Maricota era filha de pescador. Sua mãe era costureira. Os pais morreram quando ela ainda era uma criança. Vivia num ambiente de privações materiais. Aprendeu o ofÃcio da mãe e também se casou com um pescador: Valdomiro. Tiveram dois filhos, que depois de crescidos, não seguiram a profissão do pai. Maricota e seu marido moravam no sul da Ilha, vivendo da pesca e da venda de algumas rendas. Quando os turistas visitavam a cidade na alta temporada do verão, era possÃvel elevar a renda familiar. Maricota era uma dessas mulheres rudes, indiscretas, que vive nas janelas espalhando fofocas sobre os vizinhos e as infidelidades conjugais dos maridos das ‘amigas’. Maricota tinha a lÃngua solta, os traços cavernosos, a aparência bruxólica.
Os vizinhos já tinham se acostumado com as histórias de Maricota, de suas proezas na arte de bordar e fazer renda. Maricota falava, falava, falava, com uma rapidez sem igual. O chiado de suas frases entrecortadas e a melancolia de seu universo paupérrimo representava suas únicas alegrias. Seus quarenta e cinco anos de idade denotavam, praticamente, uma mulher sexagenária. O rosto envelhecido, a magreza anêmica e o xale negro – em memória dos pais – davam-lhe contornos ainda mais assustadores. Gabava-se de suas adivinhações. Intitulava-se a ‘feiticeira do Ribeirão’ e ria muito das crianças que tinham medo de serem amaldiçoadas pelas suas magias. Maricota era uma infeliz. A tapera pequena não lhe dava muito trabalho. Trazia o velho rancho organizado, com parcas provisões, suficientes para ela e o marido. Praticamente, todos os dias, aquela cena se repetia:
- Miro, é você? Ô, ‘istepô’! Tá bêbado de novo! Vai curar tua bebedeira longe de mim, infeliz!
- Maricota, me cuida, mulher!
- Vá te danar! Dorme longe de mim. Não quero bafo de cana do meu lado...
- Uns dengos pelo menos...
- Mofas com a pomba na ‘balaia’!
- Sua ‘malina’! Cadela! Olha que eu avanço em ti, mandriona!
- Tu não fazes é nada! Um bêbado de merda é o que tu és! – aquilo se repetia com freqüência. Maricota pegava um chicote que pertencera ao pai e batia em Miro com todas as forças. Miro, fragilizado pelo álcool, mal conseguia ficar em pé. Maricota batia e se deliciava com a surra. O corpo de Miro apresentava marcas de outras surras e, no dia seguinte, contava a mesma ladainha para os companheiros de pesca:
- Um sem-vergonha encrencou comigo no bar do Chico e nos rebocamos pelo chão. Fiquei com o lombo lanhado. A desforra foi boa. Nunca mais encrenca comigo o ‘istepô’ – os outros pescadores se entreolhavam num misto de complacência e achincalhe. As surras de Maricota não eram segredo para ninguém da vizinhança.
Certo dia, Miro amanheceu enfermo. Não tinha forças para se erguer da rede. Já não dormia com Maricota há muitos anos. Maricota ao vê-lo na rede deu de mão no chicote e ameaçou espancá-lo, caso não fosse trabalhar:
- Olha aqui, mandrião, são oito da manhã. Vai trabalhar ou já quer levar uma surra? – Miro que sempre resmungava qualquer coisa, quase não respirava. Gemia. Até que o silêncio se fez pleno. Maricota chamou Zé Baleia para acudi-lo. Já era tarde. Miro morrera naquela manhã. O laudo médico identificou uma cirrose hepática e perfurações mal curadas na região abdominal. Os pescadores fizeram uma caixinha para realizar o enterro do companheiro. Os filhos vieram para o enterro do pai, mas nem chegaram perto da mãe. Os ilhéus têm uma enorme dificuldade com o diálogo. São rudes, desconfiados e gostam de umas mesquinharias. No ambiente familiar são estranhos entre seus pares.
Durante o velório, dezenas de mulheres embalaram o último sono do morto, através de cantilenas deprimentes. Os velórios são sempre dolorosos. Os filhos de Maricota depositaram uma coroa de flores no caixão do pai. Nenhuma lágrima. Secos. Olhares vÃtreos. Não dirigiram uma única palavra à mãe. Maricota fora uma mãe severa. Não queria que os filhos estudassem na ‘cidade’. Miro queria que eles tivessem um futuro melhor, embora considerasse a profissão de pescador digna como qualquer outra. A morte de Miro não trouxe nenhuma comoção à Maricota. Os anos de casamento a confinaram numa existência tosca e sem aventura. Quando moça, Maricota não era de se ‘jogar fora’. Tinha suas paixões secretas, mas o homem que sempre amou - João Tomás - acabou se casando com uma conhecida sua. Por este motivo, Maricota vivia inventando histórias de que João Tomás era um mulherengo, só para a esposa se separar dele.
