S E R I D Ó: marcas do homem e da terra

Hugo Macedo
1
FILIPE MAMEDE · Natal, RN
12/6/2008 · 145 · 22
 


Ao divisar a micro-região seridoense, temos a impressão de contemplar terras do Oriente. Mas, apenas a impressão. A diferença está na alma do homem serrtanejo – seus desejos e desesperanças; seus saberes e crenças; seu amor e desamor.

Aos nossos olhos, sua paisagem agressiva de cactus espinhentos, arbustos ralos e secos contrastam com o pouco verde de árvores maiores, conferindo-lhe uma beleza singular. O ipê amarelo e roxo; as tamarineiras; os umbuzeiros; as craibeiras e mangueiras oferecem ao caminheiro sombra e frescor o ano inteiro. Pedras multiformes formam tapetes coloridos, desde a chã até os píncaros das serras.

De longe, as serras azuis parecem abraçar as cidades. Essa beleza é serpenteada, no inverno, por pequenos córregos ou riachos e rios, que depois se transformam em açudes, barragens e cisternas. Poços artesianos, perfurados pelo homem, possibilitam vida em tempo de seca.

Dos cactus brotam flores alvas - como a flor do cardeiro, parecendo estrelas no anoitecer sertanejo! Faxeiros assemelham-se a dedos de um amarelo aveludado, em gestos que apontam para os céus como a pedir o milagre da chuva. As gitiranas, boa-noites, e resedás campesinas perfumam e colorem a paisagem em tempos de chuva. A visão de árvores mortas, ressequidas são temas para a criação de poetas, pintores, escultores e fotógrafos, que as registram com seus múltiplos olhares.

Ao amanhecer, borboletas coloridas dançam ao sol; pererecas e pássaros oferecem uma sinfonia, num espetáculo que parece nos dizer da sua liberdade e beleza, anunciando ao homem do campo que é tempo de começar suas lides.

Dos currais, ouve-se o mugido das vacas e bezerros, atendendo ao chamado da voz/aboio do vaqueiro, ao cumprir a missão/legado da vida. Após esse ofício, porteiras e cancelas escancaradas, o vaqueiro devolve os animais aos cercados, onde a rama e a babuje são suas frugais refeições. Mas isso acontece no inverno. Na seca, os campos verdejantes são permutados pela refeição no cocho - a comida de “hotelâ€.

Será verdade que o homem do Seridó é, “antes de tudo, um forte� Sim. É verdade que somos um povo diferente, fundamentados em valores que nos distinguem pela mistura da herança dos que primeiro pisaram este solo. Em nossas entranhas há uma força oculta - um misto do entusiasmo, da coragem dos povos que desbravaram nossas terras; e uma ternura paradoxal, uma alegria contagiante, um desprendimento, um amor sempre pronto à doação.

Nosso coração é sempre receptivo a um abraço, um aperto de mão. Somos da paz. Somos um povo que abre as portas da casa aos visitantes. Na ação de recepcionar, oferecemos a simplicidade e o melhor dos nossos verdadeiros alimentos sertanejos: rapadura, feijão macassar, batata doce, cuscuz, bolacha, paçoca, carne assada, farofa de bolão e água do pote. Um tamborete, um simples banco de madeira, uma espreguiçadeira, uma rede gostosa no alpendre são os sinais de nossa augusta tradição, marcas da gente e da terra. À noite nossa conversa no alpendre ou na sala é franca, comprida, contando “causosâ€, estórias, anedotas. No terreiro, um sanfoneiro sozinho faz a festa.

A cachaça esquenta o corpo, anima a alma, a palavra. E, noite a dentro, as alegrias, os bons momentos vão se misturando às histórias de seca, de doenças, de botijas e de desejos nunca alcançados, transformando o grupo, tornando-o homogêneo nos pensamentos, emoções, sofrimentos e alegrias. E, ao raiar de um novo sol, as lides do campo retornam. E o homem do sertão repete o seu fazer ao calor de um dia escaldante. Limpa o suor da testa; olha pro céu e reza sempre: pede a Deus saúde e proteção para a família, e que mande chuva no dia de São José!...
E, depois, olha pro céu!...


