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SELEÇÃO DE SONETOS

1
ANIBAL BEÇA · Manaus, AM
6/6/2008 · 70 · 18
 

SOMENTE NO SONETO SEI-ME A SALVO

Aníbal Beça ©

Para o poeta Carlos Domingos


Somente no soneto sei-me a salvo
(aqui nestes degraus subindo ao topo)
de um tempo intempestivo misantropo
tão célere a escorrer do cano ao ralo.

É fuga, eu sei, ou medo do sufoco
da correria dia-a-dia avara
em busca de uma fama que se ampara
no gelo mais fugaz do enfim que é pouco.

Para alcançar a glória, lua rara,
fazem de tudo os tais pós-modernosos
atropelando gregos e troianos

em nome de um discurso astucioso
puxam tapetes, rasgam-se os abanos
para esconder o falso tom sestroso.


LAVOURA

Aníbal Beça ©


Calma colheita ao verbo em tom sereno
Madura mansidão que se apresenta
Nessa escolha do fruto mais ameno
servido à mesa suado e tão sedento.

Palavras semeadas num terreno
Quintal comum, adubo que se inventa
Na lida da lavoura em plano pleno
De quem se sabe longe da tormenta.

O fruto verde envolto nas lianas
Há muito debelado do seu travo
Hoje se espera o doce em filigrana.

No duro aprendizado fiz-me escravo
Cavalo de um arado em terra plana
Transpirando crepúsculos no estábulo.

PROFISSÃO DE FÉ

Aníbal Beça ©


Meu verso quero enxuto mas sonoro
levando na cantiga essa alegria
colhida no compasso que decoro
com pés de vento soltos na harmonia.

Na dança das palavras me enamoro
prossigo passional na melodia
amante da metáfora em meus poros
já vou vagando em vasta arritmia .

No vôo aliterado sigo o rumo
dos mares mais remotos navegados
e em faias de catraias me consumo.

É meu rito subscrito e bem firmado
sem o temor do velho e seu resumo
num eterno retorno renovado.

O COMEÇO ANTES
DO COMEÇO

Aníbal Beça ©

para Floriano Martins

A chuva cheia chama por um nome
nesse som abafado em água funda.
No líquido chamado um rio some
afogando a palavra, flor fecunda,
já morta no som cavo que consome
o provável vestígio que se afunda.
Na sanha esse fastio enfeixa a fome,
um som de ossos de vértebras rotundas,
harpa transida em tons e semitons:
Uma dodecafônica cantata
de assomada assonância se compõe
no dissonante sonho em catarata.
Chuva de vozes, chuva de Breton:
Nasce o cão andaluz e um sol desata-se.



CONTEMPLAÇÃO

Aníbal Beça ©

para o pintor João Rodrigues


Nas crinas de cavalos reclinados
penteia o vento nuvens retorcidas
enquanto a sombra cai do céu calado
na relva da campina amanhecida

Passeia o sol as hastes sublevadas
dos girassóis lambidos no rocio
que vaidosos se alçam na mirada
narcisos desse espelho em seu feitio

A calma da manhã veste amarelo
e despe toda angústia na brandura
das cores deste dia sem duelo

Sendo o perdido me acho sem procura
sofrendo tenho sido meu flagelo
mas neste olhar agora me inauguro



MÚSICA DA HORA


Aníbal Beça ©

Para Ledo Ivo


Habito a pausa no hábito da pauta
música de silêncios e soluços
a refrear desmandos dos impulsos
que se querem agudos sons de flauta.

A vida é toda música em seu curso
do grito original em rima incauta
ao sussurro que se ouve em cama infausta
nesse fim assonante do percurso.

O tempo se encarrega do metrônomo
unido a dois ponteiros de um cronômetro
em que o delgado veste-se de momo

para alegrar as horas do pequeno
que dança a marcha gris em chão sereno
fugindo ao dois por quatro do abandono.
.

CICLO TERRENO


Aníbal Beça ©



Só morta a natureza se comporta
na expectativa podre dessas frutas
amolecidas no chão que as conforta
para o vôo de moscas dissolutas.

