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Desde muito pequeno ouvi histórias sobre a segunda guerra. As palavras vinham da minha mãe, que contava o ocorrido sob a ótica da criança que era então, isso fazia com que eu compreendesse seus conflitos internos e imaginasse, fielmente, todo o cenário de destruição.
Era impressionante ver o enorme aglomerado de cidadãos que pareciam estar sedados diante das palavras do Führer e, num momento de êxtase, todos faziam o característico cumprimento nazista .
Para minha mãe criança parecia cômico ver um homem esbravejando com uma voz esganiçada e gestos exagerados. Entretanto , pelo menos naquele momento, seus pais pareciam levar Hitler à sério.
A guerra surgiu como uma forte tempestade que varreu vidas valiosas e belas paisagens, transformando-as em dolorosas recordações. Ouvia-se a queda de uma bomba como um forte assobio , seguido de um estrondo ensurdecedor. Fugiam quando esse som parecia estar próximo e quando recebiam notícias de que o inimigo estava por perto, refugiando-se nas ruínas que encontravam.
Meu avô , um médico a serviço de inúmeros feridos, foi mandado para a frente russa por divergir das idéias do alto comando. Sua frágil mulher teria que proteger sozinha seus três filhos. Deslocavam-se em direção à Berlim à procura de proteção. Entretanto, Berlim era o alvo principal dos Aliados.
Os russos entraram na área onde os nossos refugiados se esconderam. O general russo havia concedido a todos os seus soldados o direito de saquear alimentos e objetos de valor; além de poderem violentar a qualquer cidadã alemã que lhes conviesse. Os refugiados encontraram abrigo num porão de uma casa, onde dividiram o espaço com várias outras famílias.
Todos aguardavam o momento inevitável : a chegada dos russos. As crianças foram protegidas pelas suas respectivas mães, mas uma jovem moça estava sujeita a uma possível violência sexual por parte dos soldados russos.
Minha avó teve a idéia de dar abrigo para a moça , fazendo com que ela entrasse pelo rasgo no tecido numa poltrona, onde , para despistar os soldados, minha avó sentaria com seus filhos sem levantar suspeitas.
Os soldados russos entraram vasculhando tudo até se dirigirem à minha avó. Um jovem soldado ordenou que ela se levantasse, mas ela demonstrou que estava com dificuldade por ter as três crianças no colo.
Minha mãe ouviu um disparo cortante vindo da arma daquele soldado, virou-se para ver se havia acontecido algo. Olhou para a têmpora de sua mãe e viu um filete de sangue escorrendo suavemente pelo rosto, mantendo-a inerte.
Os soldados foram embora, talvez assustados pela morte desnecessária que haviam acabado de causar...Naqueles últimos dias de guerra todas as mortes pareciam desnecessárias , pois a Alemanha estaria se rendendo em pouco tempo.
Contudo o sentido da morte só veio a mente daquela menina de seis anos no momento em que foi levada ao quarto de uma casa dos arredores de onde o corpo de sua mãe , envolto num cobertor militar, foi atirado numa cova recém aberta. O campo de visão dela estava restrito a uma pequena lamela na veneziana da janela, mas ela pode ver a terra sendo jogada sobre sua mãe, as pás faziam um movimento e pareciam dizer lhe que, definitivamente, não teria mais a proteção materna.
Até reencontrar seu pai, minha mãe e seus irmãos passaram um período amargo no orfanato junto a uma legião de órfãos de guerra.
Ao ouvir aquele relato emocionado, eu me sentia parte integrante de um drama inesquecível para qualquer pessoa. No entanto o que me chamava mais atenção era a estranha sensação de estar consumido pela saudade da minha avó, alguém que eu nunca conheci...
sobre a obra
Esta crônica tem uma importância particular para mim, pois relata a morte trágica da minha avó. Minha mãe carrega o trauma consigo até hoje, mas a dor foi superada no momento que compartilhou com toda família.
tags: Campinas SP textos-ficcao
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Desculpe, emocionada, pois ninguém deveria presenciar tal momento, um pedaço da gente indo embora, sem poder brotar mais nada...Se foi compartilhado com vocês, acho que foi muito bom, ameniza a dor, mas pode acreditar, só ameniza, abranda, mas não cala nunca dentro de nós. Mesmo sendo a fatalidade de qualquer maneira, seja com motivos ou não, seja sequência natural...tudo isso é brutal para os de sangue..para os que poderiam nos dar felicidade e darmos felicidade...é brutal aos olhos a ultima cena...é brutal.