Quando conheceu Miro, Maricota já era mulher feita. Miro não lhe atraÃa, mas como odiava a tia com quem morava, resolveu um dia se entregar para Miro na pequena casa em que ele morava. Maricota não sabia muito bem o que fazer. Miro ergueu seu vestido e abriu suas pernas e, em poucos minutos, gozou. Maricota nem sequer gemeu. Nunca gostou de Miro. Nunca sentiu prazer. A gravidez obrigou Miro a casar com Maricota. A cerimônia de casamento fora muito simples.
Maricota voltou para casa depois do velório. Suas memórias aguçadas revelavam a mesquinha existência. Sua casa permaneceu fechada por cinco dias consecutivos, o que causou estranheza à vizinhança. Arrombaram a porta da casa. Maricota estava morta há pelo menos dois dias. Enforcara-se com o xale preto da avó. Não se ouviriam mais histórias de cornos, nem os gritos das surras sofridas por Miro. O silêncio, embora real, estava insepulto no imaginário de quem a conhecera. Intuitivamente, aquela gente tosca, de sonhos minúsculos, reconhecia a tragédia anunciada de Maricota e, talvez, a de suas próprias vidas.
Descrição de tipos caracterÃsticos da Ilha de Santa Catarina, entremeada com o folclore regional. Maricota é sinônimo de 'mulher-mandona' e 'autoritária'. Neste texto, a verdadeira face de Maricota é revelada pela aspereza de sua existência.
Este texto é bastante dramático e, embora, apresente elementos verÃdicos, trata-se de uma amálgama ficcional. Boa leitura, overmanos! Égab.
Égab · Florianópolis, SC 24/2/2009 13:23
Maricota foi morta pelos resquÃcios da própria maldade !
Muito legal esse texto, Egab !
história triste , mas que pode ser a história de muitas Maricotas por esse mundão. Beijo
Angélica T. Almstadter · Campinas, SP 25/2/2009 18:27ótimo texto, gostei muito.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 25/2/2009 18:27Angélica, realmente é uma história triste, mas como bem disseste, é o retrato de muitas Maricotas por este planeta. Obrigado pelo incentivo, W. Marques. Égab.
Égab · Florianópolis, SC 25/2/2009 18:40
Égab, querido, vc tem um poder de descrever as personagens e o espaço da narrativa de um forma tão rica em detalhes, que a gente parece que está ali, diante do acon_tecido...
A Maricota durona e autóritária, tanto quanto a vida foi com ela....texto que traz aspectos regionais interessantes....uma história triste..uma ficção baseada em fatos verÃdicos...temos muitas Maricotas e muitos Miros por aÃ...
Parabéns,mais uma vez,querido, pela competência da narrativa!
um beijo bluecarinhoso
Rai
Matriarca levada da breca! Excelente texto... abraços.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 26/2/2009 03:14Destinos amarrados pelo trágico! Beleza de postado meu caro! Dava para render um romance!
raphaelreys · Montes Claros, MG 26/2/2009 06:52Adorei meu amigo, já estava com saudades do seu trabalho.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 26/2/2009 09:31Obrigado pelos comentários. Juscelino e Raphael. O incentivo de vocês é fundamental para que continue escrevendo. Eu também estava com saudades de você e de seus comentários, Clara. Abraços, Égab.
Égab · Florianópolis, SC 26/2/2009 11:45
Obrigado, Airton. Aguardo teus novos escritos...
Égab · Florianópolis, SC 27/2/2009 14:40
Egab,
Legal o seu texto
amor é uma doação
e pessoas que não tiveram essa dádiva não sabem viver,
se tornam autoritarias, arrogantes e falsas.
b js
Obrigado, Doroni. Embora dolorido, é próprio do humano. Grande abraço, Égab.
Égab · Florianópolis, SC 10/3/2009 01:25
Uma vida tão melancólica só podia terminar deste jeito. Na verdade, a Maricota só existiu durante anos. Não conheceu a melhor coisa dos sentimentos, de ter afeto e amor pelas pessoas.
Desta forma entendo porque ela tinha uma aparência bem mais velha do que deveria ser. Tanta amargura remoe as entranhas e marca o corpo.
Parabéns pelo texto.
Votado.
Obrigado pelas palavras sensÃveis, VinÃcius. Grande abraço, Égab.
Égab · Florianópolis, SC 18/3/2009 14:10Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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