Esse tempo ruído rói a crosta
de rugas ventiladas na disputa
de asas amaciando a pele morta
deixando à mostra o feto do desfruto.

O cheiro cavo amaro pousa às costas
do vento que carrega no azedume
sementes de tanino em seu curtume.

São muitos comensais nesse banquete
velando o transitório na certeza
sabendo que outra fruta volta à mesa.


SONETO QUEBRADIÇO

Aníbal Beça ©


Mão minha com maminha movediça
traçando vai na limpa areia branca
versos cambaios, frouxos, na liça
língua caçanje, claudicante, manca.

No pé quebrado o ritmo se atiça
para dançar com rimas pobres, franca
trança de cambalhota tão cediça,
que me corrompe o salto e que me estanca.

Queda de braço nas quebradas quebras
vou me quebrando como um bardo gauche:
pelas savanas sou mais uma zebra.

Mas consciente desse torto approuch
já me socorre a gíria de alma treta
para solar meu solo nos ouvidos moucos.


NOSSA LÍNGUA

Aníbal Beça ©

para o poeta Antoniel Campos*


O doce som de mel que sai da boca
na língua da saudade e do crepúsculo
vem adoçando o mar de conchas ocas
em mansa voz domando tons maiúsculos.
É bela fiandeira em sua roca
tecendo a fala forte com seu músculo
na hora que é preciso sai da toca
como fera que sabe o tomo e o opúsculo.
Dizer e maldizer do mel ao fel
é fado de cantigas tão antigas
desde Camões, Bandeira a Antoniel,
este jovem poeta que se abriga
na língua portuguesa em verso e fala
nau de calado ao mar que não se cala.

* "filiu brasilis, mater portucale,
Que em outra língua a minha língua cale."


ARS POÉTICA

Aníbal Beça ©


Nesse afago do meu fado afogado
as águas já me sabem nadador.
A rês na travessia marejada
gado da grei de um mar revelador.

Vou e volto lambendo o sal do fardo
língua no labirinto, ardendo em cor
furtiva, enquanto messe temperada,
da tribo das palavras sou cantor.

Procuro em frio exílio tipográfico
o verbo mais sonoro em melodia
o ritmo para a cal de um pasto cáustico.

Sou boi e sou vaqueiro dia a dia
no laço entrelaçado fiz-me prático
catador de capins nas pradarias.





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celina vasques
 

lindissimos sonetos poeta! eis que imortaliza a poesia do Amazonas, trazendo-a a todos os cantos do mundo!
Parabens !!! voce é o orgulho da literatura amazonica!

beijo grande

celina vasques · Manaus, AM 4/6/2008 19:53
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Lioviola
 

maravilha, poeta, viva a poesia do Amazonas.
UM ABRAÇO A THIAGO DE MELO.

Lioviola · Carnaíba, PE 5/6/2008 08:58
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ANIBAL BEÇA
 

Celina e Lio muito obrigado pela leitura e comentários. Darei seu recado a Thiago.

Abraço amazônico/

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 6/6/2008 13:58
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graça grauna
 

Meu amigo Bessa: obrigada, mais uma vez, por tua presença. Nunca é demais repetir que gosto mesmo do seu jeito de ser na poesia. Torno a dizer e que todos ouçam: tenho uma profunda admiração por esse teu fazer poético sempre inovador. Bjos de luz, meu querido mestre dos sonetos amazônicos. Obrigada pelo carinho.Paz em Nhande Rú. Grauninha

graça grauna · Recife, PE 6/6/2008 14:27
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graça grauna
 

Beça, meu querido. Perdão, pois digitei erradamente o teu belo nome. Aproveito esse balãozinho pra dizer sempre que gosto mesmo da sua poesia. Viva o Beça!!!!!

graça grauna · Recife, PE 6/6/2008 14:32
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ANIBAL BEÇA
 

Grauninha querida, os Bessa com dois esses são maioria aqui no Brasil e Portugal. Nós, os |BeçaI com cedilha, somos muito poucos aqui no Brasil, e em Portuga há um razoável contigente, principalmente em Bragança, Vila Real e Porto. Mas tenho bons amigos entre os bessas.