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 28/3/2008 17:58
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Achei a montagem maravilhosa, apesar do tema, bem elaborada...filhos da guerra...dê amor à sua mãe.Pior das piores dores...Não cura...abranda.
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 28/3/2008 18:00
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Sua história é muito comovente !
Obrigada por dividi-la conosco !
Abraço fraterno !
Patipetista · Santo André (SP) · 28/3/2008 19:53
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Emocionou-me demais, Thomas...
É preciso contar estas histórias, para que conhecendo os horrores das guerras, se crie a consciência da importância da preservação da paz.
Obrigada por compartilhar conosco a história de sua vida e pelas lições que nos ensina...
Abraço.
Nydia Bonetti · Campinas (SP) · 28/3/2008 20:18
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Thomas Hohl · Campinas (SP)
Saudade de alguém que não conheci.
Um texto comovente. Vai lá na alma da gente.
Neste momento já passado podemos dizer que o ente querido não morreu em vão.
O Nazismo foi vencido e tudo que fizeram foi uma vergonha infamante.
Todos os sacrifícios e heroísmos ajudaram a construir a Paz.
Náo é a melhor Paz mas é a que temos a custa de vidas sagradas como a de sua avózinha.
Podia tirar um dia do ano para todos os jovens da sua gente fazerem em família tipo um sarau de Poesias sobre o amor da Avó, e o que ficou no coração de toda a sua gente.
O seu texto é base para uma coisa assim de materializar uma ação coletiva Cultural com a sua gente.
Gostei muito. Seu texto é uma forte bagagem para unir e fortalecer a família e prepara-los culturalmente tendo orgulho dos ancestrais.
Muito emocionante é uma força para o bem, a dignidade e a moral da família.
Tem grande Raiz e Tradição.
Uma Força de felicidade.
Parabéns e receba um abração Amigo.
azuirfilho · Campinas (SP) · 28/3/2008 23:01
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Em espírito vc. acabou fazendo parte da tragédia, entrou na alma do acontecimento! São experiências brutais. Tragédias e comédias fazem a nossa rota de evolução!
raphaelreys · Montes Claros (MG) · 29/3/2008 06:55
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Thomas,
Uma crônica com a sua marca forte e carregada de sentimento. Texto valioso. Voltarei para votar.
Aceite meu abraço fraterno,
Rubenio Marcelo · Campo Grande (MS) · 29/3/2008 08:32
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Thomas,
Relatos semelhantes ouvi de minha mãe de meu pai, que viveram cada instante da 2ª Guerra. Minha mãe naquela érpoca era jovem e foi violentada por soldados, presenciou horrores inimagináveis por nós. lutou bravamente para proteger meus irmãos mais velhos e mais o pai e a avó que a acompanhava. Ainda correu mais risco, pois minha bisa era descendente de judeus. Histórias que ouvi muitas e muitas vezes. Uma que me deixou bastante impressionada foi quando ela deu à luz debaixo de um bombardeio, de noite, dentro de um escombro e protegeu o quarto com um colchão velho e rasgado que havia ali. Olha, amigo, essas histórias são terríveis.
Abração e sua mãe é uma heroína. Honras a ela!
brigitte · Goiânia (GO) · 29/3/2008 10:17
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Thomas,
'Saudade de alguém que não conheci' demonstra com o homem é animal cruel. Mas também demonstra o heroísmo silencioso e forte de muitos desconhecidos. Assim como a sua avó foi uma heroína, muitas outras também o foram e através dessas heroínas muitas vidas foram salvas e muitas outras abatidas sem misericórdia. É o horror da guerra que não justifica.
É motivo de orgulho para a família ver que a custa da própria vida salvou alguém da sevícia. Vale a pena seguir o conselho de Azuirfilho.
E em um dia, talvez até o dia final da guerra, fazer sempre uma homenagem a sua avó em particular. Sua mãe e tios sobreviventes da chacina que abalou o mundo. Mesmo assim os homens não aprenderam a lição...
Meus respeitos pelo seu texto e minha emoção pela sua avó.
Fica em paz!
Regina
Regina Lyra · João Pessoa (PB) · 29/3/2008 23:01
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Thomas,
Que história, confesso estou emocionada, enquanto lia, a imagem parecia estar sendo delineada em minha mente... A saudade de sua avó e o sofrimento que sua mãe carrega até hoje faz com que esse sentimento esteja presente em você...
beijos no coração...
Zingara RJ · Rio de Janeiro (RJ) · 30/3/2008 08:36
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Que história comovente,Thomas!!
