Tenho a impressão de que o autor da boutade é o Delfim Neto, que, aliás, foi embaixador do Brasil na França. Boutade é palavra do tempo em que se ouvia a Edith Piaf em discos de vinil, chamados bolachões, e que diziam girar à razão de 78 rotações por minuto, coisa que eu nunca fui conferir. A Edith foi aquela cantora que seria apontada como imitadora da Mireille Mathieu, se não tivesse nascido muito antes da Mireille, e cujo sobrenome, falo agora da Edith, era, na verdade, um apelido grosseiro pois o sobrenome pardal, aquele pássaro miudinho sem graça e sem cor que, ainda por cima, não canta, só poderia ter sido posto nela por alguém que a odiasse terrivelmente. Aliás, dizem seus biógrafos que ela nem precisava ter inimigos, pois foi simplesmente esquecida pelas parcas. A sua biografia cinematográfica, Oscar merecido para a intérprete, como é mesmo o nome dela?, não conta da missa a metade. E ela, a original Piaf, sempre a dizer que não se arrependia de nada que havia feito.
Na verdade, quem deveria arrepender-se seriam as parcas.
A história que o Delfim contava, muitos quilos atrás, era a seguinte: o cidadão comprou, por R$ 7,00, uma lata de sardinha, que era vendida no varejo a R$ 10,00. Mostrou-a a um amigo, que a comprou por R$ 8,50. Cada um ganhou R$ 1,50 na transação. O dono da lata de sardinha revendeu-a por R$ 9,00, lucrando novamente. O novo comprador revendeu-a por R$ 9,50 e aumentou seu lucro. O derradeiro comprador resolveu abrir a lata e comer a sardinha. Descobriu que ela estava estragada e foi reclamar aos vendedores anteriores. Um deles, que era economista, explicou ao decepcionado comprador: “Você cometeu um erro ao abrir a lata, pois a sardinha não era para se comer, era apenas para ser vendida.”
O que o Delfim pretendia ensinar a seus alunos era como funciona o mercado de ações. Se os seus colegas norte-americanos tivessem prestado atenção às suas aulas, o american way of life ainda estaria sendo invejado pelo Sarkozy. Dizendo em bom português: a cow não teria ido para o swamp!
Mas não era de economia que eu pretendia falar hoje. Lembrei-me do Delfim porque tenho notado que há na Internet número enorme de sardinheiros.
Explico-me: Quantos e-mails você recebe por dia? Quantos desses e-mails contêm alguma coisa que vale a pena ser vista? Quantos desses e-mails circulares, com elogio da velhice, crítica ao governo, oração para santos ou santas de quem você jamais havia ouvido falar, pensamento do Dalai Lama ou do Papa, fotografias das cavernas da Mongólia e coisas semelhantes ou ainda mais exóticas você passa adiante? Quanto tempo você gastaria para ver tudo isso que recebe? Se alguém me manda mais de dois e-mails no mesmo instante, deleto todos sem ler nenhum, com direito a pôr o nome do remetente no rol dos culpados.
Aí é que está: esse volume incalculável de informações internéticas não é para ser lido, mas apenas para ser passado adiante.
Certa ocasião o Vargas Llosa, não sei se já ouviu falar dele, veio a público, putíssimo da Silva, para negar a autoria de uma despedida que ele teria escrito, às vésperas de sua morte próxima. “O pior é que estou em excelente estado de saúde” arrematou ele. Aliás, nem sei bem se foi ele, pois isso me foi enviado pela Internet, por alguém cujo nome eu não guardei.
Já recebi reflexões espiritualizadas assinadas pelo Pablo Picasso, logo ele, que só sabia pintar coisas deformadas e apalpar mulheres, e mensagens psicografadas enviadas por ninguém menos do que o Mário Quintana, que, pelo jeito, ao passar para o lado de lá teria deixado do lado de cá a sua conhecida irreverência.
Já recebi mensagens gentis informando o valor milionário da fazenda adquirida pelo filho de certo político, ou a dinheirama que sicrano tem depositada numa conta nas Ilhas Canalhas, ou por quanto o Ministro tal deu aquela famosa liminar. Quando o remetente merecia, eu lhe respondi solicitando que me desse mais informações a respeito da informação prestada, pois eu pretendia ingressar com representação junto ao Ministério Público e arrolaria o remetente como testemunha. Preciso dizer qual foi a reação?
Aqui mesmo neste seleto espaço por vezes aparecem alguns sardinheiros. Não falo daqueles que estão procurando companhia masculina ou feminina e que se disfarçam de interessados por literatura e nem escrever sabem. Deixo isso para a Regina.
