Luiz Gonzaga sempre foi um conservador no que se refere à política. Ele tinha horror aos políticos denominados de esquerda. Havia servido nove anos no Exército brasileiro (1930 a 1939) e aprendeu a admirar os generais. Dutra foi um grande amigo seu. Inúmeras vezes ele foi chamado para abrilhantar como músico os saraus presidenciais. Até na recepção a Eva Perón o sertanejo puxou o seu fole de 120 baixos, tocando valsas, choros e logicamente tangos. O seu famoso prefixo musical, a música "Boiadeiro" era de dois ex-militares (Armando Cavalcante e Clécius Caldas) os quais Luiz conheceu na caserna.
Assim sendo não foi nenhuma surpresa quando declarou seu apoio incondicional ao regime de exceção de 1964. Logo no início do governo Médici decepcionou meio mundo de gente que gostava das suas músicas antigas de protesto: "Vozes da Seca", "Ai seu Generá" e "Andarilho", gravadas nas décadas de quarenta e cinqüenta. Entre os artistas decepcionados estavam Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré etc. Seu Luiz Gonzaga chegou a dizer que "não havia tortura no Brasil"! O mais triste de todos com esse comportamento era o seu filho Gonzaguinha.
Pra seu desespero, no próprio governo Médici, Luiz foi chamado ao departamento de censura da Polícia Federal para ouvir que dali pra frente não poderia mais cantar três músicas nos seus shows: "Vozes da Seca", "Paulo Afonso" e "Asa Branca". Censurar "Asa Branca", por que? Ora, se a Censura era um monstro sem cabeça não adianta nada ficar perguntando por isso. A verdade é que o tenor sertanejo ficou muito revoltado!
E os casos de denúncias de tortura na imprensa foram aumentando até culminar com o "suicídio" do jornalista Vladimir Herzog em outubro de 1975. Depois disso, em janeiro de 1976, a morte do operário Manuel Fiel Filho também nas masmorras da ditadura em São Paulo. Foi aí que ele se reuniu com o advogado, compositor e músico cearense Humberto Teixeira e ambos fizeram aquela que seria a última música da parceria famosa, "Salmo dos Aflitos" ou "Abrandai". É uma música de protesto leve, um bendito sertanejo em ritmo de valsa com uma letra tocante, que hoje está mais atual do que nunca. Gonzaga aguardou que a censura abrandasse um pouco (governo Geisel) e no seu disco de 1978, "Dengo Maior" a incluiu. E em 1980, já no início do governo Figueiredo gravou também de Geraldo Vandré a festejada "Caminhando" ou "Pra não dizer que não falei das flores". Reabilitou-se assim plenamente perante a sua imensa legião de admiradores. E em 1981, finalmente, fez as pazes com Gonzaguinha de quem tinha se afastado principalmente por razões ideológicas.
Li no jornal "O Globo" que um neto do cantor, Sandro Luiz Gonzaga Marques, 35 anos, policial civil do Rio de Janeiro, foi executado por assaltantes após descobrirem a carteira de policial do rapaz. Seu corpo foi encontrado em 19/09/08. Era filho único de Rosa Maria Gonzaga Marques, a Rosinha, irmã de Gonzaguinha. Ele vinha planejando se afastar das atividades na polícia para se dedicar exclusivamente a um projeto de produzir um filme sobre a vida do seu avô. Até o cineasta já tinha contratado, porém a violência não deixou!
Essa foi a notícia ruim porque a boa sai do Recife: a prefeitura inaugurou recentemente no Pátio de São Pedro, bem no centro da cidade, o Memorial Luiz Gonzaga. Além de inúmeras fotografias, o visitante encontrará o seu acervo musical completo e poderá até escutar a música que desejar na proporção em que as músicas estão sendo digitalizadas. A prefeitura do Recife comprou toda a coleção de discos de 78 rotações e também a de LPs do cantor que pertenciam a um colecionador. Mando com muito prazer pra vocês o link onde poderão ouvir o saudoso mestre de Exu cantando "abrandai o coração dos ignorantes/ abrandai, abrandai, abrandai", que cai como uma luva pros assassinos do seu neto. Ou então "abrandai o coração de todos os poderosos/abrandai, abrandai, abrandai" que foi um recado pros torturadores e seus cúmplices de altas patentes. A música ainda hoje é um bálsamo para os dias violentos e sofridos da nossa rotina!
A censura do regime militar de 1964 na obra de Luiz Gonzaga. A história da música "Salmo dos Aflitos" ou "Abrandai" de 1976 gravada no seu disco "Dengo Maior" de 1978.
Relato de respeito que você faz, Zé Preá.
Sou da geração do Gonzaguinha e conheço bem as posições políticas do grande compositor e cantor que se foi muito cedo e de forma trágica.
Surpreso fiquei com o Gonzagão.
Sabia de sua alienação política mas desconhecia os atos da censura da ditadura militar.
Luiz Gonzaga já passou à História como um grande cantador do povo.
Agradeço muito a lição e a indicação do site.
Seu texto é emocionante, pela intenção humanista que contém.
beijos
Obrigado pelos comentários de vocês e os aguardo na votação. Abraços do
Zé Preá
"Bom texto, como sempre, Preá.
Quanto às posições políticas, acho que "cada um na sua": vejamos no
Gonzagão e no Gonzaguinha os grandes artistas que foram, cada um em seu
estilo. O Pelé é outro, que deve ser lembrado por suas jogadas, por suas
atuações nos gramados. Lá ele era craque, e insuperável.
