Sete Sonetos de Alma Welt recém descobertos

Parablev
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Guilherme de Faria · São Paulo, SP
2/10/2014 · 0 · 0
 

Foto: Cage- de Parablev

O espelho e o eco (de Alma Welt)

O espelho é um amigo lisonjeiro
Mas não devemos nele tanto confiar.
Narciso não o tem só no banheiro
Pois gosta de em si mesmo se banhar.

Como podes confiar nesse chalaça
Que te mostra como flor enfeitiçada
Se tornando amiúde tua cachaça,
E deixar tua ninfa abandonada?

Báh! Quebrei os meus espelhos, não confio,
Tenho medo demais do seu fascínio,
Abismo onde ando sobre um fio...

Antes ouvir meu Eco que me adora
Mas tornou-se pedra e não escrínio
Que ao abrir liberta minha pandora...


Forçando a rima (de Alma Welt)

Não vim para brigar, não sou de briga,
Sou mulher demais, no bom sentido,
Desaforo me magoa, faço figa,
Resistirá o meu coração partido.

Minha luta é com a palavra no meu verso
Somente pra expressar o que mais sinto
Até quando em mim algo perverso
Insiste em acordar o velho instinto.

Mas se alguém me fizer a vã pergunta:
Para quê então a rima ao versejar?
Chamas sujeira? A graxa o eixo unta...

E se a alguns posso mesmo melindrar
E rubores levantar ao rubicundo,
Falei de tudo o que é humano neste mundo...



O peixe ensaboado (de Alma Welt)

Se não cri também não blasfemei
E mantive o meu decoro ante o sagrado
Dom da Vida, que esta tanto amei
Quanto a Morte me tem horrorizado.

Até aqui fui comum, nada de novo;
Certamente não fui muito original
Nesse medo que mal inibe o povo
Mas que atormenta tanto o Ser mental.

Jamais estarei pronta para ir-me,
Mas deixa que eu aqui me desabafe,
E como peixe ensaboado fique firme.

Não renego um só passo do percurso,
"Rien de rien" como cantou Piaf,
Que à vida me agarro como um urso...


Chorar (de Alma Welt)

Se vierem a ti em busca de consolo,
Báh! Não te eximas conquanto seja vão!
Aproveita que te ouvem, embora seja tolo
Dar conselhos em vez de uma canção.

Então canta, dança, começa a palhaçada
Pois mais vale um riso, ao menos um esgar,
Que melhor foras ridículo que nada!
O ser humano é infantil e quer brincar...

Mas, conselhos? Evita o quanto podes,
Pois certamente hão de voltar-se contra ti
No momento que produzam novos “bodes”.

Pensando bem, faça tu o que quiseres
Somente a vida e cada um sabe de si.
Mas chorar? Antiga arma das mulheres...



O Embalo das Horas (de Alma Welt)

Foi-se a manhã da juventude, docemente,
Como o próprio dia, bem mais tarde
Dá seu lugar ao nostálgico poente
Que vem adormecer como quem arde...

Assim foi minha vida, nesse embalo,
De precário equilíbrio na balança,
E com as horas escoando pelo ralo
Das promessas vazias da esperança.

Sonhei, foi o que fiz e o quanto pude,
E agora mesmo só existo no papel
Ou tenho no soneto a completude.

Mas se há algo nisso de fracasso,
Também tem um pouco deste céu
Que insistiu em dar-me o seu compasso...



Os risos (de Alma Welt)

Ainda ouço os risos dos amigos
Que alegravam este velho casarão,
Soando agora quais ecos antigos
Que se perdem em meio à escuridão.

Revérberos de horas tão distantes,
Esmaecidos o seu brilho e nitidez,
Ficaram para sempre no que é antes
Qual se fora uma eterna gravidez.

Nada se cumpriu, nem a metade,
Como todos nos frustramos mais ou menos,
E os risos são a única verdade...

Neles é que estávamos presentes
E tudo era irrisório ou de somenos,
Mas como eram bonitos nossos dentes!...


Meu Mito (de Alma Welt)

De mim mesma ousei fazer meu avatar...
“Que dizes?”- se espantam os mais céticos,
A tal modéstia sempre prontos a cobrar
Com seu ares e pundonores éticos...

“Não vês que passarás por cabotina,
Cantando a ti própria e no deserto,
Ou bancando tua própria cafetina
Sem sequer cliente algum que chegue perto?”

A tão banais vulgaridades eu diria:
“A modéstia da mentira é o apanágio
E das almas a suprema hipocrisia...”

Erigi em mim meu Mito verso a verso,
E tive que evitar meu próprio plágio
De tanto que amei meu universo...

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Autoria
Alma Welt 1972-2007- grande poetisa gaúcha autora de cerca de 4.000 sonetos
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