Rugido
Para meu mestre, Carlos Moore Wedderburn
Não há Renascimento em nossa Terra
Há a inevitável inserção do corpo e da alma
No confronto à hecatombe anunciada por você
Ponte visível entre as margens invisíveis
O método nefasto do grande mito continental
Funda-se o alçamento do castelo de nossas mais novas ilusões
Revestimento do contrapiso da catástrofe já sedimentada
Nova face da velha história que sempre ajudamos a construir
Você promove o desmanche do nosso edifício colonial
Passo a passo, peça a peça, pessoa a pessoa
Só mesmo você desnuda diante de meus olhos incrédulos
[ esta nova miragem
O seguimento da farsa que me vi envolvido
Os descaminhos dos que ficam
Os desvios na dispersão
O frio sangramento dos filhos fiéis
A última queda da Mãe
Rugido de rara clareza e incrível tensão
Anúncio bélico
A descoberta da face sombria do Movimento sem condução
A ira arrancada da gramática que rompe
Voz dissidente que estilhaça a máscara revolucionária
[ da nova opressão
Dissolve seu simbolismo sagaz
A ardilosa apropriação, o furto, a diluição hipócrita
A lama oportunista
A mancha que se estende
A nódoa sobre os mais salutares tecidos afro-revolucionários
Sua timbragem de rara exceção é o alicerce que não se elastece
O vigor que não se dobra
O pacto profundo da consciência Pan-Africana
Os pilares paradigmáticos de Kwame Nkrumah
Metonímia que bem representa a fidelidade de sua abnegação
A gratidão com que você coloca o peito aberto ante a ilusão
[ que no guia
Ante os predadores de fora e de dentro da nossa gente preta
Tendo limpado minha consciência perdida de ignorar tantas cruezas
A têmpora dos que não têm acesso à restrita casa grande
[ das informações
Não mais imito o trânsito inconseqüente nas esferas
[ do poder estranho a nós
Obrigado por coroar minha cabeça finalmente
Com a semente que se faz brotar do entendimento definitivo
Da nascença das razões reais do continente
Da nova estampagem de meu semblante
[ agora coberto de cumplicidade
Quando você se inscreve de corpo e alma na luta
Quando você escreve seu sempre ponto seguimento
Na sequência visceral das indagações
Na proposição do comportamento do homem íntegro
Na indubitável concretude do relato da história
Na experiência imediata do abandono da dor da miséria da morte
Na dedução catastrófica para o passado e o futuro
Na blindagem ao que se é dito quando se está sentindo
Não na única versão dos fatos
Senão no fundamento da sinceridade
Na coragem que nos interessa
Na verdade que pode nos apontar caminhos
Nelson,
Pôxa, que poema lindo!
Parabéns!!!
Um aBRAÇO, Marluce
Valeu.
Seu comentário quase imediato vem como um afago,
pois o poema reflete uma grande trizteza.
Nelson Maca
Bravo!
Nélson.
Forte a voz, ainda que na tristeza, prenhe de beleza.
É isso, parceiro!
Tristeza e belaza se compeletam.
Você já leu "Filosofia da composição" de E. Alan Poe?
Ele fala um pouco disso.
Mas a minha tristeza é constatação definitiva de um grande mito que me orientava desde criança:uma "África Una".
Valeu pelo comentárioo!
Beleza!!
Nossa!, como estou errando esta grafia!!
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