Já houve quem elogiasse um poema meu. Não é que eu não mereça elogios pelos belos poemas que escrevo, muito pelo contrário. Ocorre que aquilo era um conto, não um poema. Tenho tentado mostrar aos leitores que a Internet abriu novas possibilidades para aqueles que se sentem inclinados à arte da escrita. Se o Machado molhava a ponta do lápis na língua enquanto pensava na frase de efeito que lançaria no papel almaço, temos hoje o recurso do hipertexto. Cheguei a incluir, provocativamente, cerca de 10 palavras-chave (tags) numa única crônica, remetendo o leitor a textos situados alhures, ligados (linkados) àquele. Apenas alguns poucos leitores deram-se conta da proposta. Publiquei algo homenageando uma garota extraordinária e poucos foram os leitores que falaram da Eliana.
O fato é que pouquíssimos overmundistas se utilizam desse recurso, a maioria ainda escrevendo como se não houvesse diferença substancial entre um computador e uma máquina de escrever. A possibilidade de uma oportuna ilustração ou um anexo complementar do texto nem sempre, lamentavelmente, são recursos utilizados pelos colaboradores.
Certamente virá alguém a dizer que o tempo é pouco para considerações mais longas sobre esta ou aquela obra. Aliás, escrever não é acrescentar, mas cortar ou substituir palavras, ensinam os mestres. Eu mesmo confesso que gostaria de deter-me em análise mais demorada, mais crítica de certos trabalhos. Por vezes envio essas observações reservadamente ao autor da obra, apontando isto e recomendando aquilo. Há os que se ofendem, mas há também aqueles que se dispõem a prosseguir na discussão. E isso é bom para ambos.
Lembro que a palavra crítica, tanto quanto a palavra crise, provêm, segundo os bons dicionários, do grego, onde se referiam a julgamento. Quem está em crise deve julgar os prós e os contras, para melhor decidir que caminho tomar. Um crítico de arte não tem a finalidade de humilhar o autor da obra criticada, mas realçar os aspectos positivos e negativos que, a seu ver, a obra apresenta. Quando Monteiro Lobato se referiu à obra de Anita Malfatti, indagando se aquilo seria paranóia ou mistificação, ele estava sendo grosseiro, não crítico.
Todos nós, reconheço, corremos o risco de cometermos tais grosserias nas considerações que fazemos, mesmo ressalvando que o deselogio não se refere ao autor, mas à obra. Entretanto, com risco de expor-me a críticas, a crítica que aqui faço é, segundo estou convencido, por uma causa nobre: sugerir que cada um de nós se capacite do modo como gasta seu tempo diante do computador. Da mesma forma como não vale generalizar críticas à televisão, pelo descompromisso que ela geralmente apresenta em relação àquilo que nos parece o padrão ideal para a cultura de nossa gente, assim também podemos selecionar o tipo de conteúdo que estamos dispostos a ver no monitor de nosso computador, eliminando liminarmente as latas de sardinha.
Para encerrar: você gostou mais do Non, je ne regrette rien na voz da Piaf ou na da Mathieu?
Minha proposta: vamos utilizar melhor o que a Internet nos oferece de bom?
A internet é essencial. Depende de cada interesse e das intenções do coração. E Edith será sempre Piaf...
Juscelino Mendes · Campinas, SP 12/4/2009 23:25
Parabéns Suannes !
A internet é , ao mesmo tempo, profícua e promíscua
Tem para todos os gostos
O problema é entender - quem entende diferencia - mas ...
E sempre há um todavia, muitos são os que repercutem barbaridades
Abraço
Suannes,
Ótimo ter você aqui entre nós, grata pelo link,Piaf,bjs.
vou começar pelo fim...que ja é um começo, ou meio, sei lá...
eu prefiro a Piaf, apssarinha danada de maravilhosa...a Mirelle é legal, coisa e tal...mas só legal...a outra é "superbe", n'est pas monsieur ?
Bom, pra resumir...O Delfin, agora com muitos mais quilos, pois sempre ( ou quase) mamou nas benesses dos militares , com aquela verve toda que lhe era (é...) peculiar, deve não enteder a internet...Pois por aqui muito pouca coisa é séria de verdade...O que funciona é o ( data v~enia, sr. dr. Jurista...) "Hic et Nunc" , ou seja o "aqui e agora", pa e pum, pa e bola, manja ?...Vira tudo um grande teatro do absurdo, onde tudo não é nada e vice-versa, o contrário, tudo junto e misturado...
Afinal , me diz ai, ou atire a primeira pedra, quem ja não inventou umas e outras, hein senhores escritores ???...rsrsrs
não se apoquente....nem esquente...se diminuirem, aumente , se aumentarem, esperimente !
um amplexo( como diria Raphael Reis)
( pronto Suannes...tem "Aipertécst" proce se divertir....rsrs)
EXPERIMENTE, caspeta...outra falha do over...não poder corrigir mensagens, né não, pessoal ?
joe_brazuca · São Paulo, SP 15/4/2009 23:29
Temos que separar o joio do trigo. Há que se ter tempo, é verdade.
