A pergunta mais derradeira e menos promissora a uma resposta:
— E agora, haverá saída?
Que sejam feitas perguntas mais fáceis a fim de que os interlocutores do mundo inteiro não tenham de se desesperar com uma resposta sempre tendo de ser dada às pressas. Oras, se haverá saída! Por que não perguntam como era antes de ser tão quente? Por que não perguntam que tipo de crença cristã humanitária é essa que nos diz sem dizer que podemos usurpar da Terra o quanto quisermos, que podemos levar o que pudermos carregar, que não sei que Deus estará à nossa espera no paraíso e tal? E os que ficam?
Todo ensangüentado, com a arma do crime na mão, agitando o corpo magro num ensaio de gozo, o homem ouve a sirene da polícia e procura por seu cúmplice no quarto escuro — o que teve a idéia de matar a dona senhora e comê-la enquanto o corpo ainda estava quente — para dizer-lhe que os policiais já vêm, que alguém deve tê-los visto entrar, que alguém devia saber do plano e deixou para avisar a polícia em cima da hora. E faz a pergunta fatal dos desesperados, dos que não têm pra onde ir e mesmo que tivessem, não iriam. A pergunta mais cínica que pode ser feita a qualquer.
Devia ter trancado melhor a porta. Na verdade, não devia nunca ter se casado. Porque, a essa altura, continuaria sozinho, apaixonando-se hoje para ser largado sem dó amanhã. Mas não. Casou com a certeza de que assim teria estabilidade sexual e afetiva e nunca mais precisaria acordar sozinho. Deu que a grama do vizinho, mesmo que não seja mais verde, pode surpreender por receber por sobre si pés mais belos, pernas mais carnudas, um sexo menos cabeludo, nádegas proporcionais em tamanho à grandeza dos seios que balançam pra lá e pra cá. Queria provar um prato diferente, mas não teve a esperteza de trancar a porta. De repente, de longe vem um cumprimento, o mesmo apaixonado de todos os dias: “Amor, estou aqui! Vem me dar um beijo!”
E a pergunta se repete, sempre se repete, como num coro extremamente irritante. Ah, a pergunta dos que não têm pra onde ir, não têm pra onde correr, e mesmo que tivessem, não correriam, porque as pernas estão sempre tremendo de medo.
A pergunta derradeira é de fato esta outra quefizestes adiante, Labes:
E os que ficam?
Acabei de deixar na gráfica o original de minha primeira novela e, na página aquela em que demonstramos a quem amamos escrevi sem saber uma resposta a tua pergunta muito bem achada:
- Às netas e netos Alana, Ana Carolina, Alexandre e aos que vão nascer, a quem devemos deixar a Terra que mães e pais nos legaram.
Uou! Senti um frio na barriga, agora. De fato, Bauer, deixamos essa Terra... só não sabemos exatamente até quando, não?! Abraço.
Labes, Marcelo · Blumenau, SC 18/4/2007 18:46
eu comecei pensando que era uma coisa e terminei com outra. uau!
Tê Jardim · Belém, PA 19/4/2007 14:18
kra, vc leva a história de um jeito realmente original...
isaac_lira · Natal, RN 19/4/2007 15:05
Labes, tens pulso, e bons dedos pra segurar a caneta ou teclar as teclas. Gostei muito da tua escrita.
Abração,
Eu adorei este recado, as tuas palavras são de grande utilidade. Parabéns por esta valiosa contribuição.
Carlos Magno.
Imagina, Carlos. Acho que todos devemos escrever para todos, sobre o que lemos, o que interpretamos, o que sentimos.
> Felipe, teus elogios somente me empolgam e me fazem querer escrever mais;
> Isaac, é bem difícil fazer com que não pareça com mais nada. :)
> Tê, eu tive a mesma surpresa.
Abraços.
Labes, destes um baita tiro certeiro, parabéns.
um grande abraço prá ti.
E onde acertou, Pedro? Obrigado por teres aparecido, lido e comentado. Sinto-me muito orgulhoso por isso. Abração.
Labes, Marcelo · Blumenau, SC 9/5/2007 12:02Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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