Mas saiba que é assim mesmo,pois apesar de não ter conhecido sua avó neste plano...com certeza vcs tinham uma ligação anterior,eu acredito muito nisso,daí a saudade q vc sente sem nunca ter a conhecido...
Nada justifica as guerras..nada...Sua avó e tdas as outras vítimas foram grandes heróis dessa nossa história!!Com certeza merecem um texto como esse ...grandioso,Thomas!!
Votado e adorado!
um beijo azulzen...
Rai...Blue...
Raiblue · Salvador (BA) · 30/3/2008 18:21
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Thomas Hohl · Campinas (SP)
Um Trabalho que desperta muita emoção.
Merece todo Voto e reconhecimento.
Parabéns
azuirfilho · Campinas (SP) · 30/3/2008 18:47
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AMIGO THOMAS
A história relatada por alguém que viveu um drama de guerra é diferente de quem apenas observa... Os lados da guerra mostram a brutalidade humana e os personagens. Nem todo alemão concordava com as idéias do monstro "Hitler"! Sobre os aliados: não eram "bonzinhos" como mostra a história... Existiram "monstros" de ambos os lados. O extermínio de inocentes foi autorizado por "Generais", "Ditadores" e "Presidentes", tanto de países totalitários, como ditos democráticos. E quem pegou na arma e exterminou? Não está livre do julgamento final! Ele acontecerá um dia? Não sei... Eu acredito em reencarnação!
A imbecilidade de quem prega o ódio é gritante! Os que justificam a violência, como um ato de disciplina e submissão (diga-se Tibet), pagarão com a própria indisciplina entre os seus... São as leis da causa e do efeito! São as normas do equilíbrio universal! A criação não perdoa o extermínio de seres vivos... Os exterminadores terão seus dias de explicações e punições universais. Será? Eu acredito em reencarnação!
Seu texto é pessoal! Só quem passa por tal situação entende! Paz! Muita paz! A harmonia sem mágoa ainda é o melhor caminho para a cura de feridas não cicatrizadas... Eu diria ainda mais: perdão! Essa palavra é mágica!
Fique com Deus! Somos irmãos e amigos de outras batalhas!
Abraços.
Lailton Araújo
LAILTON ARAÚJO · São Paulo (SP) · 30/3/2008 20:47
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Olá Thomas, que acontecimento, hein? É claro que dá para entender as tuas saudades. Até senti aqui.
Puxa e saber de tudo isso é mais uma vez odiara s guerras, sejam de que proporções forem.
Tomara que avós, mãoe e filhos, nunca mais sofram assim.
Abçs de PAZ
Branca Pires · Aracaju (SE) · 30/3/2008 22:01
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Bela crônica, muito bem escrita!
Paulo Esdras · Salvador (BA) · 31/3/2008 11:10
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Querido Thomás:
Eu também sinto saudades de alguém que não conheci e esta ausência também causou um trauma nos "sobreviventes". Minha avó, Otavia Winter Mendes de Almeida, mãe de meu pai e de mais quatro filhos foi acusada de adultério (que, não faz muito tempo, ainda era crime) em 1910 e, por isso, apartada do convivio dos filhos (meu pai, o mais velho, tinha então 7 anos) por uma força policial. Ao que consta, meu pai nunca conversou comigo sobre isto, nunca mais foi vista, embora minha mãe tenha tido acesso a uma carta em que ela contava, em detalhes, a violência a que foram submetidos ela e os filhos, principalmente meu pai.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras (PI) · 1/4/2008 08:32
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Queridos amigos,
sinto-me comovido em poder despertar histórias tão profundas como da minha avó. Compartilho do sentimento demonstrado nas palavras de Brigitte e do Joca.
Bjs e abrs.
Thomas Hohl · Campinas (SP) · 1/4/2008 17:02
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Thomas...
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 1/4/2008 17:07
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Thomas Um irmao de meu pai estava na Itália, jovem e veio a Guerra e por lá ficoue ele sempre contava estórias terríveis sobre os que lá sofreram , inclusive uma namorada, dizia ele o maior amor que teve morrer nas mãos e loucuras de Hitler. Ele voltou, mas nunca mais conseguiu ser nada, mudava muito de atividade na área da engenharia, acordava a noite aos gritos , vendo amigos mortos, alucinações, quase louco, morreu com 40 anos, ainda jovem.Contar traz alívio ao sofrimento, mas a dor permanece.Parabens.
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 1/4/2008 17:13
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Thomas
Vo(L)to.
Mais uma vez emocionada pela releitura.
Abraços,
Regina
Regina Lyra · João Pessoa (PB) · 8/4/2008 23:56
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