Há quase quinze anos atrás eu e minha família fomos à Ilha Comprida no litoral de São Paulo. Na descida da serra optamos por passar por Sorocaba e seguir pela SP 079. Um caminho que ficou para a história das histórias contadas em minha casa. Uma rodovia belíssima, florida, com a Mata Atlântica mostrando toda sua beleza e poder, adentrando a rodovia, mostrando que nós éramos pequenas peças na natureza.
O caminho tortuoso, uma espécie de los caracoles brasileiro que nos fez passar mal, ter náuseas, alguns não agüentaram... E aquela beleza chegou mesmo a nos enjoar, cansar a vista e querer chegar logo a um lugar mais plano, especialmente na praia!
Bem, quase quinze anos após aquela viagem fui novamente com minha família e resolvemos passar por Sorocaba e descer a serra, beber água no poço da anta, enfim, percorrer novamente aquele caminho aventureiro e bonito.
Entretanto, aquilo que vi me chocou muito. Me fez repensar as aulas de Geografia que ministro.
Ouço falar e leio um bocado sobre o aquecimento global, paranóias e “verdades” que sustentam os discursos ambientais e o terrorismo ambiental. Digo discursos porque são vários, embora a mídia massacre a população com a teoria do aquecimento é preciso saber que há também uma teoria do resfriamento global e outras e que nenhuma delas é possível de se comprovar em tão pouco tempo. Mas há indícios ou hipóteses para todas elas, afinal são teorias.
Mas, sabemos que mesmo a ciência, ou qualquer outra forma de conhecimento, ainda não dá conta do que acontece, ou então busca um culpado, busca uma forma de remediar problemas e aponta seus dedos para este ou aquele agente. Tenho parentes vegetarianos que em toda refeição que fazemos em conjunto lançam seus olhares e discussões para os onívoros dizendo que a culpa do “aquecimento global” é nossa, pois comemos carne. A culpa do desmatamento global é nossa, porque comemos carne. Mas, a serra do mar me mostrou uma paisagem que, como Geógrafa, me fez pensar profundamente em todos esses discursos e, mais uma vez ir além.
O que tenho pra falar não é nada revolucionário, é um ponto de vista. Um ponto de vista que também não é inédito. Mas, ainda sim cabe lembrá-lo porque o que vejo após 10 anos de estudo em Geografia, (uma ciência que analisa o homem em seu meio, uma ciência de fato ligada ao ambiente, e que não se apodera deste por modismo, mas sim por nascimento,) é que os discursos ligados ao meio ambiente, ao espaço, especialmente os veiculados a todo tempo pela mídia são errôneos, são tortos, descabidos e sem análise, sem questionamentos.
Isso quer dizer que na maioria das vezes os problemas ambientais são postos para o outro. O vegetariano acusa o onívoro de ser o culpado de tudo. O onívoro acusa as corporações. As corporações acusam as populações, especialmente as grandes populações ou países populosos que estão chegando ao mundo consumidor. Os países pobres acusam os países ricos. E, os ricos acusam os pobres dizendo que a culpa é dos animais criados nos países pobres e sua flatulência. Tudo isso nos faz rir, é mesmo uma piada e de mau gosto.
E isso quer dizer que a maioria dos problemas mundiais ainda está ligada à vaidade humana. Como disse Al Pacino em o Advogado do Diabo, na última cena do filme: A vaidade é o meu pecado predileto. Sim, claro, não é culpa minha nem nossa. O problema é causado pelos animais flatulentos. Não é culpa dos vegetarianos, é dos que comem carne.
Eu sou bom, sou gente boa, não tenho culpa pelos problemas ambientais.
Pois bem, mas o que foi que eu vi na Serra do Mar que me fez refletir sobre tantas coisas? Eu estava indo para a praia, passar o final de ano com a família e essa paisagem me fez entristecer, me fez questionar muitas coisas e me fez ter um final de ano mais introspectivo do que eu gostaria.
A paisagem da Mata Atlântica da Serra do Mar, aquela que era quase intocada em função das dificuldades de penetração pelo relevo e pela mata estava tomada pelo plantio de bananas. Sim, bananas.
Quer algo mais corriqueiro na vida de um brasileiro do que banana? Ela está no dia a dia de todos os tipos de pessoas, ricos, pobres, saudáveis, não saudáveis, vegetarianos, comedores de carne, marombeiros, patricinhas, playboys, trabalhadores braçais.
E, foi justamente isso que me fez pensar. Não é culpa do gado. Não é culpa da soja. Não é culpa da cana. Claro, todos já sabemos disso, a culpa é do nosso modo de vida, das escolhas que fizemos. E isso vale para todos os países porque todos nós, países capitalistas, adotamos esse modo de vida. Percebi que a Serra do Mar não é mais do Mar, é do Homem.
Como pode o cultivo de banana tomar boa parte da serra do mar, da Mata Atlântica tão famosa, cheia de organizações, instituições e etc para protegê-la? Neste momento se quiserem façam uma pausa para o que está ocorrendo no Cerrado, já que a Mata Atlântica tem muito mais organizações e legislação para lutar por sua proteção do que o Cerrado.
E, justo a banana, presente na alimentação de todos aqueles que querem tentar levar uma vida saudável. Lembrei-me do meu enorme esforço indo às feiras próximas à minha casa para comprar produtos artesanais, comprar barras de cereais naturais, bananas passa, frutas secas em geral para não comprar de grandes empresas. Mas, do que adianta? Os produtores são os mesmos.
