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SERTÃO VIOLENTO - Conto

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jjLeandro · Araguaína, TO
1/1/2007 · 93 · 1
 


SERTÃO VIOLENTO

jjLeandro


O vasto sertão do Tocantins, quando ainda Goiás, demorou a ser povoado e depois do povoamento, a ser pacificado. Havia até o início do século XX um imenso deserto verde e poucos homens. A maioria migrante do Nordeste, homens fugitivos de lutas eternas naquela região contra a seca perene ou de guerras fratricidas. Uma vez na nova terra reproduziam os vícios de antanho. Ou então geravam ali novas disputas.
A família de Severiano Bezerra migrara para a aprazível região de Monte Alegre com o intuito de alcançar paz e crescimento, e não apenas crescimento econômico; procurava se recompor de guerras intestinas que quase fizeram-na desaparecer. Chegaram ali o velho José Bezerra, a esposa Quintina e o filho Severiano, o caçula, único remanescente de uma prole imensa de 14 filhos, quase extinta ao longo de 25 anos de sangue.
Tão logo botou os olhos sobre a imensidão verde do cerrado e de seus morros exuberantes, que não eram avaros como os homens de lá, José Bezerra morreu. Deu um último e longo suspiro, expiatório de toda a mágoa que o fazia secar por dentro a cada morte de um filho ou um neto. A velha Quintina, suave como a brisa de um final de tarde, tão de acordo com o marido que ninguém lhe ouvia a voz, mas de olhos brilhantes e expressivos que refletiam o acerto de todas as decisões do velho Bezerra, fechou-lhe os olhos no leito de morte. Levantou os olhos para o filho Severiano, ele os viu remansosos, brilhantes, irradiando felicidade. Era o brilho de esperança dos açudes cheios no sertão cáustico do Nordeste. Para qualquer outro seria estranho essa centelha fora de hora, mas ele acostumara vê-los assim cada vez que ela avalizava uma difícil decisão do marido. Juntos tomavam-na e juntos festejavam-na ou lamentavam-na. Nunca, no infortúnio, havia acusação recíproca.
Portanto, foi quase um pleonasmo o que ela disse em seguida, numa voz estranha que Severiano praticamente já desconhecia pela falta de uso. Mas que saiu sem dor, descansada, prenhe de bons augúrios.
—Morreu feliz e em paz. É o que vale!
Um dia depois do enterro quase a sós, pois eram ainda estranhos na nova terra, a velha também expirou. Severiano e os dois homens que os acompanharam desde o Nordeste prepararam a cova e o sepultamento de Quintina, ao lado do velho pai, ao pé de uma frondosa faveira. “Os bons merecem paz e sombra”, meditou enquanto rezava.
O sol incendiava o mundo a sua volta às duas da tarde. O horizonte tremia como se labaredas de aço brotassem do chão. A essa hora a linha do horizonte era uma pintura que se dissolvia num borrão pelo efeito das vibrações do calor. “Essa também não é uma terra para fracos”, adivinhou, “é um inferno no qual faltam apenas os demônios.”
Persignou-se diante das duas sepulturas recentes e, rompendo com o passado, iniciou a sua história.

O destino ou seu pai — inconscientemente — quisera que ele iniciasse sua vida e sua história em terra virgem, onde seus feitos não sofressem o desgaste da comparação nem o ofuscamento dos feitos de outros homens. Severiano não desejou isso, nem a vida que levou daí em diante. Viu-se de repente lançado em um torvelinho e teve que se tornar um bravo para não ser moído. Mas só se torna bravo quem traz latente essa condição inata. Ele trazia. Nada ali era garantia de vida: bravura ou fraqueza. Sabia apenas, com a experiência da terra de origem, que os bravos viviam mais ou morriam com glória.

PARA CONTINUAR A LEITURA ABRA O ARQUIVO DO WORD EM ANEXO

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informações

Autoria
jjLeandro
Ficha técnica
Jornalista e escritor, 46, residente em Araguaína -To. Autor do livro de poesias Quase Ave, com o qual ganhou o concurso literário nacional para autores inéditos Cora Coralina em 2002, em Goiânia

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Sebastião Firmiano
 

Essa prosa fluente,falando de problemas migratórios, com tom
poético é muito bom de ler.

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 30/12/2006 00:31
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