Naquele dia, seu Joaquim amanhecera mais taciturno e impaciente que o de hábito. Seus oitenta e sete anos dever-lhe-iam ter sido mais gentis e presenteá-lo com alguns lapsos de esquecimento, como acontece com qualquer outro “velhinho”. Este era o problema: tinha uma consciência viva de suas limitações e de seu limite. E naquele dia, mais do que em qualquer outro, a névoa dos anos se tornava mais opaca, mais fria, mais densa... Sentado à mesa, seu Joaquim observava os movimentos de Francisquinha, que lhe punha gentilmente o café. Menina! Devia ter lá seus vinte e dois! Ainda tonta das ilusões que a vida oferece no verdor dos anos. Movimentos lépidos e destros contrastando com seu espetáculo particular: uma mão decrépita, trêmula, oscilante que tateia em busca da xícara de café. Alcança-a, não sem deixar-lhe cair algumas gotas sobre a toalha de croché. O líquido descia quente pela garganta de seu Joaquim, enquanto este esperava que aquele dia – mal começara – acabasse junto com todos os outros que se lhe viessem. Era mais um dia de angústias e de nulidade. Mais um argumento a defender a morte. Mais um motivo para não se comemorar. Era seu aniversário.
Obrigado, Diogo. Foi minha primeira tentativa de conto (ou melhor, miniconto). É bom receber um "excelente" como incentivo. Novamente, obrigado.
Um abraço.
Obrigado, Mão Branca!
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