Sempre desconfiei de Romeu.
Acho que ele nunca amou Julieta de verdade. Romeu amava a morte, porque tem um certo tipo de amor, um certo tipo de paixão que é para a morte.
Aliás, poucas vezes no ocidente a morte ganhou contornos tão nítidos como nas peças de Shakespeare. Poucas vezes a profundidade psicológica da morte e foi estetizada de um modo tão convincente. Mas o amor que é para a morte (como o de Romeu) também é um resto, uma sobra moderna de uma experiência religiosa. Da pulsão de adoração de uma grande deusa perdida, oculta pelos véus do monoteísmo judaico e retirada do seu casulo inconsciente quando Freud tentou dar sua versão shakespereana de Édipo.
Mas nós empobrecemos o amor. Reduzimos sua abrangência criando uma super palavra (amor, love, Liebe). Super palavras são assim. Elas misturam coisas diferentes e confundem mais do que esclarecem. Os gregos tinham varias palavras para o amor e por trás de cada palavra, eles apontavam para um amor diferente. Havia o amor doença (pathos) que matou Romeu e Werther; o amor divino (ágape) que cegou Paulo de Tarso; o amor pulsão de vida (Eros) que fez você que me lê, nascer; o amor afinidade (philos) que unia amigos em torno de um bom vinho nos simpósios filosóficos da antiguidade. Uma super palavra como “amor” confunde tanto quanto causa dor, mistura o que deveria estar separado e separa, muitas vezes, o que deveria estar unido. Sem saber qual o amor que se ama, sem sentir o amor que se quer sentir, muita gente oscila numa linha que separa a solidão e o êxtase. Filhos perdidos de um mundo arruinado por imagens intangíveis, os órfãos do amor caminham pela terra. Tecendo suas tapeçarias particulares de desejos, morrendo e renascendo a cada dia. Olhando toda manhã em busca da porta que possa nos levar de volta para casa.
Rigorosamente planejado para afogar os sonhos humanos, o mundo tem ritmos estranhíssimos. Nos arrebata e nos lança de volta a planície dos desejos. Nos oferece as chaves e, às vezes, por pura falta de sentido, muda a fechadura.
A glória de Romeu foi ter encontrado uma Julieta que topasse morrer com ele, porque o amor que ele amava não era um amor para a vida.
Se suas famílias tivessem chegado a um acordo moderno de vontades, tivessem aceitado a visão contratual do casamento nesse mundo de mercado liberal; se tivessem ajeitado as arestas de seus embates comerciais e resolvido a disputa que separava seus filhos, ainda sim, haveria uma tragédia. Romeu morreria de saudades do amor. Seria possuído por um fogo furioso e ressentido e terminaria numa vara de família, discutindo com Julieta a percentagem da pensão que deveria pagar para cada um dos filhos.
O mundo está cheio de Romeus. Cultores da fé da velha deusa. Devotos da religião do amor que é doença, euforia e arrebatamento. Às vezes eles se tornam grandes poetas, às vezes homens secos de olhos foscos. De vez em quando eles se transformam junto com o amor, mas, às vezes eles também afundam com o seu peso.
Porque Ginsberg já mostrou quase tão bem quanto Shakespeare que o peso do mundo é o amor. “Nenhum descanso sem amor/ nenhum sono sem sonhos de amor/ quer esteja eu louco ou frio/ obcecado por anjos ou por máquinas/ o último desejo é o amor”.
sem super-palavras, nem meias palavras: BOM.
:-)
"...e a alma sobe feliz até o olho..." . É isso mesmo? :)
Ah, vc conhece Moacy Cirne? Abraço.
Pablito,
seja benvindo.
Você é um cara de palavras preciosas.
Fique por aqui também.
Pablito,
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Adorei o trecho "Uma super palavra como “amor” confunde tanto quanto causa dor, mistura o que deveria estar separado e separa, muitas vezes, o que deveria estar unido."
Simplesmente maravilhoso!! Está de parabéns professor!!!!! :)))
Cara, se é concreto o distúrbio amoroso fica fácil explicar por que Dr. Franklin tem tanto Cliente!!!! Doenças amorosas!!!!
Parabens Pablo gostei bastante.
Realmente, não dá p/ querer simplificar o que é complexo. E às vezes é difícil encontrar o equilíbrio na vida, nas escolhas e até nos sentimentos... muito bom e interessante o texto. Quando se faz o que gosta, o resultado é sempre esse: parabéns por ser tão bom escritor quanto é professor!!!
Gostei do texto Pablo. Alteraram a significação do amor... Mas a pergunta continua aqui dentro: O que é o amor???
Nercy Luiza · Rio Branco, AC 11/8/2006 23:51Só o amor constrói! E o ódio destroi. O amor de Romeu e Julieta, mesmo com a tragédia, construiram um conceito de amor almejado pela juventude desde os primórdios da humanidade até os nossos dias e certamente será a procura da juventude dos séculos vindouros.
brigitte · Goiânia, GO 12/8/2006 20:29Uma análise perfeita a respeito da confusão humana a respeito do que realmente representa o sentimento transformado em palavra amor. Parabéns, análises deste porte é que engradecem o nosso conhecimento. Jeane Miranda
Jeane Miranda · Natal, RN 30/8/2006 09:29
Muito bom, vidas são vividas infelizmente, ou são deixadas por não saber o tipo de sentimento que realmente os move....
parabéns
esse texto lembra de um caso em que o amor vence de lavada qualquer outro sentimento. E q
Yuno Silva · Natal, RN 1/9/2006 09:04
esse texto lembra de um caso em que o amor vence de lavada qualquer outro sentimento (link). E que seja eterno enquanto dure.
>> http://www.overmundo.com.br/overblog/so-o-amor-salva
abraços,
yuno
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