Sem Título

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Rafael Biazin · Campo Mourão, PR
8/1/2007 · 58 · 4
 

Um dia as pessoas simplesmente páram de olhar em volta. Seus umbigos ficaram tão lustrosos quanto porcelana, e não há motivos para que deixem de ser assim. A miríade de sonhos e planos se esvaem como a chuva que cai num rio profundo, e a tenra necessidade de auto-revelação da nova personalidade é cada vez mais forte. Agora poucos fazem parte do seu grupo, a escassez de idéias não é mais problema – os olhos o são. Olhos que vêem tamanha brutalidade nos outros grupos de pessoas com o coração gordo de comer churrasco todo domingo. Olhos que só aceitam sua própria opinião, aquela formada sobre tudo e que não pode ser modificada sobre nenhuma circunstância. E assim vão, trilhando seu caminho clássico, rebolando em seus ternos e gravatas; fazendo inveja no povão que só assiste. Ô beleza. To feliz, era tudo o que eu queria. Até que morrem depois de uns vinte anos de preocupações frias - será que a meia vai combinar com meus brincos? Ah, ou melhor – olho por olho, dente por dente. O enterro é lindo! As pessoas viajam quilômetros para o ver pela última vez: o terno branco está de acordo com sua própria palidez mortífera, e seus cabelos estão penteados para trás do jeito que gostava. Que beleza, não podia estar melhor. Vem tanta gente que lota o funeral, as lágrimas rolam sem impedimento pelo rosto das senhoras com laquê (com biscoitinhos entre os dedos das mãos). Você finalmente é enterrado depois das bênçãos, agora todos têm certeza que irá para o céu. Imaginam-no voando com anjinhos de cabelos enrolados entoando canções da paz e humildade que todos obtém depois da morte. Tamanha personalidade – o padre dizia – tão lindas suas ações na Terra. Que Deus o tenha, e amém. E todos vão embora sem saber que você não está no céu cantarolando com uma lira. Está sim uns sete palmos (não deu pra contar direito, eles te jogaram na cova muito rápido) abaixo dos pés gorduchos das velhas com sandálias e dos velhos com mocassins. Ah, esqueci de contar que você também percebeu que só vieram velhos. Seus netos ficaram em casa comendo bolacha e assistindo a nova programação na TV, e seus filhos... bem, há quanto você não via seus filhos? Pensou que eram vilões só porque não seguiram seu caminho? Bem, quer queira quer não, eles sentirão sua falta. Agora, é hora do adeus. Que você seja feliz em seu buraco lúgubre e triste, pelo menos você verá as sementes nascendo na primavera. Seus amigos virão te ver no dia de finados, obrigações anuais que você nunca deixara de cumprir – e irão embora como se nada tivesse acontecido, felizes consigo mesmos por serem tão generosos. Os anos passam, você fica imóvel em sua tumba até que um dia, de repente, você olha para cima e ouve uma voz diferente – aquele seu amigo de infância, bolinhas de gude e pirulitos vêm te visitar. Como você está feliz! Finalmente, não mais que finalmente, uma onda de afeto percorre seu corpo rígido e decomposto, a alegria de recordar o que há muito estava perdido num oceano de papéis e negócios em sua memória curta. Você está tão feliz que nem se reconhece, gargalha (e percebe que há um bom tempo seus dentes não apareciam à tampa do caixão – a última vez foi aquela careta de quando as larvas apareceram) e explode num mar de energias boas. Sim! Alguém gosta de você. Seus átomos se desintegram e voam para diferentes partes do mundo, com a esperança de se saírem melhor na próxima. E aquela centelha de memória ainda persiste: alguém veio pelo preço de um sorriso, aquele que você deu quando ainda tinha dentes de leite. Durou segundos, persistiu por uma vida. Você finalmente está livre. Ah, já não é mais você. Você, de fato, está na memória da pessoa a sete palmos acima de sua antiga morada, feliz por reencontrar alguém tão importante.

E você que não precisava de afeto: pertencia a si mesmo.

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Rafael dos Reis Biazin
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Rafael Biazin
 

simplesmente diverso ao pensamento alheio.
um homem olha o céu; o outro olha a lama.

Rafael Biazin · Campo Mourão, PR 6/1/2007 14:06
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fernando apple
 

não há nem pertencer, nada ultrapassa o existir. O afeto reside na delicadeza do não saber, dos churrascos no domingo onde a felicidade está sem ser percebida. E gordos seguimos , na procura do que comer...

fernando apple · Palhoça, SC 6/1/2007 14:11
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analuizadapenha
 

oi... legal suas observações sobre tudo, no mais fiz enquanto casualmente ouvia a musica numa emissora de tv... rs os espaços que dei , eram as paradinhas. Provocativo seu estilo intimista de viver morrendo ou morrer vivendo.

analuizadapenha · Natal, RN 7/1/2007 21:05
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Marcela Fells
 

Estilo bem novo-existencialismo que toma conta dessa nova geracão de escritores...comose fosse uma demnstracão do nosso profundo sentimento de NADA. Está bonito, vamso ver os próximos que vc publicará

Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 8/1/2007 21:57
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