Maria José Mamede Galvão
Professora Aposentada da UFRN/Campus de Currais Novos

Sobre a obra

Este texto foi produzido pela minha querida avó paterna. Mulher das letras, sempre gostou muito de poesia e leituras. Aos 75 anos escreveu recentemente um livro contanto um pouco sobre a vida que levou pelas salas de aulas simples pelo interior do Rio Grande do Norte, quando lecionava em sítios e onde quer que fosse. Atualmente, ela tem mantido uma coluna num jornal do Estado onde brinda, semanalmente, os leitores com sua visão de mundo.

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Maria José Mamede Galvão
Professora Aposentada da UFRN/Campus de Currais Novos
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Cintia Thome
 

Família de letrados, não precisa dizer mais nada(rs)
Excelente postado. è admirável.
ab Filipe

Cintia Thome · São Paulo, SP 11/6/2008 00:39
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FILIPE MAMEDE
 

Não sei se tenho futuro, mas acredito ser coisa de sangue mesmo...
Obrigado pela visita Cintia. Eu falei da minha vó sobre este espaço, mas ela ainda está engatinhando em termos de internet. Mas já já ela estará aqui sozinha desbravando terras overmundanas.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 11/6/2008 08:49
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Cintia Thome
 

Herdamos, mas depende de nós polir e você faz muito bem!
Seria muito bom ter mais uma companheira assim...Um abraço

Cintia Thome · São Paulo, SP 12/6/2008 12:28
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Doroni Hilgenberg
 

Exelente registro da vida e do homem do campo. Essas pessoas que amam a terra, pedem pouco, se contentam com o necessário e nós transmitem uma imensa paz. Belo texto, e que sua avó, logo se faça presente entre nós. Parabéns!!!!

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 12/6/2008 16:56
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eberoliveira
 

Linda foto, mas depois eu volto para ler o artigo. Estou indo votar...

eberoliveira · São Paulo, SP 12/6/2008 18:07
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Nic NIlson
 

Meu Deus! Gente, este texto de não-ficcao, mais tem alma de poema, de oração. Parece ate que a gente ta badalando, etc e tal, Mas gentes...... gostei demais. Falou fundo na m inha alma. Lembrei da minha terra, lá em Cabo Verde... Lembrei da roça e dos retalhos da vida.
Vovó, a sua bençao, minha querida!

Nic NIlson · Campinas, SP 12/6/2008 21:59
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FILIPE MAMEDE
 

Nic, a Vó é minha e ninguem tasca (risos). Vou falar pra ela que o pessoal tá gostando. Um abraço a todos.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 12/6/2008 22:32
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MarcilioMedeiros
 

Filipe,
Maravilhoso o texto e a lembrança da região do Seridó, possuidora de um patrimõnio cultural e físico inestimável, em que destaco as inscrições rupestres, a gastronomia, a topografia, com suas muitas serras, e o povo, que é extremamente alegre e festeiro.
Visitem: http://www.roteiroserido.com.br/.
Abs,

MarcilioMedeiros · Aracaju, SE 12/6/2008 22:41
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j.alves
 

Parabéns pelo belo texto e relato de outras regiões e das pessoa desse nosso Brasil. um abraço

j.alves · São Paulo, SP 12/6/2008 22:55
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Alice Poltronieri
 

Que beleza Felipe que conserves essa sensibilidade e reconhecimento pelos valores de sua família, é maior riqueza q podemos cultivar.

Belo texto poetico e de valor cultural histórico imenso.
Parabéns!
votos

Alice Poltronieri · Porto Velho, RO 12/6/2008 22:58
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Ailuj
 

Adorei mesmo,esse povo nordestino é muito inteligente mesmo,,,rsrs
Os que não sao poetas ,são escritores, artesãos humoristas
nossa,como são versáteis
Filipe essa que vos fala [ou vos escreve?]é uma autêntica nordestina filha de poeta repentista e que herdou um pouco de repente do pai,embora não faça disso uma constante nos textos
Um beijo e votos

Ailuj · Niterói, RJ 12/6/2008 23:00
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Branca Pires
 

Puxa, que coisa linda e gostosa de ler!
É um pedaço da nosso sertão.
Muito bem versada!
Parabéns pela vovó linda que tens!
abraços

Branca Pires · Aracaju, SE 13/6/2008 00:09
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W@nder
 

Beleza de texto. Descrição impecável do guerreiro que é o sertanejo. A foto contrastando a seca e o verdejante está, da mesma forma, impecável.
Grande abraço.

