Ele era de estatura mediana, mas forte. Nada nele lembrava um homem pequeno. Sua altura, talvez algo em torno de 1,68, era apenas um detalhe. Árabe, palestino, genioso, falava alto, limpando a garganta. Parecia um touro na expressão dos olhos miúdos que lançavam faíscas quando estava nervoso, ou se sentia traído, ou pelo menos fosse contrariado. Os passos dele ressoavam pela calçada, pelas escadas do prédio anunciando sua presença. Quando vinha de bom humor era acompanhado por um assovio inconfundível. Uma velha canção da sua terra, deixada lá longe, além mar. Coisas que eles tocavam numa espécie de flauta nas festas em que dançavam “dabka”, sempre sacudindo um daqueles lenços de bolso numa das mãos, com a outra apoiada atrás das costas, batendo e girando os pés num ritmo que lembrava o cigano, mas não era. Era árabe.
Seu Jamil tinha fama. Na colônia árabe era um líder, meio que uma espécie de rei. Inteligente, influenciava as decisões e volta e meia era chamado para dar opiniões quando se tratava de disputas por negócios mal feitos, ou questões familiares O grupo tinha chegado aos poucos para aquela cidadezinha do interior de Goiás. Agora já eram mais de sessenta famílias, a maioria ligadas por algum grau de parentesco. Pertenciam a duas pequenas cidades próximas à Ramallah, agora estado de Israel, quase duas aldeias. E era assim que se dividiam, em quase todas as brigas e disputas que ocorriam: em quem era de onde.
Na feira, sempre dava trabalho aos barraqueiros, querendo derrubar os preços. Fazia parte da sua cultura brigar, brigar e brigar por uma oferta menor. Já na sua loja era pródigo em presentear os clientes ao final de uma compra grande. Extremos de uma personalidade forte e doce, de quem oscilava entre o castigo e o agrado, como sempre haviam feito com ele.
Tinha chegado com as malas na década de 50. Em uma delas estavam suas roupas, seus pertences. Na outra, mercadorias adquiridas na parada em São Paulo. Naquele tempo não falava uma palavra sequer em português. Trazia nas mãos um papel com um endereço anotado: “Rua 4, nº 54”. Um endereço da então crescente mas pequena Goiânia, onde se localizava a pensão que os “patrícios” da sua cidade tinham escolhido para morar. Foi parar lá de táxi.
No primeiro dia, saiu de manhã com a mala de mascate, circulando por ali, oferecendo sua mercadoria numa linguagem improvisada. Andou tanto que se perdeu, e não encontrou o caminho de volta para a pensão, onde o trato incluía pernoite e almoço. Com fome e alguns trocados no bolso, parou num botequim. Pediu, à sua maneira, uma coxinha com guaraná. Era o que dava para comprar. Comeu com fome de lobo, e lágrimas nos olhos. Elas sempre voltavam à baila décadas depois, quando contava a história aos filhos. Mastigou a comida insuficiente, e meio saciado, meio humilhado com a situação, voltou às ruas.
Alí começara sua aventura no Brasil. O país onde conheceu e se encantou com uma bela moça goiana, professora primária, filha de mãe negra e pai português, que viria a ser a mãe de seus filhos brasileiros. O país onde encontrou uma nova identidade, uma nova vida. Tinha vindo “fazer a América”. E com certeza faria.
Quero o outro capítulo rapidinho.
Tacilda Aquino · Goiânia, GO 22/3/2007 16:20
seu Jamil...
e assim se formou o Brasil!
Primeira vez aqui Tum Tum...
Você escreve muito bem menina, pq não me convida para visistar?
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