cara de prosa poética... mas não penso nem numa coisa nem noutra quando escrevo... apenas escrevo. costumo pensar em tudo como poesia (e o quintana diz que a poesia é sempre outra coisa, diferente das outras linguagens... inclusive da própria poesia). feliz com teu encantamento!

beijos,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 22/9/2008 12:07 
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valeu branca...

beijo,

r
Renato Torres · Belém (PA) · 22/9/2008 12:08 
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natália,

vivemos entre o ser e o não ser, não é mesmo? portanto, a rosa é e não é, enquanto vive, e também enquanto morre, rediviva em matérias outras, atravessada ao meio pela seta sígnica da poesia, sob a marca do verbo infinito. para além do infinitivo, o superlativo-invocativo.

beijos!

r
Renato Torres · Belém (PA) · 22/9/2008 12:16 
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