Francimar"
Cito um fato correlato: o pai do Plínio de Arruda Sampaio, político paulista de linha esquerdista, era desembargador e católico a mais não poder. Grande sujeito, mas rígido em suas convicções políticas. O filho foi perseguido pela redentora e ele sofreu muito com isso, até porque o Plínio ficou muito tempo no Exterior, exilado. Em certa reunião de que eu, bem mais jovem, também participava, ele fez a defesa de D. Paulo Evaristo Arns, que era atacado por um dos presentes. Um outro desembargador, tão direitista quanto, saiu-se com esta: "Você anda falando muito com teu filho!" Alguns filhos abrandam os pais.
Circus do Suannes · São Paulo, SP 2/10/2008 09:39Boa lição de História do Brasil varonil...Bjs Langinha..
Langinha · São Paulo, SP 2/10/2008 09:54
A Verdade sempre prevalecerá. Mais cedo ou tarde! Muito bom Texto.
Abraços. jbconrado.
Zé Preá. Eu entendo o imortal Rei do Forró. O que nunca entendi foi a perseguição aos comunistas daqui. Pois no regime militar foi que mais se acentuou a estatização dentro do país, e se consolidou essa República sob o cutelo da caserna com um modelo centralizador de poder englobando todos esses estados, tudo igual a extinta União das Repúblicas Socialistas. Fato marcante foi por ocasião de uma visita de Fidel Castro ao Brasil, em que o então ministro da economia o foi receber, já que o presidente militar da época lá não conpareceu, e então Sr. Delfin Neto, ao saudaro o lider comunista estendeu a mão direita e disse a célebre frase, que a meu ver resume tudo isso, disse assim: `A Direita Brasileira saúda a Esquerda Cubana´. Ainda não entendo os cuministas brasileiros. A final, queriam mudar o quê?
Eldo Meira · Carazinho, RS 2/10/2008 10:38Pois é, nós do lado de cá dos discos(vinil) nunca sabemos o que rola no coração dos cantores....Só sabia, contada por ele, a briga que existia em EXÚ, sua terra natal-se não me engano, entre duas famílias, há tantos anos que elas já nem sabiam onde tinha começado a rusga.Gostei muito de sua narração. Um abraço. Lila Su
Lila Su · São Paulo, SP 2/10/2008 10:57
ei zé...o suannes me indicou e aqui estou comentando o seu texto. muito bom pela perspectiva histórica...gosto muito do gonzagão...que aprendi a ouvir...por ouvir...minha mãe escutando...
não sabia dessa linha direitista que ele adotou em parte da vida e é uma pena que tanto ele quanto o filho...já tenham ido embora...
um abraço
Vivemos tudo isso, contundentemente...Tal qual o nosso querido Gonzagão, outros músicos tb se apregoaram pelas sendas à defesa do indefensável...Contudo, como diz a história, todos acabaram enxergando todas as "semi-verdades", como clama as leis espíritas, "pelo amor ou pela dor"...No caso, seu lume veio com seu filho adotivo e pródigo, o nada menos do que genial Gonzaguinha...
Sua matéria é excelente, e vem muito a calhar, em tempos tb tenebrosos que ora vivemos, não às exceções, como no regime , mas as milícias paralelas, que executam a revelia, tantos irmãos, sem dó nem piedade, fazendo de armas arautos do "Estado Paralelo"...Sinal do Tempos de "Abrandai"...
abraço fraterno, Preá !
Uma pena a morte do rapaz assim como do Gozaguinha que nos deixou tão cedo!
Não imaginava Luiz Gonzaga com esse lado conservador,pra mim é novidade
Overmundo é mesmo cultura!
Um beijos e meus votos claro!
Em tempo de aleição,
Meu voto é presse Ratão
Das plagas do Pernambuco.
Não ligue pra este maluco
Que se mete a opinar,
Sem ter o que encinar
Fora o jogo de truco.
O verso é do Mano. Parabéns Zé. Voltei para votar. Gostei do texto. Sempre é bom conhecer mais sobre a vida de um dos baluartes da nossa boa música. Gracias!
Essa novidade sobre Luís Gonzaga eu também não sabia. Mas nada diminuiu a admiração e o respeito que tenho por ele.
Obrigada, menino!
beijos
Zé Prea,
Texto emocionante e elucidativo.
Não conhecia esta parte politica
dele, e louvo iniciativas que valorizam
a música que também é cultura.
Bom saber que existe em Recife,
o Memórial Luiz Gonzaga,
Parabéns pelo texto
bjsss
Uma verdadeira lição de história. Não conhecia esses fatos.
Sucesso.
Votado.
maravilhoso esse texto, Zé Preá, eu não fazia idéia da importânicia do gonzagõa no cenário político brasileiro, ainda que "disfarçadamente".
beijocas a voce!
Eita, agora eu conheço mais um pouquinho da história do Brasil.
Pareceu uma aula!
Brigadão.
:)
Viva a liberdade de expressão!
Meu voto, como já disse é teu. Gostei do texto e da música nem preciso falar. O Mano, mais chegado num jogo de truco, e mais metido a opinar também já declinou o voto pra ti. A matéria fala com franquesa e nos remete ao lado humano e fraternal dos grandes artistas, demonstrando que tinham suas diferenças, e isso não desmerece nem um nem outro, dentro da relação pai e filho. Bom pai, bom filho. O mais são as contingências do destino. Abs. e parabéns é Preá, pelo brilhante texto.
Eldo Meira · Carazinho, RS 3/10/2008 18:41
Antes de sair pra Toca da Joana a fim de ouvir choro e samba e tomar cerveja, quero agradecer a todos que votaram e comentaram. Abraços pros homens e beijocas às mulheres!
Vou terminar como locutor de vaquejada quando o vaqueiro derruba o boi dentro das linhas: "Valeu o boi"!
Zé Preá
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