E, vejo que toda nossa rotina está condicionada a consumir mais, produzir mais, num ciclo poderoso e que parece cada vez mais difícil de findar.
A paisagem de bananas para mim evidenciou que não é culpa de um ou outro produto. É culpa do nosso modo de vida. É culpa das nossas escolhas. E nós trabalhamos duro para isso, para poder comer bem, fazer exercícios para poder comer mais, ter mais saúde, viver mais, para consumir mais.
Nenhum de nós quer perder um pouco do luxo que já conquistou. Nenhum de nós quer deixar de conquistar um pouco de luxo e mordomia. Ninguém quer andar de ônibus se tiver um carro disponível. Ninguém quer diminuir seu consumo diário. Não, as nutricionistas e profissionais da saúde nos dizem que precisamos comer seis vezes ao dia. Precisamos comer cinco tipos diferentes de frutas ao dia. Precisamos comer dois ou três tipos de cereais, um tipo de carne, leite, iogurte, folhas frescas, tomar suco. Tudo isso é estimular o consumo também. Todos estamos mais gordos. E, para minimizar isso fazemos exercícios em academias, clubes. Como bichos no zoológico: comemos, nos exercitamos para nos exibir bonitos, voltamos a comer, experimentar mais e mais combinações e tipos de comidas, depois nos exercitamos e assim somos crescentemente melhores consumidores. (Sem falar nos produtos plásticos, nos eletroeletrônicos que tomam conta de nossas vidas, das roupas, utensílios domésticos e de toda uma gama de produtos que hoje são descartáveis e somam toneladas de produção e de lixo.)
Estes problemas se acumulam, pois dependemos da política para tentar minimizá-los com transporte público decente (é incrível como só a gripe suína fez as pessoas pensar nas condições absurdas do transporte público, ninguém nunca tinha parado para questionar como os ônibus são lotados, ninguém nunca questionou a inexistência de cinto de segurança nos bancos de ônibus, ninguém nunca questiona a possibilidade dos passageiros serem transportados de pé, enquanto o transporte individual requer mais acessórios, até pela legislação (air bags, barras de proteção e etc) o transporte coletivo não requer nada, nós não exigimos a menor segurança para os que os utilizam), planejamento urbano adequado, planejamento ambiental que oriente áreas produtivas, rotação de culturas e de lugares para cultivo, descansar a terra como faziam os antigos. (Cabe outro parêntesis para a questão dos transportes porque é triste ver na televisão todos os dias as críticas sobre o apagão aéreo e nenhum acompanhamento sobre o transporte terrestre, sobre as rodoviárias, as condições dos ônibus, a máfia das empresas, o monopólio das rotas e etc.)
Mas, a verdade é que a crise não é só ambiental, é uma crise generalizada, não conheço uma só pessoa que conheça um político, que tenha um canal aberto de comunicação com políticos, não conheço ninguém que se sinta representado de fato pelos políticos. A democracia é uma vergonha, não nos sentimos mais representados por ela. A quantidade de políticos é enorme e diversa e com isso perdemos totalmente o controle. A democracia está sim em crise.
Não temos alguém para apontar ou cobrar. Não conseguimos mais. Cada um faz o seu dia a dia, cada um toca sua vida. Então para que tanta gente nos representando? Para que tantos salários, tantos funcionários? A corrupção é inevitável neste sentido, pois não conseguimos acompanhar tantos funcionários e, como não há necessidade de tanto trabalho para eles, pois eles também se perderam no caminho, ficam ociosos e trabalhando apenas por interesses próprios. Li em um muro pichado em Goiânia uma vez a seguinte frase: a democracia é a possibilidade de escolher o molho com o qual você será devorado. Cômico, mas interessante.
Portanto, é preciso pensar que as coisas não podem ser separadas. Um olhar ambiental para o mundo, um olhar sobre a paisagem e o que ela nos diz vai aos poucos expondo como as coisas estão entrelaçadas, como um produto simples como a banana nos mostra que o homem tem poder e aos poucos vai ocupando áreas para produção e como essa produção é crescentemente maior. Independente do produto, o desmatamento, a abertura de novas áreas para plantio, o crescimento da produção, o descaso político e, o nosso descaso vão somando alterações no espaço. Essas alterações vão marcando a paisagem e mostrando que seja problemático em função do aquecimento ou do resfriamento, o que é visível é que o homem está escolhendo um caminho de excesso de consumo e excesso de produção que não condiz com as necessidades de sobrevivência do próprio homem (como água limpa, oxigênio, alimentos naturais...). Sem contar nos direitos da fauna e da flora, nunca levamos em consideração que eles deveriam ser preservados pelo simples direito de estarem no planeta assim como nós.
Mas, todos sabem o que irá acontecer. O homem somente deixará preservadas as áreas que forem obstinadamente defendidas e requeridas para tal fim. E, talvez isso seja o suficiente, pois o homem crê na técnica, mas talvez não seja, já que temos percebido que o ambiente é interligado, deixar áreas distintas do planeta separadas e sem comunicação e o resto das áreas produzindo como se os biomas fossem independentes pode ser arriscado demais.
Cintia Godoi
Geógrafa
05/01/2010
prezada cintia
parabéns
as serras do rio grande do sul
que na verdade são as escarpas do planalto rio-grandense estão sendo tomadas pelas plantações de eucaliptos
é uma tendência do mundo em que vivemos tudo se transformar em mercadoria
inclusive as ideias que temos sobre alimentação
toda verdade humana é relativa
ao fim e au cabo de tudo
sobra nosso ethos pessoal
um grande e fraterno abraço do
paulo monteiro
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