Seis sonetos de Alma Welt recém-descobertos

Caspar David Friedrich- O Naufrágio da Esperança 1835
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Guilherme de Faria · São Paulo, SP
15/2/2014 · 1 · 0
 

O Naufrágio da Esperança (de Alma Welt)

Estamos, pois, navegando em alto mar,
Ou pensas que isto aqui é brincadeira?
Acaso avistas cais para atracar?
Atrás de nós somente nossa esteira...

O rumo é incerto, não há bússolas
Alguns de nós se guiam por estrelas,
Outros já a pele se abre em pústulas,
Estrelas ou feridas, vamos vê-las.

Quem na terra pense ter plantado os pés,
Ingênuo e semi-louco é certamente,
Ou vem fazendo uma leitura de viés...

Quando afinal nos apanha a tempestade
E a Esperança naufraga e nos desmente,
O portal atravessamos, na verdade...



O Balanço (de Alma Welt)

Estou pensando seriamente em ir embora,
Na verdade nada mais tenho a dizer.
Minha passagem termina aqui e agora
Tanto no conviver como escrever...

Bah! A vida consiste em teimosia
E é tudo o que tem a ensinar:
Resistir, lutar, é a sua poesia...
Deverei a cuia e a bomba repassar?

Mas, ai! balanço entre os extremos,
De uma aceitação meio passiva
E uma rebeldia, assim, dos demos...

Tanto faz que me reserve ou que me doe
Oscilando, racional e instintiva...
Assim tenho eu vivido, Deus perdoe!


Necessidade, mãe da Poesia (de Alma Welt)

Do necessário nasce o meu poema
E nunca de uma simples veleidade.
O soneto é bom quando não teima
Em se impor por tédio ou por vaidade.

Ananke é minha deusa universal
Que sobreviveu aos velhos deuses
E veio justo parar no meu quintal
Atravessando o Tempo desde Elêusis.

Necessidade é o que me põe ativa
E por isso me sinto tão carente
Do puro verso que me mantenha viva.

Sim, à deusa entrego meu destino
Cujo fio ela cortará co’o dente
Após tanto fiá-lo, assim tão fino...



O Turbilhão (de Alma Welt)

Temos pouco tempo pra estar juntos
Qual espectros de passagem pela Terra
Como trêfegos projetos de defuntos,
Alguns cantando enquanto a turba berra.

Vêde: a multidão se acotovela
Nas ruas e nas praças, nos estádios,
Ou cada um empunhando sua vela
Desde as catacumbas sob os gládios.

Pobres nós, humanidade tão festiva!
No enganoso lazer após a estiva,
Quê nos resta senão rir, nos esbaldar?

Nos debatemos nas águas e nos ventos,
Abraçados abrandamos mil tormentos
No turbilhão da vida, sem pousar...



Palavras à Poesia (de Alma Welt)

Poesia, és tênue, rara, rarefeita...
Quantas vezes não consigo te alcançar,
Ponha-me ou não em vestes de colheita
Ou pise uvas qual se fosse no lagar...

Caminhando minhas trilhas na coxilha
Que tanto, tanto, já me viram versejar,
Temo, às vezes, me negues como filha,
E, ai Portugal, sinto perdido o meu lugar!

Sintonia busco, fina, tão difícil,
E rimas ricas que não sejam forçadas
Mas que caiam precisas como um míssil

Mas inútil se revelam, não alivia,
Pois preferes as primeiras pinceladas
Na tela do pintor quando vazia...



A Usura (de Alma Welt)

O quê podemos nós contra a Usura
Que nos cerca como sítio a um castelo,
E Pound disse ser Contra Natura
E de onde nada sai que seja belo?

Ao dinheiro todos fazem reverência
Mas refiro-me à essência e não à prática
Que pode vir cercada de excelência
Quando não se reduz à matemática...

Juros cobrados é o que nos escraviza
E faz de um homem simples, miserável,
E um solo estéril onde ele pisa.

O banqueiro é o guardião do meu Dinheiro
E se amiúde tem a face amável,
A raposa é quem guarda o galinheiro...

Sobre a obra

Já se aproximam de 4.000 os sonetos descobertos na Arca da Alma, encontrada no sótão do casarão da estância da família Welt no pampa gaúcho, por Lucia Welt, devotada irmã da poetisa e herdeira de seu espólio literário. Alma Welt é sem dúvida uma das maiores sonetistas de todos os tempos, não somente pela quantidade, mas pela originalidade e qualidade. Confiram acompanhando suas postagens aqui ou nos 50 blogs da Poetisa do Pampa abertos e administrados por Lucia Welt após a morte de sua grande irmã.

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informações

Autoria
Alma Welt 1972-2007 - Poetisa gaúcha, autora de mais de 3.000 sonetos
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