Em uma sala de aula, existem os mais preparados, outros menos (talvez seja uma questão de oportunidade, que a vida proporciona ou não), os mais inteligentes, outros menos, os mais humanos, outros menos. E vai por aí. Parece-me que aqui ocorre o mesmo. Alguma coisa no texto me levou a pensar em eugenia...motivo pelo qual não me agradou, apesar da boa escrita.
Concordo com vc e com Joe...
e o seu artigo é mto bom....
nossa poli-titica enoja.
bjssss;)
Ah...esqueci de dizer...prefiro a Cássia Eller cantando.
Não gosto muito de sardinhas: nem as frescas, nem as enlatadas, muito menos as do Delfim e aquelas que costumam navegar pela interntet. Ah... da Piafi eu gosto demais. Da Cássia Eller cantando Je ne regrette rien também. Da Mirrelle nem tanto.
Bom, preferências postas, vamos ao filé do seu texto: a internet abre caminhos mas também acrescenta problemas a quem escreve e a quem lê. Costumamos sempre ressaltar a incrível ferramenta para o conhecimento que ela de fato é, mas dificilmente falamos de seu poder poluidor com a avalanche de informações (sardinhas e não sardinhas) que ela nos despeja a cada segundo. O hipertexto (que nem é realmente novo se a gente se lembra das velhas notas de rodapé nos livrinhos arcaicos que costumávamos ler) que abre tantas janelas novas no navegador e na nossa vida, também nos fragmenta a trilha do pensamento, nos carrega como onda pra longe de nossas buscas. Há que se ter sempre, claro CRITÉRIOS de SELEÇÃO. Coisa que o pessoal de email-sardinha não tem, evidentemente. É sempre lamentável receber um texto que a Marina Colassanti escreveu "assinado" pela Clarice Lispector. Mas deprimente mesmo é quando quem envia é professor de língua e literatura. Não é problema de hardware. Nem de software. O problema é que os peixes que por nadam são os mesmos que cruzam os mares da "vida não virtual", com suas virtudes e vícios
Delfim, já deu fim mesmo. Vale a Piaf, o resto prefiro passar adiante e odeio' babaquices' desses pps mentirosos, pois já vi poesia de Drummond sendo de Cecília, de Cecília dada como autoria de Pessoa...lástima, erros e mais erros...
Artigo bem articulado, inteligencia sempre Desembargador. Pensas bem e muito.
Quanto à Internet (boa ou ruim?), Einstein (ou alguém disfarçado dele)
diria que "isso é relativo". - Depende, claro, do uso que se faça dela.
Quanto aos sardinheiros, que más ações, hein?
Os gaúchos L. F. Verissimo, Mário Quintana e Martha Medeiros,... o que
têm de textos que lhes são atribuídos é sem conta.
Assim, porque o texto é verdadeiro e porque sintonizamos no pensamento a
respeito, tenho votado.
Internet é uma benção e uma maldição, ao mesmo tempo...
Um beijo !
Suraia !...legal vc ter lembrado ! ( como pude deixar escapar essa ?..rsrs)
Costumo dizer que o "pobrema" não são os computadores, nem nada que os associe...
O "pobrema" são aquelas "PECINHAS" que ficam DEFRONTE aos seus ecrans...rsrs
Abraço !
Gostei. Mergulhei nas águas do Sena, pra sair de alma limpa e tornar a escutar essa linda canção nas vozes de sino dessas marivilhosas cantoras, Mireille Mathieu, Piaf e Regina, todas elas. Levanto as mãos ao céu pra agradecer a existência da internet, com sardinha ou sem sardinha. Eu que apenas sei cantar a Marselhesa (Canto de Guerra para o Exército do Reno, autor: Rouge de Lisle, capitão do exército Francês), pra mim isso é como ouvir anjos. Quem não tem tempo pra isso não sabe o que está perdendo.
Eldo Meira · Carazinho, RS 16/4/2009 16:26Tem muito lixo, sem dúvida, mas tb proporciona acesso ao conhecimento rápido e superficial ou não. Vejam wikipédia...pode-se confiar naquelas informações? Há uma triagem? A idéia é genial: o conhecimento pelo coletivo. Noves fora...não vivo mais sem internet e seus afins.
Sandra Santos · Santos, SP 16/4/2009 20:47
Circus do Suannes · São Paulo (SP)
Sardinhas literárias
parabéns pelo Texto.
Tem informações de mais de 100 Emails condensados.
Abre um só e dáconta do recado.
Navegar é Preciso, Navegar é fundamental.
Edith Piaf parecia se unanimidade Internacional é de admirar.
Fica Uma saudação Amiga
Descupe o meu atraso.a internet de vez enquando me pirraça.Fico sem poder acessar,depois passa.Mas leio,e gosto de ler.
camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2009 16:26
Vamos, basta uma simples resposta?
Abraços Guaicuru!!!
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