às vezes, por chiste, ou brincadeira, digo que eles não podem fazer como eu que posso dizer eu sou o Anibal (bom) à Beça. Olha só a pavulagem... rsrsrs

Vai um soneto, sem nenhuma pontuação, corrido num só fôlego, em que no fecho faço uma blague com o meu sobrenome.

PICADEIRO

Anibal Beça ©

Estava sossegado lá no fundo
Do meu eu e de mim sem muita pressa
Nesses momentos calmos que circundo
Roteiro e enredo em ato que começa
Minha descida ao palco do meu mundo
Que venho e represento a farsa dessa
Comédia que é de arte em que aprofundo
A pena desgarrada em vã promessa
De bem cantar somente o mais fecundo
Sonho sonhado sem a cor expressa
Que a vida vai me dando num segundo
O desempenho em títere da peça
Neste papel de doce vagabundo
Que me faz rir da dor doída à beça

PS- Não há nem o ponto final.


Beijos muitos



ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 6/6/2008 20:02
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Doroni Hilgenberg
 

Ah... Anibal vc faz graça até de seu sobrenome. Não sei o que gosto mais, dos sonetos ou de Picadeiro. Vc é demais, é o orgulho do nosso Amazonas. Receba meu voto, meus Parabéns e um abraço.

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 7/6/2008 01:10
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Sandra Fonseca
 

Poeta bom à beça! sempre pensei isso, desde que começei a te ler.
Isso aqui é um paraíso dos sonetos. Cada um mais delicioso que o outro. Fonte de pesquisa prá mim que sou filhote ainda.
Beijo, Caro poeta!

Sandra Fonseca · Belo Horizonte, MG 7/6/2008 13:20
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Dete Reis
 

Amo sonetos e os seus são demais. Parabéns! Gosto também de saber que você é amigo da minha amiga Doroni. Foi bom conhecer ao seus escritos. Grande abraço.

Dete Reis · São João de Meriti, RJ 7/6/2008 18:53
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Dete Reis
 

Já votei.

Dete Reis · São João de Meriti, RJ 7/6/2008 18:54
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ANIBAL BEÇA
 

Doroni querida, obrigado pela leitura e comentário. Sendo residente em Manaus, qualquer hora dessas haveremos de nos esbarrar. Não é mesmo? Principalmente aos sábados na livraria da Editora Valer, em que sempre acontecem lançamentos de livros.

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 7/6/2008 19:41
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ANIBAL BEÇA
 

Sandra querida, muito obrigado. Fico feliz com seu comentário porque vc. é do ramo.

Beijos

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 7/6/2008 21:02
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celina vasques
 

votado meu poeta!

beijos

celina vasques · Manaus, AM 8/6/2008 08:28
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clara arruda
 

Já votei.Mas vim dar meus parabéns.
Um carinho em seu coração.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 8/6/2008 08:38
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ANIBAL BEÇA
 

Celina e Clara, obrigado pelo voto.

Ternura e carinho

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 8/6/2008 11:28
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Nydia Bonetti
 

Lindos sonetos, Beça.
Enxutos e sonoros. Pura harmonia na dança das palavras...
abraços

Nydia Bonetti · Campinas, SP 8/6/2008 14:51
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Cherry Blossom
 

Você insiste em nos embriagar com tuas overdoses!
Fazer o que?
Bebamos então tua boa e doce poesia!
beijos meu querido!

Cherry Blossom · Dracena, SP 8/6/2008 17:03
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ANIBAL BEÇA
 

Nydia e Cherry muito obrigado pela visita e pelos votos. Sei que gostaram dos sonetos,essa forma tão repudiada hoje como se fosse o próprio Satã. A modernidade não é aquela que acaba com a 'tradição', mas a que atualiza, através da linguagem, com as palavras da tribo, as formas fixas de notoriedade com as odes, elegias e sonetos. Estou com um conto esperando a visista das amigas OSSOS DO OFÍCIO

http://www.overmundo.com.br/banco/ossos-do-oficio-1#c181525

Beijos muitos e queridos

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 9/6/2008 10:53
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