W@nder · Rio de Janeiro, RJ 13/6/2008 07:39
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Andre Pessego
 

Felipe, meu reporter,
Voce está em casa. Não é por acaso o dom e o estilo para narrar. E como se dizia ainda ha tão pouco tempo - "possui um faro para as matérias" e agora as imagens. Sempre que um jovem despontava com pendores para o jornalismo, diziam os mais experiente.
Este retrato é o máximo. Vou reler o texto da sua avó.
Diga-lhe, por favor, (pra dizer mesmo) fiquei maravilhado
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 13/6/2008 15:50
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azuirfilho
 

FILIPE MAMEDE · Natal (RN)
S E R I D Ó: marcas do homem e da terra
Amigo Querido Um Trabalho Admirável.
Uma Mulher extraordinária,
uma terra táo bonita,
uma gente táo digna,
Um texto táo gostoso de ler.
As razóes pra gente crer e amar a nossa terra e a nossa gente.
Gostei muito.
Mestra Cintia que me informou do seu trabalho.
Uma indicação abençoada.
Parabéns pelo Trabalho tão bonito e útil. e,
por ser Neto de Uma Mulher tão Maravilhosa.
Abração Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 13/6/2008 19:35
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Josimar Domingues
 

Belissimo texto, descrição mais detalhadamente apaixonada não há!
merece todos os votos e aplausos!

Josimar Domingues · Teresópolis, RJ 14/6/2008 00:45
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Rubenio Marcelo
 

Um texto magistral. Escrito com maestria. Tanta é a força das palavras (e linguagem), que a gente parece se encontrar no meio da paisagem, sentindo o cheiro do mato e ouvindo as coisas do sertão.
Parabéns.

Rubenio Marcelo · Campo Grande, MS 16/6/2008 15:02
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Cida Almeida
 

Filipe, que texto lindo o da tua avó. Parabéns, dona Maria! Gostaria muito de ler o livro da tua avó sobre a vivência dela em sala de aula.

Grande abraço.

Cida Almeida · Goiânia, GO 16/6/2008 15:18
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graça grauna
 

...que maravilha de texto, de amor a terra,de memória.Estou encantada com a beleza desta sabia mulher que sabe dos costumes sertanejo: rapadura, feijão macassar, batata doce, cuscuz, bolacha, paçoca, carne assada, farofa de bolão e água do pote..
Parabens.Quero ler o livro da escritora M.José Mamede. Bjos.

graça grauna · Recife, PE 17/6/2008 10:08
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graça grauna
 

...que maravilha de texto, de amor a terra,de memória.Estou encantada com a beleza desta sabia mulher que sabe dos costumes do sertanejo: rapadura, feijão macassar, batata doce, cuscuz, bolacha, paçoca, carne assada, farofa de bolão e água do pote..
Parabens.Quero ler o livro da escritora M.José Mamede. Bjos.

graça grauna · Recife, PE 17/6/2008 10:09
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FILIPE MAMEDE
 

Ontem à noite, mostrei para minha vó a repercussão das suas percepções em terras overmundanas. Ela ficou maravilhada com o espaço e com o feedback proporcionado por conta dos comentários instatâneos. Próxima vez que eu for à Currais Novos, interior do Estado, lugar onde ela reside, vou tirar algumas horas pra ensiná-la a navegar e participar desse espaço, que é um verdadeiro escambo cultural. Um abraço à todos que estiveram por aqui.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 17/6/2008 10:35
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PintoSabugi
 

filpe gostei e votei.
se puder, veja meu texto sobre São João do Sabugi na fila de votação do Guia.

PintoSabugi · São João do Sabugi, RN 20/6/2008 17:53
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